quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Politiquices correctas

Meus caros, só para que saibam (porque parece que continuamos a bater no fundo nesta questão), há dois tipos de "Politicamente Correcto" - expressão que, por si só, não faz jus a uma coisa que é muito importante nestes tempos estranhos que estamos a viver: a boa interpretação dos dizeres alheios. 

Um deles é, lá está, verdadeiramente correcto e, creio, necessário. 

O outro é apenas fanatismo ignóbil. 

Há ainda aqui uma terceira categoria nesta questão: a do uso manipulado do "Politicamente Correcto", como um mecanismo para que pessoas preconceituosas utilizem a sua ignorância como uma arma. Esta situação também pode ser designada como uma espécie de vilania que anda a pairar pelo mundo e a ganhar cada vez mais espaço mediático. 

Não vale a pena confundir as três coisas. É perigoso, até (pelo menos é o que dizem!) 

Vejamos o exemplo, tendo em conta a seguinte situação, fora da nossa realidade (porque assim talvez alguns percebam melhor o problema), e as 3 alternativas de reacção ao mesmo: 

Monteiro Lobato, criador do Sítio do Picapau Amarelo, era racista e simpatizante do KKK. Um dos seus livros, que tem uma linguagem a que podemos associar essa "simpatia", esteve, durante muito tempo, incluído no programa das Bibliotecas escolares brasileiras. 

1. - "Politicamente Correcto" correcto 
"Para impedir a propagação destas práticas e ideologias na juventude, vamos retirar o livro desse programa, mas não o vamos 'queimar'. Ele poderá continuar a existir, mas em edição crítica que mostre ao leitor que o livro não é para ser lido com olhos ingénuos ou desprovidos de informação. Retirar o acesso a uma obra que está errada não deve ser opção, mas ao permitir que seja disponibilizada, é necessário ajudar a que ninguém se sinta tentado a ver nela a 'verdade'."

2. - "Politicamente Correcto" incorrecto 
"É destruir todos os exemplares já!" 

3. - "Politicamente Correcto" visto pelos fascistas, neo-nazis, comentadores instantâneos de vão de escada para qualquer polémica da web (a.k.a. os "politicamente incorrectos") 
"O quê? Já não se pode dizer nada! Eu tenho a liberdade de dizer que a pretalhada vá pr'ó #$%&! e o que era preciso era um Mein Kampf em cada esquina! Estamos numa democracia ou não? Isto é censura! C-E-N-S-U-R-A!" 

Gone With The Wind e outros ditos clássicos do cinema datados para a actualidade (lembro-me, por exemplo, da agonia que foi, para mim, ver os momentos de blackface de The Jazz Singer, ou os "negros burros" de Cabin in the Sky) inserem-se na primeira categoria. É necessário continuar a assegurar a existência desses filmes e levá-los a novos públicos, não só porque são importantes na História do Cinema, mas também porque são documentos de costumes, arte, ideias, etc.Como impedir que sejam mal interpretados? Há mil e uma maneiras: o filme de Minnelli que indiquei vinha acompanhado de um disclaimer, que introduz o visionamento, e que explica o que há de errado no seu conteúdo. 

Eliminar as fitas controversas (ou que, apesar de terem material que pudesse sempre suscitar debate, só reaparecem/ressuscitam pelo alvoroço da opinião pública das redes sociais) não resolve nenhum problema. Apenas poderá aumentar a existência das outras duas categorias, que já agora, estão erradas. Mas é óbvio que uma está mais errada que a outra - a terceira. Só que me parece que a segunda impulsiona a terceira. Por isso apagamos estas duas e ficamos só com a primeira. Capisce?

terça-feira, 11 de julho de 2017

100% algodão


Inventar e desenhar uma banda desenhada é um exercício de longe mais útil, em todos os sentidos, do que fazer uma redacção sobre o dia da mãe ou da árvore. Aquele implica: conceber um argumento, elaborá-lo, estruturá-lo e organizá-lo em vinhetas, inventar os diálogos, caracterizar física e psicologicamente as personagens, etc. Coisas que, por vezes, as crianças, por serem inteligentes, fazem sozinhas por diversão, quando possivelmente na escola têm negativa à sua língua materna.

in A Gramática da Fantasia, de Giovanni Rodari, pgs. 120-121 (edição: Faktoria de Livros, 2017)

Um filme a que ninguém vai dar dois tostões de dignidade é este: Captain Underpants: The First Epic Movie. Já estão os cinéfilos a torcer o nariz para o que vai ser debitado nas próximas linhas, mas como eu defendo que o Cinema não se faz só (felizmente!) das obras que constam dos cânones académicos, cá vai. 

