domingo, 26 de junho de 2016

O imenso adeus


«The Two Jakes», sequela directa do clássicozíssimo «Chinatown», é um daqueles segundos filmes que não vão para a lista dos dispensáveis, enquadrando-se antes na categoria de "fita-frouxa-que-nunca-poderia-fazer-frente-ao-original-mas-que-nem-por-isso-deixa-de-ser-interessante". Fruto de uma turbulenta produção (demorou meia década a ser concretizado e passou por várias mudanças de elenco e equipa técnica), o filme passa-se onze anos depois daquele caso fatídico em que encontrámos Jake Gittes pela primeira e, até então, única vez. 

E seguindo as pistas do dramático desfecho dessa narrativa anterior, em «The Two Jakes» reencontramos Gittes, mas está diferente. O passado nunca o abandonou e vamos percebendo, à medida que tudo se desenvolve e à medida que vamos encontrando, aqui e ali, muitas referências e semelhanças ao mistério que envolvia John Huston e interesses económicos obscuros - quem já viu «Chinatown», sabe que o cerne não está aí. Mas é nesse aspecto que encontramos a maior aproximação entre os dois filmes. A partir daí, Gittes vai ter um encontro com pessoas duvidosas, cujas verdadeiras intenções nunca são bem reveladas, enquanto volta a tomar contacto com memórias trágicas que sempre o perseguiram.

O filme tem tantas feições de neo-noir (ou de homenagem ao noir) como «Chinatown», tanto nos décors, como nas interpretações, acrescentando a voz-off de Gittes que, quer seja útil ou não, dá um ar extremamente cool a toda a conjuntura - e pelas características dos diálogos, associadas à própria história, parece que estamos num romance de Chandler. Ao mesmo tempo, «The Two Jakes» fala da industrialização de uma cidade, continuando aquilo que anteriormente tinha ficado dito, nos diálogos de Robert Towne naquela outra fita que é uma obra prima.

Ao contrário do filme de Polanski, «The Two Jakes» não se desenvolve numa estrutura aparentemente circular para proporcionar a maior surpresa de todas. E talvez é aí que a sequela tenha um dos seus maiores problemas, além de todo o parlapiê à volta da presença constante do passado e eteceteras. Pode não ser totalmente importante, mas a falta total de um clímax dá uma certa estranheza. Acabamos por adivinhar tudo muito antes de Jake, e acabamos por ver, mesmo assim, tudo a evoluir de uma maneira muito lenta. A resposta está ali! É tão óbvia! Como é que ele não consegue ver isso?

Todavia, o que pode funcionar como malefício também pode ser visto como uma virtude. E se o absoluto anticlímax não é mais do que uma forma de contrariar a obra anterior, proporcionando a «The Two Jakes» um estado constante de decepção, de desistência, de desespero? É por isso que estou tão indeciso quanto à minha opinião, porque o que me desagrada aqui é também o que, ao mesmo tempo, me fascina.

De qualquer maneira, apesar destas ambiguidades (que merecem uma segunda oportunidade de descoberta, numa outra ocasião), «The Two Jakes» aguenta-se, pelo menos, como uma sequela louvável e algo fascinante. Ao contrário do que as más línguas apregoaram à época (e que, ainda hoje, dão demasiada pancada ao que Towne aqui escreveu e ao que Nicholson realizou), o filme não é a repetição sensaborona de «Chinatown, mas a demonstração dos efeitos da passagem do tempo no crescimento psicológico de uma personagem e das transformações que um pequeno social sofrem ao longo de uma dezena de anos. 

Por causa do seu fracasso no box-office, a sequela não pôde proporcionar um terceiro filme, que Towne já tinha preparado. Mas com «The Two Jakes» ficámos com uma sequela amigável com inúmeros defeitos - mas esses defeitos encontram-se em coisas que passam pelo argumento e pela realização. Este filme não pode ser definido, ao contrário de muitas outras sequelas, como um miserável truque maléfico para roubar mais uns euros aos espectadores. É a despedida de Gittes, alma atormentada pelo seu próprio mundo, que calcorreia com dificuldade as várias armadilhas com que se depara o seu caminho. E mesmo que esse caminho tenha o seu quê de duvidoso, tem também muito de louvável.

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