Coitadinho, constipou-se e tudo


Di Caprio chora, Di Caprio respira, Di Caprio sofre, Di Caprio tem frio, Di Caprio sonha com os traumas do passado. Apesar de todos estes sentimentos, não se sente humanidade em «The Revenant». A culpa não é do actor (nem do fabuloso Tom Hardy), mas da realização de Iñarritú, que se em «Birdman» ainda atenuou alguns dos principais problemas dos seus filmes anteriores, aqui volta atrás e espalha-se ao comprido. E convém também lembrar que não é a filmar a natureza que se tem uma boa cinematografia. Se há planos belos no filme, não o são por causa do cineasta e do seu director de fotografia, mas por causa das paisagens. A imagem não acrescenta nada ao ambiente, apenas o expõe para daí retirar, injustamente, mérito de uma aparente "tentativa de transcendentalidade" (absolutamente falhada, diga-se). É algo tão meritório como o que faz qualquer documentário da BBC. No entanto, algumas (parcas) sequências do filme conseguem funcionar quando o "virtuosismo" do realizador, mais a sua filosofia pirosa de terceira categoria (nem sei se o Chagas Freitas conseguiria tamanha proeza), não se sobrepõe ao que aqui verdadeiramente interessa: as falhas humanas, o dilema das personagens, o instinto de sobrevivência. São raros, esses momentos, mas quando acontecem (quando a câmara acalma a sua hiperactividade de querer mostrar tudo e todos ao mesmo tempo, quando deixamos de ouvir aquelas vozinhas interiores que empatam a cada segundo, quando o urso já não está lá - e este é um momento acidentalmente hilariante no meio de toda a disparidade de situações em que Leo se envolve), parece que vemos um rasto de luz. «The Revenant» poderia ter sido um grande filme, se Iñarritú não tivesse tentado fazer uma espécie de rebento saído de uma hipotética relação amorosa entre Terrence Malick e Christopher Nolan. De ambos retira alguma coisa má. Do primeiro, é a metafísica existencial de vão de escada, que em nada favorece o cineasta, mas que mostra a preguiça do mesmo para utilizar outros métodos, que não os mais previsíveis e vazios, para falar do divino e do Homem. Do segundo, é a "seriedade" excessiva do material, que seria óbvia já que estamos a falar de vingança, e mortes, e eteceteras, mas o facto de se ser sério nas coisas mais banais, nos pormenores parvos e dispensáveis, tira toda a subtileza que poderia ser obtida nos momentos de verdadeira tensão (que acontecem no confronto entre Hardy e Di Caprio, e na constante involução ética do antagonista), e dá a «The Revenant» alguns momentos de verdadeira galhofa. Mas coitado do Di Di, ele está muito bem no papel, tem muitos arranhões e deita bastante sangue do corpo inteiro, vamos dar o Oscar porque quando ele verdadeiramente merecia (n'«O Lobo de Wall Street» por exemplo) não nos lembrámos de lhe atribuir tal prestigiosa aclamação.

E assim, de um dia para o outro, deixei de fazer parte do restrito "grupo de portugueses que ainda não viu o The Revenant", como bem me acusaram nos minutos em que estive presente no programa «Inferno», do canal Q.

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