Para quem não conhece, o super-herói que dá título ao filme é uma criação de duas crianças (George e Harold) com uma enorme imaginação (coisa que não agrada aos seus professores nem ao temível reitor da escola primária, o senhor Krupp). Um belo dia, as BDs desses dois rapazes ganham vida, já que o seu herói de papel acaba por ser encarnado por Krupp em estado de hipnose, cumprindo essa função envergando, somente, uma peça de roupa interior e um cortinado vermelho atado ao pescoço. Com isto chega uma série de aventuras contra os mais estranhos vilões - desde zombies da cantina até sanitas falantes -, espalhadas pelos diversos livros que compõem a série, ainda em desenvolvimento.

Depois desta resumidíssima descrição de todas as ideias hilariantes que compõem os livros de Dav Pilkey, convém acrescentar que as histórias do Capitão não se tratam apenas de uma sucessão de patetices para crianças, feita à base de piadas com as necessidades básicas do ser humano. Só pessoas com dois preconceitos bem enraizados nas suas cabeças (um em relação à comédia, outro em relação ao valor da animação enquanto Cinema) é que não poderão compreender, de facto, como este filme nega a imagem que queremos fazer dele sem o termos visto.

O filme é de aventuras, de sátira aos costumes da sociedade, e vai muito além do que pensamos ser o "humor infantil". É uma adaptação dos livros divertidíssimos de Pilkey (que marcaram a minha infância e a quem devo parte do que sou hoje), com especial destaque para o primeiro e quarto tomos (e ainda algumas referências dos restantes), e um dos raros filmes de animação que contraria a tendência do género, espelhada nos seus milhentos títulos que povoam as salas a cada semana: não estamos perante um mero pretexto para vender bonecos e outros produtos de merchandising, derretendo a cabeça dos mais velhos de tédio e fascinando/hipnotizando as crianças apenas por ser um espectáculo de várias luzes e cores.

(O curioso é que antes da sessão começar, surgiram uns dois ou três trailers de próximas estreias que só cheiravam a isso, de uma ponta à outra. Mas adiante!)

Por alguma razão, Captain Underpants: The First Epic Movie, apesar de ser uma surpresa bastante fora da caixa (confesso que eu próprio fiquei com medo de me deparar com um mero filme para sacar euros à minha carteira) não foi muito bem recebido pelo público ou pela crítica. Ninguém quis levar este filme "a sério" quando já muitas animações esquecíveis, menores e desinspiradas receberam, por menos, enormes louvores de ambas as partes.

É claro que ter "cuecas" no título não deixa uma suspeita de confiança - mas quem perder esse preconceito e dirigir-se a uma sala de cinema (por cá só temos disponível a versão dobrada, que está óptima!), verá que o filme funciona como uma bela autocrítica ao padrão da animação americana moderna, e joga muito bem com todos os estereótipos relacionados com o humor. Creio que grande parte dos adultos, que ainda tenham uma porção de miudice nos seus corações, irão rever-se nos diálogos, em parte retirados a papel químico dos livros, e no resto acrescentados e melhorados para um maior efeito satírico. O resultado final é uma história nova, que homenageia as originais sem medo de trazer inovações, gozando com a sisudez e rigidez dos filmes de super-heróis "sérios", que acabam por ser tão ridículos pelas mais diversas razões. 

Agora, passemos ao lado pessoal disto: Os livros incluem várias das BDs feitas pelos dois garotos que os protagonizam, estão cheias de erros ortográficos e um desenho digno da quarta classe (o que aqui, faz todo o sentido, visto que é esse o ano de escolaridade da dupla). Foram um dos meus refúgios à vida escolar e ao facto de me sentir sempre excluído da maioria dos meus colegas. Não tinha jeito para jogar à bola nem para muitas das demais brincadeiras comuns, numa sociedade em que os meninos são dos action mans e as meninas das barbies.

