terça-feira, 11 de julho de 2017

100% algodão


Inventar e desenhar uma banda desenhada é um exercício de longe mais útil, em todos os sentidos, do que fazer uma redacção sobre o dia da mãe ou da árvore. Aquele implica: conceber um argumento, elaborá-lo, estruturá-lo e organizá-lo em vinhetas, inventar os diálogos, caracterizar física e psicologicamente as personagens, etc. Coisas que, por vezes, as crianças, por serem inteligentes, fazem sozinhas por diversão, quando possivelmente na escola têm negativa à sua língua materna.

in A Gramática da Fantasia, de Giovanni Rodari, pgs. 120-121 (edição: Faktoria de Livros, 2017)

Um filme a que ninguém vai dar dois tostões de dignidade é este: Captain Underpants: The First Epic Movie. Já estão os cinéfilos a torcer o nariz para o que vai ser debitado nas próximas linhas, mas como eu defendo que o Cinema não se faz só (felizmente!) das obras que constam dos cânones académicos, cá vai. 

Para quem não conhece, o super-herói que dá título ao filme é uma criação de duas crianças (George e Harold) com uma enorme imaginação (coisa que não agrada aos seus professores nem ao temível reitor da escola primária, o senhor Krupp). Um belo dia, as BDs desses dois rapazes ganham vida, já que o seu herói de papel acaba por ser encarnado por Krupp em estado de hipnose, cumprindo essa função envergando, somente, uma peça de roupa interior e um cortinado vermelho atado ao pescoço. Com isto chega uma série de aventuras contra os mais estranhos vilões - desde zombies da cantina até sanitas falantes -, espalhadas pelos diversos livros que compõem a série, ainda em desenvolvimento.

Depois desta resumidíssima descrição de todas as ideias hilariantes que compõem os livros de Dav Pilkey, convém acrescentar que as histórias do Capitão não se tratam apenas de uma sucessão de patetices para crianças, feita à base de piadas com as necessidades básicas do ser humano. Só pessoas com dois preconceitos bem enraizados nas suas cabeças (um em relação à comédia, outro em relação ao valor da animação enquanto Cinema) é que não poderão compreender, de facto, como este filme nega a imagem que queremos fazer dele sem o termos visto.

O filme é de aventuras, de sátira aos costumes da sociedade, e vai muito além do que pensamos ser o "humor infantil". É uma adaptação dos livros divertidíssimos de Pilkey (que marcaram a minha infância e a quem devo parte do que sou hoje), com especial destaque para o primeiro e quarto tomos (e ainda algumas referências dos restantes), e um dos raros filmes de animação que contraria a tendência do género, espelhada nos seus milhentos títulos que povoam as salas a cada semana: não estamos perante um mero pretexto para vender bonecos e outros produtos de merchandising, derretendo a cabeça dos mais velhos de tédio e fascinando/hipnotizando as crianças apenas por ser um espectáculo de várias luzes e cores.

(O curioso é que antes da sessão começar, surgiram uns dois ou três trailers de próximas estreias que só cheiravam a isso, de uma ponta à outra. Mas adiante!)

Por alguma razão, Captain Underpants: The First Epic Movie, apesar de ser uma surpresa bastante fora da caixa (confesso que eu próprio fiquei com medo de me deparar com um mero filme para sacar euros à minha carteira) não foi muito bem recebido pelo público ou pela crítica. Ninguém quis levar este filme "a sério" quando já muitas animações esquecíveis, menores e desinspiradas receberam, por menos, enormes louvores de ambas as partes.

É claro que ter "cuecas" no título não deixa uma suspeita de confiança - mas quem perder esse preconceito e dirigir-se a uma sala de cinema (por cá só temos disponível a versão dobrada, que está óptima!), verá que o filme funciona como uma bela autocrítica ao padrão da animação americana moderna, e joga muito bem com todos os estereótipos relacionados com o humor. Creio que grande parte dos adultos, que ainda tenham uma porção de miudice nos seus corações, irão rever-se nos diálogos, em parte retirados a papel químico dos livros, e no resto acrescentados e melhorados para um maior efeito satírico. O resultado final é uma história nova, que homenageia as originais sem medo de trazer inovações, gozando com a sisudez e rigidez dos filmes de super-heróis "sérios", que acabam por ser tão ridículos pelas mais diversas razões. 

