Adivinha quem vem jantar


Não é a “última coca cola do deserto” ou uma das surpresas do ano, e provavelmente o filme foi vítima de todo o gigantesco hype que rodeou o seu lançamento. Get Out é um conto negro (passe-se a estranha e acidental redundância) de macabros contrastes, que lida com pequeníssimas doses de “horror” e algum suspense para criar uma atmosfera que, por momentos, é muito intrigante. 

Nas melhores sequências do filme, na odisseia horrível em que o protagonista se mete e quando aos poucos vai descobrindo a verdade, nota-se a grande capacidade de Jordan Peele em agarrar o espectador, através de uma montagem que não foi feita em piloto automático, como é costume na maioria dos filmes americanos mais mainstream (e um filme que consegue ter planos com mais de 5 segundos, nos dias que correm, é de louvar). Veja-se por exemplo quando Chris chega a casa dos “sogros”: um plano relativamente “longo”, filmado à distância dessa cena, do ponto de vista do jardineiro. É uma ideia muito simples que serve logo para criar alguma inquietação. 

Mas o que o filme tem de relevante, no que diz respeito ao panorama político dos states em 2017 (e nunca se cansam de referir, em sucessivas linhas de diálogo, que a narrativa se situa num tempo e num espaço muito definidos da vida americana contemporânea), acaba por não compensar a preguiça, que se reflecte num desfecho indecente e rebuscado para a história. Não é que eu ligue muito a isso, grande parte dos filmes que eu adoro não têm um guião que possa servir para estudos em escolas de cinema. Mas Get Out é demasiado flagrante nas suas falhas: leva o espectador para uma direcção, constrói tudo de uma forma decente e, em parte, entusiasmante (e não é que seja especialmente inovador na sua abordagem, mas não chateia com as suas ideias iniciais over the top), para no fim descambar numa coisa qualquer inventada para despachar tudo sem ponta por onde se lhe pegue. Depois de um set-up tão bom, é pena ver que somos compensados por um pay-off tão duvidoso.

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