A sátira fica-vos tão bem


Little Murders é a primeira de duas longas-metragens até hoje assinadas por Alan Arkin, célebre e prolífero actor norte-americano (porque não falamos mais dele neste nosso país à beira mar plantado?), escrita por Jules Feiffer a partir da sua peça homónima. Este talvez seja um dos filmes mais provocadores dos gloriosos anos 70 do cinema dos states, e que, com quase cinquenta anos de idade, ainda tem tanto para nos dizer. Elliot Gould, ator que estava a viver a sua "época d'oiro", é o protagonista de uma narrativa pontuada pelos medos e angústias da sociedade nova-iorquina, que vão desde os confrontos raciais à demais violência urbana, passando por apagões de eletricidade, o uso das armas e o exercício da paranóia coletiva (tão inerente ao cinema da época - é dela que extraímos alguns dos melhores filmes com esse tipo de "ambiente" - lembram-se de The Parallax View ou Three Days of The Condor?).  Esta comédia muito, muito negra (ou, em português para os mais incautos, "uma comédia muito, muito esquisita") andou esquecida da cultura popular e do mercado home video nas últimas décadas, sendo praticamente desconhecida no nosso país - e a sua abordagem do mundo virada para um tom pouco simpático terá ajudado a que não fosse visto por estas bandas na época da sua estreia. Mas, em boa hora, Little Murders foi recuperado pela Powerhouse Films, numa excelente edição em bluray carregadinha de gostosos extras. 

O que se passa aqui? Há uma espécie de comédia muito negra, que pode provocar murros no estômago por ser "outrageous", na sua crítica afiada e sem papas na língua às pessoas e aos seus costumes. Talvez o tom de Little Murders possa ser excessivo para estes tempos em que nos querem fazer crer que a vida é um mar de alegrias povoado pelos posts dos amigos mais presentes nas redes sociais. Mas este filme é uma boa sugestão para todos os que não ficam satisfeitos com a oferta convencional de cinema que está mais acessível (nas TVs, streamings e salas desta vida). É um pequeno tesouro perdido, um filme que não carece de defeitos, mas cuja audácia humorística e satírica ainda pode causar dói-dói ao espetador contemporâneo. Não há aqui ninguém que possa ser salvo, nem mesmo por amor, ao contrário do que diz o título ridículo que este filme terá recebido por cá, nas raras vezes em que foi exibido. Uma comédia invulgar, injustamente escondida do cânone do cinema americano, mas que é tão (ou mais) reveladora desse período dourado, e ao mesmo tempo, tão relevante para a modernidade, como outras obras "rebeldes" mais conceituadas desse período - porque tudo continua em constante rota de colisão. 

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