E as histórias do Capitão motivaram-me logo a fazer as minhas próprias bandas desenhadas. Mal e porcamente desenhadas, com ainda menor qualidade que os rabiscos de George e Harold, mas com uma escrita mais razoável. Desde rip-offs completos deste universo até a histórias próprias, fui criando uma série de bonecos, entre folhas quadriculadas e bocados de papel cavalinho rasgados à pressa. Na primária era uma das poucas coisas que me permitia ter contacto com outros seres humanos - aliás, costumavam circular de mão em mão, o que me levou uma vez a levar um raspanete da professora, à frente de todos os colegas, pela demasiada estupidez criativa que englobava o meu... "estilo".

Ver este filme fez-me recuperar uma série de memórias desse passado não muito longínquo, que quase me provocaram uma ou outra lagriminha E senti que os autores do filme (mais do que uma adaptação e, até, uma reinvenção bastante inteligente de todo o material de origem) fizeram-no a pensar nisso: no facto de as histórias de Pilkey dizerem muito mais sobre nós, as nossas inseguranças, e a forma como lidamos o quotidiano do que possa parecer.

Captain Underpants: The First Epic Movie não é mais um filme animado cheio de referências pop. É uma bonita homenagem a todos aqueles que, como eu, passaram pelas mesmas coisas que George e Harold, que cresceram num meio sério onde o riso é visto como uma heresia, em que o humor é o único escape para os problemas existenciais que, apesar de míseros se analisados na perspectiva de um adulto, aterrorizam a vida de uma criança. Além de que é dos poucos filmes que tenho visto, nos últimos anos, que apela verdadeiramente à miudagem, sem as tretas do costume, e redireccionando-as mais para outras mensagens também essenciais para todos, como "sejam vocês próprios, e não tenham, por isso, qualquer medo de fazer piadas com as necessidades humanas, nem de expor o ridículo de todas as situações da vida". Por fim, há ainda um apelo para a banda desenhada e o seu valor na formação de uma criança - um pouco como dizem as sábias palavras de Rodari! Não é só das obras de leitura obrigatória que se fazem os hábitos de leitura de uma criança.

E tudo isto graças a um herói que proclama lutar pela liberdade, pela justiça, e por tudo o que é pré-lavado e macio como algodão. Não é espantoso?

Já devem ter percebido a razão para eu ter visto este filme, que dirá tanto à maioria dos mortais, e erradamente, como qualquer filme de animação americano banal que chega às salas. Não é que possamos bem dizer que o filme é um exercício de nostalgia, porque as histórias são relativamente recentes, mas apesar de tudo já lá vão 20 anos desde que Pilkey publicou o primeiro livro dedicado à personagem (é de 1997). Mas este é um acontecimento animado que poderá dizer muito aos millenials. Ou a toda a gente. E não só a mim.

Portanto, é ir ver, sem tabus.

P.S. - e claro, é de bom tom dizer ainda que este filme tem a melhor sequência dedicada à flatulência de toda a História do Cinema, num momento musical que, resumidamente, é hilariante. Sim, até ultrapassa a do Blazing Saddles.

sábado, 24 de junho de 2017

À Beira do Abismo... e Diogo Ferreira & Rafael Fonseca!


Neste 13.º programa da série há uma conversa entre dois jovens cinéfilos: Diogo Ferreira, que escreve coisas sobre o tema no Espalha-Factos, e Rafael Fonseca, que posta opinações na plataforma mubi e afins. Ambos já fizeram curtas metragens e têm coisas interessantes a dizer sobre filmes, a teoria dos autores e o Michael Bay. Já o inspector Sax começa a suspeitar do seu médico, que lhe receita umas férias prolongadas, contra a vontade do nosso herói! Podem ouvir tudo aqui em baixo ou no iTunes!


quinta-feira, 22 de junho de 2017

sábado, 10 de junho de 2017

À Beira do Abismo... Nas Nalgas do Mandarim!


No dia de Portugal, sai mais um capítulo das mirabolantes aventuras deste podcast. São 3 os convidados que preenchem esta 12.ª emissão: Carlos Reis, Miguel Ferreira e Pedro de Alarcão Lombarda. São bloggers e autores do podcast Nas Nalgas do Mandarim - o único que, em Portugal (e quiçá na Europa!), consegue juntar cinema e javardice com igual qualidade. A conversa junta alguns dos temas preferidos desta trupe: o mundo dos blogs, moçoilas bonitas e trocadalhos do carilho. Ah, e falam-se de alguns filmes, também. Para aquelas duas ou três pessoas que estão interessadas na missão do Inspector Sax, confirmamos que serão feitas revelações surpreendentes. Ou então não. É questão de confirmarem escutando o que se segue, via mixcloud ou no iTunes! (capa de Carla Rodrigues)


Nesta mesma semana saiu também a minha participação no podcast destes senhores. Contém palhaços assassinos, Mr. T transsexual em noites de lua cheia e outras temáticas: foi um privilégio participar nas Nalgas, proclamando patetices javardolas para vosso deleite. E fazem-se inúmeras referências ao podcast de cima. Este díptico é, por isso, o crossover-meta mais improvável de sempre da História dos Podcasts. 

sábado, 27 de maio de 2017

À Beira do Abismo... e João Leitão!


