quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma vez na vida


A primeira vez que vi o Stop Making Sense foi numa sessão do Monumental, há coisa de um ano e meio, entre vários títulos de uma retrospectiva dedicada ao seu realizador, Jonathan Demme. Estavam uns seis ou sete gatos pingados na sala, sendo que dois pareciam dormitar (como é isto possível?!) ao som dos ritmos tão contagiantes dos Talking Heads. É uma daquelas sessões que me ficaram marcadas na memória, não só por ser um fã enorme da banda liderada por mr. Byrne, mas porque essa foi uma das raras ocasiões em que pude ver um grande concerto filmado para cinema num próprio cinema, com um ecrã de dimensões mais apropriadas para a qualidade do espectáculo. 

Se o concerto é por si próprio fabuloso, passá-lo para filme (ou seja, capturar com a mínima decência pelo menos um centésimo do entusiasmo que a banda e o público sentiram naquela noite) poderia ser uma tarefa bastante complicada. E são pouquíssimos os filmes que conseguiram cumprir isso, e com resultados bem acima da média. Com The Last Waltz (que é meio documentário, e não só concerto como é aqui o caso), Stop Making Sense é o meu filme-concerto de eleição, e o testemunho inesquecível de quão estrondosa seria realmente a energia dos Heads e seus colaboradores em palco. 

De cada vez que volto a repescar este filme, ou apenas alguma das suas faixas (em CD ou nos clips disponíveis no YouTube), sinto mesmo que fiz uma total viagem no tempo, e lá estou eu na primeira fila, em frente ao David, à Tina, ao Chris e ao Jerry, a divertirem-se imenso, naquela que é, sem dúvida, um dos maiores espectáculos do cinema, que convida ao pézinho de dança ou simplesmente ao acompanhamento do(s) ritmo(s) com qualquer membro do corpo. 

Muito desta experiência, ou pelo menos do facto deste concerto em filme ter conseguido ultrapassar o seu tempo e continuar tão surpreendente, deve-se ao senhor Demme, que nos deixou hoje. É claro que THE SILENCE OF THE LAMBS foi daquelas experiências marcantes para a minha geração, mas a escolher um filme da minha vida, daqueles a que agradeço o facto de existir todos os dias, é este Stop Making Sense. E perdoem-me a expressão linguisticamente correcta, mas é um dos espectáculos mais espectaculares do cinema, da música, e de tudo o resto.

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