Está aí alguém?


Em «Missing», primeiro filme made in USA do realizador Costa-Gavras, encontramos Sissy Spacek e Jack Lemmon a vaguear pelo Chile, nos papéis (respectivamente, como é óbvio) de esposa e pai de um homem desaparecido sem deixar rasto. O filme é a procura desse indivíduo, um activista social que talvez saiba demais para os parâmetros estabelecidos pelos militares chilenos. Entre os meios burocráticos em que os dois americanos se movimentam para que a verdade venha ao de cima, há espaço para traçar o nó de um problema político grave e sangrento, e denunciar o envolvimento dos americanos no coup d'état chileno, que depôs Allende para lá meter Pinochet.

Lemmon só recebeu um Oscar na vida. Mas é um daqueles actores que merecia ter na sua estante tantas estatuetas como o número de dias que tem a semana. E é particularmente memorável o momento em que chama pelo seu filho no enorme estádio cheio de gente considerada como altamente perigosa para o regime. Pode-se dizer que, talvez, o Cinema foi feito para várias coisas, e uma delas passa por ouvir o lamento dos que sofrem e de, com ele, tocar aqueles que estão longe, a acompanhar no ecrã uma situação dramática que, aos poucos, se vai aproximando da vida dos espectadores, sem qualquer tipo de falsa comiseração ou sentimentalismo. O único poder-chave de «Missing» encontra-se no facto de falar nos problemas da vida sem lhes acrescentar mais nada, positiva ou negativamente falando. E não é preciso mais nada para que nos sintamos emocionados com a história, do princípio ao fim,

Gavras abandona (e bem) um estilo frenético de montagem que, por vezes, deu os seus bons frutos (como a sua primeira longa, o brilhante «Compartiment Tueurs»), e alguns resultados que, com o tempo, se tornaram menos felizes: «Z», o seu filme mais conhecido, é provavelmente o mais datado precisamente devido aos seus aspectos formais - quem é que hoje consegue "papar" com o mesmo interesse aquela sucessão rápida de planos, que parecem colados de maneira aleatória, só para criar uma ilusão de "acção" constante? E aquela visão ingénua do funcionamento da repressão? «Missing» pede o inverso exacto, e o realizador assim o fez. Uma tensão silenciosa que cresce entre cenas, no meio da opressão do regime caracterizado e do dilema social que está em jogo. 

Ao contrário de tantos filmes based on a true story, «Missing» não pinta bons nem maus de uma maneira cartoonesca, e é aí que reside a sua maior virtude (juntamente com as interpretações). Os vilões estão em toda a parte e ganham com o auxílio da força, e os inocentes não podem escapar das garras do poder. Neste filme, a América não salva o dia nem há espaço para finais felizes. E ainda nos provoca, mesmo que estes golpes já só pertençam às páginas dos manuais de História - porque os perigos que aqui surgem podem ser muito semelhantes com os que o mundo tem de enfrentar nestes tempos que correm.

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