JOÃO LEITÃO, realizador de «Capitão Falcão», «Um Mundo Catita» e «O Grande Monteleone», é o convidado do 11.º episódio desta saga que conjuga mistério e parlapiê com inesquecível categoria. A conversa foi gravada ao vivo no âmbito do Atelier24 - um grande evento cultural que deu a conhecer o trabalho de realizadores, músicos, poetas e actores, num percurso por vários espaços emblemáticos de Lisboa. O inspector Sax volta ao activo, mas não da maneira mais óbvia.


sábado, 13 de maio de 2017

À Beira do Abismo... e Sabrina D. Marques!


O décimo episódio destes Abismos podcásticos sai no dia de todos os milagres. Não há espaço para previsões ou análises do divino, do futebol ou da Eurovisão, mas a convidada desta emissão conversa sobre muitas outras coisas bem interessantes. A Sabrina D. Marques tem um currículo invejável que passa pelo cinema, a literatura e outras artes. Esta entrevista foi gravada na Galeria Germinal, que poderão também ficar a conhecer aqui. E continua a história meio macabra da investigação do Inspector Sax. Disponível no Mixcloud (widget abaixo) e no iTunes!


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Adivinha quem vem jantar


Não é a “última coca cola do deserto” ou uma das surpresas do ano, e provavelmente o filme foi vítima de todo o gigantesco hype que rodeou o seu lançamento. Get Out é um conto negro (passe-se a estranha e acidental redundância) de macabros contrastes, que lida com pequeníssimas doses de “horror” e algum suspense para criar uma atmosfera que, por momentos, é muito intrigante. 

Nas melhores sequências do filme, na odisseia horrível em que o protagonista se mete e quando aos poucos vai descobrindo a verdade, nota-se a grande capacidade de Jordan Peele em agarrar o espectador, através de uma montagem que não foi feita em piloto automático, como é costume na maioria dos filmes americanos mais mainstream (e um filme que consegue ter planos com mais de 5 segundos, nos dias que correm, é de louvar). Veja-se por exemplo quando Chris chega a casa dos “sogros”: um plano relativamente “longo”, filmado à distância dessa cena, do ponto de vista do jardineiro. É uma ideia muito simples que serve logo para criar alguma inquietação. 

Mas o que o filme tem de relevante, no que diz respeito ao panorama político dos states em 2017 (e nunca se cansam de referir, em sucessivas linhas de diálogo, que a narrativa se situa num tempo e num espaço muito definidos da vida americana contemporânea), acaba por não compensar a preguiça, que se reflecte num desfecho indecente e rebuscado para a história. Não é que eu ligue muito a isso, grande parte dos filmes que eu adoro não têm um guião que possa servir para estudos em escolas de cinema. Mas Get Out é demasiado flagrante nas suas falhas: leva o espectador para uma direcção, constrói tudo de uma forma decente e, em parte, entusiasmante (e não é que seja especialmente inovador na sua abordagem, mas não chateia com as suas ideias iniciais over the top), para no fim descambar numa coisa qualquer inventada para despachar tudo sem ponta por onde se lhe pegue. Depois de um set-up tão bom, é pena ver que somos compensados por um pay-off tão duvidoso.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Quem te viu e quem te vê


The Pantages Circuit was composed of a string of semi-medieval theatres stretching from Chicago to the Coast and back again. We were on our way from Duluth to Calgary and had a three-hour layover in Winnipeg. We stashed our hand luggage in the depot and all the boys, except me, automatically headed for the nearest pool-room. In recent weeks I hadn’t been too hot with the cue, and decided that I needed a brief sabbatical from the green cloth. I left the boys and the depot (in that order), and walked up the main street. A half-block away from a frowzy-looking theatre I heard roars of laughter. I decided I had better go in and see who could possibly be that funny. On the stage were eight or ten assorted characters in an act called “A Night at the Club.” One of these actors wore a very small moustache and very large shoes, and while a big, buxom soprano was singing one of Schubert’s lieder, he was alternately spitting a fountain of dry cracker crumbs in the air and beaning her with overripe oranges. By the end of the act the stage was a shambles. 

