quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Politiquices correctas

Meus caros, só para que saibam (porque parece que continuamos a bater no fundo nesta questão), há dois tipos de "Politicamente Correcto" - expressão que, por si só, não faz jus a uma coisa que é muito importante nestes tempos estranhos que estamos a viver: a boa interpretação dos dizeres alheios. 

Um deles é, lá está, verdadeiramente correcto e, creio, necessário. 

O outro é apenas fanatismo ignóbil. 

Há ainda aqui uma terceira categoria nesta questão: a do uso manipulado do "Politicamente Correcto", como um mecanismo para que pessoas preconceituosas utilizem a sua ignorância como uma arma. Esta situação também pode ser designada como uma espécie de vilania que anda a pairar pelo mundo e a ganhar cada vez mais espaço mediático. 

Não vale a pena confundir as três coisas. É perigoso, até (pelo menos é o que dizem!) 

Vejamos o exemplo, tendo em conta a seguinte situação, fora da nossa realidade (porque assim talvez alguns percebam melhor o problema), e as 3 alternativas de reacção ao mesmo: 

Monteiro Lobato, criador do Sítio do Picapau Amarelo, era racista e simpatizante do KKK. Um dos seus livros, que tem uma linguagem a que podemos associar essa "simpatia", esteve, durante muito tempo, incluído no programa das Bibliotecas escolares brasileiras. 

1. - "Politicamente Correcto" correcto 
"Para impedir a propagação destas práticas e ideologias na juventude, vamos retirar o livro desse programa, mas não o vamos 'queimar'. Ele poderá continuar a existir, mas em edição crítica que mostre ao leitor que o livro não é para ser lido com olhos ingénuos ou desprovidos de informação. Retirar o acesso a uma obra que está errada não deve ser opção, mas ao permitir que seja disponibilizada, é necessário ajudar a que ninguém se sinta tentado a ver nela a 'verdade'."

2. - "Politicamente Correcto" incorrecto 
"É destruir todos os exemplares já!" 

3. - "Politicamente Correcto" visto pelos fascistas, neo-nazis, comentadores instantâneos de vão de escada para qualquer polémica da web (a.k.a. os "politicamente incorrectos") 
"O quê? Já não se pode dizer nada! Eu tenho a liberdade de dizer que a pretalhada vá pr'ó #$%&! e o que era preciso era um Mein Kampf em cada esquina! Estamos numa democracia ou não? Isto é censura! C-E-N-S-U-R-A!" 

Gone With The Wind e outros ditos clássicos do cinema datados para a actualidade (lembro-me, por exemplo, da agonia que foi, para mim, ver os momentos de blackface de The Jazz Singer, ou os "negros burros" de Cabin in the Sky) inserem-se na primeira categoria. É necessário continuar a assegurar a existência desses filmes e levá-los a novos públicos, não só porque são importantes na História do Cinema, mas também porque são documentos de costumes, arte, ideias, etc.Como impedir que sejam mal interpretados? Há mil e uma maneiras: o filme de Minnelli que indiquei vinha acompanhado de um disclaimer, que introduz o visionamento, e que explica o que há de errado no seu conteúdo. 

Eliminar as fitas controversas (ou que, apesar de terem material que pudesse sempre suscitar debate, só reaparecem/ressuscitam pelo alvoroço da opinião pública das redes sociais) não resolve nenhum problema. Apenas poderá aumentar a existência das outras duas categorias, que já agora, estão erradas. Mas é óbvio que uma está mais errada que a outra - a terceira. Só que me parece que a segunda impulsiona a terceira. Por isso apagamos estas duas e ficamos só com a primeira. Capisce?

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