Uma plateia contra uma plateia.


Ou: quando o palco também se transforma numa plateia. 

Em O Cinema, de Annie Baker, há uma sala de cinema construída no palco. Tem lá o lixo doméstico e alimentar deixado pelos mais variados tipos de clientes, e que vai sendo "reposto" ao longo de toda a peça. Há espectadores que ficam até ao fim do genérico, ou a dormir depois de tudo acabar. O digital contra o analógico é uma questão sempre presente, o que incomoda mais a personagem cinéfila do que as outras, que só querem saber se poderão continuar ali a ter as suas vidinhas e a aldrabar as contas da caixa quando é preciso. E os protagonistas são dois frentes-sala e uma projecionista, que circulam por aquela sala suja entre recordações do trabalho, segredos pessoais e opiniões sobre vários filmes. 

O "ecrã" está virado para a outra plateia, a nossa, nós que somos os verdadeiros espectadores desta peça tragicómica sobre um trio de pessoas com vidas deprimentes, cada uma à sua maneira. Vemos e ouvimos filmes, as personagens trocam referências cinéfilas envolvendo ou não as fitas (desde a passagem de Ezequiel em Pulp Fiction à Criterion Collection), e o cinema é usado para falar de coisas banais da vida, mesmo naqueles momentos em que não sabemos como confrontar uma situação, e em que só uma citação de um filme parece ser a resposta mais adequada. 

Mas O Cinema não se resume ao cinema: há tanta coisa bonita aqui. As personagens conhecem-se, auxiliam-se, divertem-se e destroem-se aos poucos. Há espaço para tantas gargalhadas como para outros tantos momentos dramáticos excepcionais (como o final da primeira parte da peça, que deve ser um dos momentos mais geniais de teatro, quer em timings quer em construção emocional, que já vi na minha curta experiência como espectador), muito por "culpa" dos 3 grandes actores e de uma encenação de se tirar o chapéu. 

E é tudo tão bom, nesta obra magistral de Annie Baker, vencedora de um Pulitzer. Estreou na passada sexta-feira na Culturgest, e vai estar em cena de 3 de Maio a 3 de Junho no Teatro da Politécnica. O cinema é maior do que a vida, e o teatro também. Esta é daquelas peças excepcionais que apetece ver outra vez logo assim que termina. Tal como um grande filme no grande ecrã, projectado em 35 mm. Por isso, vão ao teatro ver O Cinema.

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