Leaving the theatre, I went back to the depot to meet my brothers. I told them I had just seen a great comic. I described him . . . a slight man with a tiny moustache, a cane, a derby and a large pair of shoes. I then penguin-walked around the depot, imitating him as best I could. By the time I finished raving about his antics my brothers could hardly wait to see him.

The Sullivan-Considine Circuit and the Pantages Circuit ran parallel to the coast, and we finally caught up with him in Vancouver. I had talked him up so much that my brothers were all a little sceptical. Then he appeared, and in less than five minutes they were willing to concede that he was everything I said, and more.

After the show we went backstage and introduced ourselves. We found him in a dingy dressing-room which he was sharing with three other eccentric comics. After the preliminary introductions, we told him how wonderful he was. During the ensuing conversation he told us he was getting fifty dollars a week and, although he had been promised a raise to sixty, it had never come through.

He had already created considerable excitement in the movie industry. In fact, he told us that some movie mogul had offered him five hundred dollars a week to work for him. We congratulated him.

'When do you start?', I asked.

'I’m not going to take it', he answered.

'Why not?' I asked, astonished. 'You’re only getting fifty a week now. Don’t you like money?'

'Of course I do,' he replied (and, boy, did he prove this later in life!). 'But look, boys, I can make good for fifty dollars a week, but no comedian is worth five hundred a week. If I sign up with them and don’t make good, they’ll fire me. Then where will I be? I’ll tell you where I’ll be. Flat on my back!'

He was a strange little man – this Charlie Chaplin. The first time I met him he was wearing what had formerly been a white collar and a black bow tie. I can’t quite explain his appearance, but he looked a little like a pale priest who had been excommunicated, but was reluctant to relinquish his vestments.

(...) I ran into Charlie again while we were playing the Orpheum Theatre in Los Angeles some years later. He still affected the peculiar collar and tie combination. The only difference was that this time they were spotless. Oh, yes – there was another slight change. He was now the most famous comedian in the whole world.

He came back to see us after the show and invited us all to dinner at his house. There were twelve of us at the table. The plates were solid gold, or close to it, and I think the furniture was made of the same metal. There were six uniformed manservants. This was quite a jump from the first time I saw him in that ten-cent theatre in Winnipeg, spitting crackers and throwing oranges at the soprano. 

Charlie lives in Switzerland now, but it doesn't make any difference where he lives. He's still the greatest comic figure that the movies, or any other medium, ever spawned.

After Chaplin's success, the movie moguls began to realize that there were some pretty good comics in vaudeville and on Broadway. At one time or another most of them were brought out and given a fling at the movies, but most of the great comedians of the stage never were too successful on the screen. We were one of the luckier groups.

Ed Wynn, Bea Lillie, Willie Howard, Bobby Clark, Frank Fay and many, many others were never able to duplicate their tremendous Broadway triumphs. The real big comic movie smashes were Buster Keaton, Charlie Chaplin, Howard Lloyd and Laurel and Hardy, most of whom had very little stage success."

In Groucho and Me, de Groucho Marx, 1959, pgs 107-109

(na foto: Groucho Marx e Charles Chaplin, 1972)

sábado, 29 de abril de 2017

À Beira do Abismo... e Joana Esperança Andrade e Raquel Santos Silva!


Neste episódio, estive à conversa na rua, em pleno 25 de Abril, com duas senhoras que fazem muita coisa. Escrevem, podcastam, trabalham em coisas digitais, e gostam de falar de temáticas. Há algum ruído de vento durante a emissão, mas a galhofa compensa qualquer barulho provocado pela gravação amadora. O Inspector Sax pode não aparecer (continua no hospital), mas há alguém que quer falar com ele...


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma vez na vida


A primeira vez que vi o Stop Making Sense foi numa sessão do Monumental, há coisa de um ano e meio, entre vários títulos de uma retrospectiva dedicada ao seu realizador, Jonathan Demme. Estavam uns seis ou sete gatos pingados na sala, sendo que dois pareciam dormitar (como é isto possível?!) ao som dos ritmos tão contagiantes dos Talking Heads. É uma daquelas sessões que me ficaram marcadas na memória, não só por ser um fã enorme da banda liderada por mr. Byrne, mas porque essa foi uma das raras ocasiões em que pude ver um grande concerto filmado para cinema num próprio cinema, com um ecrã de dimensões mais apropriadas para a qualidade do espectáculo. 