Agora, passemos ao lado pessoal disto: Os livros incluem várias das BDs feitas pelos dois garotos que os protagonizam, estão cheias de erros ortográficos e um desenho digno da quarta classe (o que aqui, faz todo o sentido, visto que é esse o ano de escolaridade da dupla). Foram um dos meus refúgios à vida escolar e ao facto de me sentir sempre excluído da maioria dos meus colegas. Não tinha jeito para jogar à bola nem para muitas das demais brincadeiras comuns, numa sociedade em que os meninos são dos action mans e as meninas das barbies.

E as histórias do Capitão motivaram-me logo a fazer as minhas próprias bandas desenhadas. Mal e porcamente desenhadas, com ainda menor qualidade que os rabiscos de George e Harold, mas com uma escrita mais razoável. Desde rip-offs completos deste universo até a histórias próprias, fui criando uma série de bonecos, entre folhas quadriculadas e bocados de papel cavalinho rasgados à pressa. Na primária era uma das poucas coisas que me permitia ter contacto com outros seres humanos - aliás, costumavam circular de mão em mão, o que me levou uma vez a levar um raspanete da professora, à frente de todos os colegas, pela demasiada estupidez criativa que englobava o meu... "estilo".

Ver este filme fez-me recuperar uma série de memórias desse passado não muito longínquo, que quase me provocaram uma ou outra lagriminha E senti que os autores do filme (mais do que uma adaptação e, até, uma reinvenção bastante inteligente de todo o material de origem) fizeram-no a pensar nisso: no facto de as histórias de Pilkey dizerem muito mais sobre nós, as nossas inseguranças, e a forma como lidamos o quotidiano do que possa parecer.

Captain Underpants: The First Epic Movie não é mais um filme animado cheio de referências pop. É uma bonita homenagem a todos aqueles que, como eu, passaram pelas mesmas coisas que George e Harold, que cresceram num meio sério onde o riso é visto como uma heresia, em que o humor é o único escape para os problemas existenciais que, apesar de míseros se analisados na perspectiva de um adulto, aterrorizam a vida de uma criança. Além de que é dos poucos filmes que tenho visto, nos últimos anos, que apela verdadeiramente à miudagem, sem as tretas do costume, e redireccionando-as mais para outras mensagens também essenciais para todos, como "sejam vocês próprios, e não tenham, por isso, qualquer medo de fazer piadas com as necessidades humanas, nem de expor o ridículo de todas as situações da vida". Por fim, há ainda um apelo para a banda desenhada e o seu valor na formação de uma criança - um pouco como dizem as sábias palavras de Rodari! Não é só das obras de leitura obrigatória que se fazem os hábitos de leitura de uma criança.

E tudo isto graças a um herói que proclama lutar pela liberdade, pela justiça, e por tudo o que é pré-lavado e macio como algodão. Não é espantoso?

Já devem ter percebido a razão para eu ter visto este filme, que dirá tanto à maioria dos mortais, e erradamente, como qualquer filme de animação americano banal que chega às salas. Não é que possamos bem dizer que o filme é um exercício de nostalgia, porque as histórias são relativamente recentes, mas apesar de tudo já lá vão 20 anos desde que Pilkey publicou o primeiro livro dedicado à personagem (é de 1997). Mas este é um acontecimento animado que poderá dizer muito aos millenials. Ou a toda a gente. E não só a mim.

Portanto, é ir ver, sem tabus.

P.S. - e claro, é de bom tom dizer ainda que este filme tem a melhor sequência dedicada à flatulência de toda a História do Cinema, num momento musical que, resumidamente, é hilariante. Sim, até ultrapassa a do Blazing Saddles.