Um pirata dos anos 80


Matthew Broderick é um miúdo viciado na “alta tecnologia” dos anos 80, que começa a hackear alguns computadores que lhe dão jeito: o da escola, para alterar uma nota negativa; uma agência de viagens, para comprar bilhetes sem ter de tirar um tostão do bolso… e, por acidente, o sistema informático de um centro militar! Com pequenos gestos ele pode, a partir de agora, provocar grandes alterações em sistemas informáticos diversos, e graças a isso, surgirão algumas consequências menos boas. É esta a base de um dos filmes-chave do pânico nuclear dos anos 80 por excelência, ou como lhe gosto de chamar, com muita prosápia (mas pouquíssima - ou nenhumíssima - credibilidade), o Dr. Strangelove para a era do boom dos teen-movies e dos Arcades.

Numa época em que a internet não era mais do que uma coisa restrita aos grupos do poder - o que motivava ainda mais a entrada clandestina de alguns hackers mais ou menos experientes - John Badham lança WarGames, filme tão intrinsecamente ligado à sua época como simultaneamente intemporal, um conto que, nos seus contornos gerais, nada tem de inocente ou redutor, e que fala de coisas bem reais do nosso tempo, como a fragilidade da segurança nacional no que ao online diz respeito. E é interessante ver como o filme trata essa temática com tanta aparente ligeireza quando, no início, nos mostram que bastam mudançazinhas tão simples em alguns códigos para provocar uma espécie de desastre à escala global. Para Broderick é tudo muito divertido, até ao ponto em que o jogo passa para uma máquina preparada para lidar com o pior dos cenários de guerra possível.

Tudo termina numa corrida contra o tempo para evitar a maior catástrofe de sempre. Depois, o espectador fica com uma reflexão que, se bem que não seja tão profunda como outros clássicos do cinema da guerra fria, é igualmente pertinente. Porque ao contrário do que se poderia pensar, naquilo que a idade pode fazer a alguns filmes, WarGames não perdeu nada das suas intenções, nem pode ser visto como uma ficção ingénua sobre os primórdios da alta tecnologia. É certo que, ao ver Broderick a mexer em maquinetas tão arcaicas, pertencentes aos primórdios da internet, o espectador moderno poderá torcer o nariz ou rir-se com todos aqueles barulhinhos que fazem com que os velhinhos modems de ADSL pareçam a obra prima da quietude internética. Mas os resultados dos actos do protagonista revelaram-se, de certo modo, proféticos. Nunca a internet foi tão acessível como na actualidade, e em consequência, nunca o conceito de privacidade pareceu tão démodé como em 2017.

O que o filme nos tem a dizer continua a ser, por isso, importante, nestes tempos em que estamos conectados em todo o lado e a toda a hora, em que aplicações ou medidas cibernéticas tomadas por um qualquer governo nos fazem mergulhar em episódios da vida real que parecem escritos por um dos mestres das distopias da literatura.

P.S. – Menti umas linhas atrás. Ou pelo menos em parte. Apesar da narrativa não ser ingénua, o seu desfecho pode parecê-lo totalmente a quem vir o filme agora, mais de três décadas depois da sua estreia. Mas é por causa uma coisa que se desculpa porque eram outros tempos, em que se achava que o conflito entre homens e máquinas podia ser tão facilmente resolvido. Ou seja, não é culpa do filme, mas de nós e da forma como a vida acelerada nos molda a percepção do mundo. Falo do pequeno mecanismo da história que justifica a “reviravolta” no desfecho. É uma ideia bonita, filosoficamente falando, mas na nossa era cínica, desemocionada e conectada apenas com a realidade do mundo virtual, parece demasiado simples para resolver um problema tão grande – que, a re-acontecer nos nossos dias, teria muito menos probabilidade de culminar num happy ending.

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