Se o concerto é por si próprio fabuloso, passá-lo para filme (ou seja, capturar com a mínima decência pelo menos um centésimo do entusiasmo que a banda e o público sentiram naquela noite) poderia ser uma tarefa bastante complicada. E são pouquíssimos os filmes que conseguiram cumprir isso, e com resultados bem acima da média. Com The Last Waltz (que é meio documentário, e não só concerto como é aqui o caso), Stop Making Sense é o meu filme-concerto de eleição, e o testemunho inesquecível de quão estrondosa seria realmente a energia dos Heads e seus colaboradores em palco. 

De cada vez que volto a repescar este filme, ou apenas alguma das suas faixas (em CD ou nos clips disponíveis no YouTube), sinto mesmo que fiz uma total viagem no tempo, e lá estou eu na primeira fila, em frente ao David, à Tina, ao Chris e ao Jerry, a divertirem-se imenso, naquela que é, sem dúvida, um dos maiores espectáculos do cinema, que convida ao pézinho de dança ou simplesmente ao acompanhamento do(s) ritmo(s) com qualquer membro do corpo. 

Muito desta experiência, ou pelo menos do facto deste concerto em filme ter conseguido ultrapassar o seu tempo e continuar tão surpreendente, deve-se ao senhor Demme, que nos deixou hoje. É claro que THE SILENCE OF THE LAMBS foi daquelas experiências marcantes para a minha geração, mas a escolher um filme da minha vida, daqueles a que agradeço o facto de existir todos os dias, é este Stop Making Sense. E perdoem-me a expressão linguisticamente correcta, mas é um dos espectáculos mais espectaculares do cinema, da música, e de tudo o resto.

Uma plateia contra uma plateia.


Ou: quando o palco também se transforma numa plateia. 

Em O Cinema, de Annie Baker, há uma sala de cinema construída no palco. Tem lá o lixo doméstico e alimentar deixado pelos mais variados tipos de clientes, e que vai sendo "reposto" ao longo de toda a peça. Há espectadores que ficam até ao fim do genérico, ou a dormir depois de tudo acabar. O digital contra o analógico é uma questão sempre presente, o que incomoda mais a personagem cinéfila do que as outras, que só querem saber se poderão continuar ali a ter as suas vidinhas e a aldrabar as contas da caixa quando é preciso. E os protagonistas são dois frentes-sala e uma projecionista, que circulam por aquela sala suja entre recordações do trabalho, segredos pessoais e opiniões sobre vários filmes. 

O "ecrã" está virado para a outra plateia, a nossa, nós que somos os verdadeiros espectadores desta peça tragicómica sobre um trio de pessoas com vidas deprimentes, cada uma à sua maneira. Vemos e ouvimos filmes, as personagens trocam referências cinéfilas envolvendo ou não as fitas (desde a passagem de Ezequiel em Pulp Fiction à Criterion Collection), e o cinema é usado para falar de coisas banais da vida, mesmo naqueles momentos em que não sabemos como confrontar uma situação, e em que só uma citação de um filme parece ser a resposta mais adequada. 

Mas O Cinema não se resume ao cinema: há tanta coisa bonita aqui. As personagens conhecem-se, auxiliam-se, divertem-se e destroem-se aos poucos. Há espaço para tantas gargalhadas como para outros tantos momentos dramáticos excepcionais (como o final da primeira parte da peça, que deve ser um dos momentos mais geniais de teatro, quer em timings quer em construção emocional, que já vi na minha curta experiência como espectador), muito por "culpa" dos 3 grandes actores e de uma encenação de se tirar o chapéu. 

E é tudo tão bom, nesta obra magistral de Annie Baker, vencedora de um Pulitzer. Estreou na passada sexta-feira na Culturgest, e vai estar em cena de 3 de Maio a 3 de Junho no Teatro da Politécnica. O cinema é maior do que a vida, e o teatro também. Esta é daquelas peças excepcionais que apetece ver outra vez logo assim que termina. Tal como um grande filme no grande ecrã, projectado em 35 mm. Por isso, vão ao teatro ver O Cinema.

sábado, 15 de abril de 2017

À Beira do Abismo... e Fernando Galrito!


