sábado, 14 de maio de 2016

Um rapaz sem sombra de pecado


«Axilas», derradeira obra de José Fonseca e Costa, sofre de um mal semelhante ao de outros bons filmes seus, como «Balada da Praia dos Cães» e «Sem Sombra de Pecado» (não convém meter nesta categoria o mediano «O Recado» e o horrivelmente datado «Os Demónios de Alcácer Quibir»). Começam por nos apresentar uma galeria de personagens fortes, dissecando todas as suas ideias e contradições, A meio, há uma espécie de confusão de subplots, de direcções diversas da narrativa, de uma certa falta de timing de algumas sequências. Depois, tudo se fecha com uma surpresa, um twist para o qual não estávamos preparados (porque a todo o momento, não houve qualquer coisa que nos fizesse pensar na súbita mudança de atitude do protagonista Lázaro de Jesus).

Convivem vários temas dentro de «Axilas», que vão ao encontro dos interesses habituais do cinema de Fonseca e Costa: há a sátira ao "império de brandos costumes" que ainda resiste no século XXI, há os diálogos acutilantes (e divertidíssimos) que revelam uma diversidade de hierarquias sociais e religiosas, há o cinismo exacerbado em relação à vida e à morte, e claro, há o amor. O que é que o cineasta faz com tudo isto (mais o montador, Paulo Milhomens, que ficou encarregue de terminar a rodagem)? Uma salada de situações mais ou menos cómicas e filosóficas que poderia ser mais conseguida. 

Adaptar um conto de 6 páginas para um filme de hora e meia não é propriamente fácil, e nem isso se resolve graças à construção de um ambiente mais complexo e da inserção de uma série de novas personagens, que é a proposta do guião. Mas no fim, o resultado é que a corda bamba constante de «Axilas» não faz o espectador cair no vazio. Fonseca e Costa dá-nos um guia para este seu universo, com referências ao seu "espólio" e também às referências que sempre o inspiraram (como «O Terceiro Homem», filme que o realizador dizia, em entrevistas, ser o que o motivou a seguir a via do cinema, e que é mais ou menos recriado num determinado momento de «Axilas»).

Com todos os seus defeitos estruturais e algumas cenas metidas a martelo, «Axilas» dá algum gozo ao espectador, mas também poderia funcionar como uma curta-metragem. Mas é uma delícia ver estes actores a desempenharem tão bem a ironia e o tom satírico das suas personagens. E Pedro Lacerda, que tem aqui, para provar aos mais distraídos, o seu enorme talento, é o único actor que poderia ser este Lázaro, que caminha entre o bem e o mal, a inocência e a culpa, sem saber qual é a verdadeira linha que separa os dois lados da moeda. Um filme pecaminosamente divertido.