FERNANDO GALRITO, director artístico da MONSTRA, é o convidado deste programa. Há para escutar aqui uma conversa bem animada sobre o passado, presente e futuro de um dos grandes festivais de cinema do país. Haverá também espaço para alguns apontamentos sobre grandes autores da animação e da relação dessa arte com a(s) realidade(s) que a condicionam. O Inspector Sax regressa para continuar a desenrolar o folhetim habitual das suas peripécias, onde poderão contar com uma explicação totalmente convincente (e nada rebuscada) para explicar o que se passou depois do plot-twist espantosamente original.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Os filmes da Monstra 2017


Pelo quarto ano consecutivo andei a cirandar pela Monstra - um dos meus festivais de eleição. Infelizmente, em 2017 tive menos tempo do que gostaria para me dedicar à muita animação que se viu nesta edição. No entanto, ainda consegui escrevinhar algumas coisas sobre o que vi na Máquina de Escrever. Podem ler tudo aqui.

sábado, 1 de abril de 2017

À Beira do Abismo... e André Vieira & Marta Queiroz!


Para começar abril em beleza, eis que chega mais um À BEIRA DO ABISMO. Os convidados são André Vieira e Marta Queiroz, com quem a vítima fez alguns programas do célebre Clarão. É uma conversa sem ponta por onde se lhe pegue, e que versa sobre os mais variados temas: desde filmes de super-heróis a presidentes da república, cabe tudo dentro desta emissão. E o inspector Sax pica o ponto, como de costume, e finaliza a sua intervenção com um espantoso cliffhanger! E olhem que nada disto é mentira: é questão de escutarem o que aí vem.


terça-feira, 21 de março de 2017

À Beira do Abismo... e Jorge Coelho!


JORGE COELHO é um ilustre talento da BD portuguesa que dá cartas no país e lá fora, já que é muito requisitado noutros países (fez trabalhos para a Image e a Marvel, por exemplo). Aqui conversa-se sobre o seu trabalho, a BD em geral e outros temas em particular. E o inspector Sax aproveita para regressar, explicar o motivo do seu súbito desaparecimento, e as novas aventuras que se seguiram.


terça-feira, 7 de março de 2017

Brincar aos nacionalismos



Nos últimos dias, a faculdade onde me licenciei tem feito correr rios de tinta bastante contraditórios a seu respeito. Ao que parece, era para haver uma conferência muito suspeita sobre portugalidade, e o pessoal responsável pela organização de tal evento decidiu cancelá-lo, depois dos vários protestos obtidos no meio universitário. Outras questões pertinentes a colocar também seriam "Mas então quem é que achou inteligente dar o primeiro OK para a realização disto, antes da polémica se ter instalado?", e "Porque é que só com o protesto dos estudantes é que o director fez qualquer coisa?", mas não é sobre isso que me quero debruçar nas próximas linhas.

Eu cá não sou de intrigas, e política não é coisa que costuma parar a estes recantos. Mas toda esta situação parece-me ser uma enorme faca de dois gumes bastante delicados que lidam com coisas ainda mais antigas: 

- por um lado, compreendo a posição de quem diz que impedir um evento destes é algo que vai contra à pluralidade de opiniões e etc, por mais estúpidas ou anti-democráticas que sejam. 

- por outro: no final da II Guerra Mundial procedeu-se a uma desnazificação da população alemã e dos territórios conquistados pelos nazis. Ninguém considerou que acabar com o mal do regime fosse um "ataque à democracia". O que mudou para que agora se considere "dar tempo de antena" a movimentos de extrema direita como "liberdade de expressão"? Impedir e matar esses movimentos nacionalistas (que utilizam a palavra "democracia" para pedirem a compreensão da opinião pública, quando essa palavra não consta nunca do seu dicionário ideológico) não será, antes, uma coisa essencial para mantermos a nossa liberdade? Ou teremos de permitir, daqui a uns tempos, paradas alegremente hitlerianas (que, espero eu, tenham sempre o mesmo final estrondosamente ridículo daquela que acontece no «Blues Brothers») a circularem os seus discursos de ódio no meio da rua?

Eu, como grande aprendiz de justiceiro da sociedade, pendo mais para me fiar no segundo gume. E volto a sublinhar que compreendo quem afirma que está aqui um ataque à democracia e/ou à direita (e o Observador, claro, aproveitou isto para fazer deste o seu ganha pão clickbaitiano por umas horas). Mas meus queridos, permitir que vários grupos ideológicos discutam entre si numa faculdade não é a mesma coisa que tratar o nacionalismo com pézinhos de lã e dizer que tal coisa autoritária e anti-pluralidade opinativa pode ter o mesmo lugar e representação no meio de outros movimentos que, por mais diferentes que sejam, têm em comum a democracia. Creio que existe uma grande diferença entre uma conferência organizada pelo CDS sobre os 100 anos das aparições, e uma leitura pública do «Mein Kampf» pelo dirigente do PNR. São dois exageros, sim, mas que poderão suscitar umas ideias interessantes.

sábado, 4 de março de 2017

À Beira do Abismo... e Stefano Savio!


E o convidado do 5.º programa é STEFANO SAVIO, director da Festa do Cinema Italiano, que começará a sua 10.ª edição a 5 de Abril. Falaremos deste e outros festivais, e vários filmes serão citados e discutidos. E o inspector Sax não poderá continuar o relato das suas intrépidas aventuras, porque se encontra noutra investigação num lugar longínquo. 

(foto de Joana Linda)


quinta-feira, 2 de março de 2017

Bang! Bang!


Como contar a história de um psicopata de uma forma alegre e divertida, transformando acontecimentos trágicos em coisas fofinhas. Não parece, mas é o que está escondido na letra desta belíssima pérola, escondida entre tantas outras pequenas obras primas incluídas num belíssimo disco dos Beatles («Abbey Road»). Os Beatles também tinham o seu lado de "humor negro", e redescobrir de vez em quando os nossos heróis de sempre faz com que nos apaixonemos de outra forma por algumas cantigas.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

À Beira do Abismo... e Jonathan Rosenbaum!


JONATHAN ROSENBAUM foi crítico de cinema do Chicago Reader, e continua em intensa actividade, entre várias colaborações e iniciativas ligadas à crítica e à teoria dessa arte. Esteve em Portugal para apresentar, na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, um pequeno ciclo de filmes realizados por Eric Von Stroheim. Nesta emissão falou-se da obra desse cineasta "maldito" e de outras temáticas, como o amor que Donald Trump nutre por Citizen Kane. E o Inspector Sax regressa para dar notícias surpreendentes!
 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

À Beira do Abismo... e Catarina Mourão!


CATARINA MOURÃO, realizadora do documentário "A Toca do Lobo" (disponível em DVD numa edição da Alambique) é a convidada deste programa. Uma conversa que gira à volta dos temas principais do filme e onde vamos conhecer um pouco dos "bastidores" da sua produção. Antes e depois disto, o Inspector Sax dará notícias sobre a desastrosa investigação, mas sem a sua voz característica.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

À Beira do Abismo... e João Monteiro!


JOÃO MONTEIRO é o convidado do segundo episódio. É um dos principais responsáveis pelo MOTELx Festival Internacional De Cinema De Lisboa, e recentemente realizou o documentário Nos Interstícios da Realidade ou O Cinema de António de Macedo. Estes são os dois grandes temas da conversa do programa, onde há espaço para momentos de reflexão e alguma galhofa. Nos entretantos, o Inspector Sax diz coisas e encontra uma pista que poderá (ou não) ser fundamental para descobrir a chave do crime. É o segundo episódio de À BEIRA DO ABISMO, que podem ouvir aqui em baixo.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O melhor da BD em 2016


Uma listinha que fiz para a Máquina de Escrever (site que tem agora 2 anos de vida!), com 10 títulos incontornáveis da BD publicados em terras lusas no ano que agora findou. Podem ler tudo aqui.

sábado, 7 de janeiro de 2017

À Beira do Abismo... e Antonio Altarriba!


ANTONIO ALTARRIBA é o convidado do programa de estreia. O escritor espanhol trabalhou vários géneros literários, mas é na Banda Desenhada que se centra esta conversa, gravada na AMADORA BD. Do autor, estão publicados em Portugal o díptico genial "A Arte de Voar"/"A Asa Quebrada" (Levoir), que são o destaque principal do programa, e "Eu Assassino" (Arte de Autor). Falou-se sobre as histórias reais que originaram as suas BDs mais conhecidas e do contacto do público português com a obra do autor. Não vão precisar de legendas porque a entrevista é 100% compreensível, com ou sem conhecimentos de portinhol. Nos entretantos, o Inspector Sax tece alguns comentários. É o episódio de estreia de À BEIRA DO ABISMO, que podem ouvir aqui em baixo.