quarta-feira, 29 de julho de 2015

Groucho e seus irmãos: os palhaços marxistas


Um texto que teclei a convite de um dos meninos do "À Pala de Walsh", que foi um dos destaques da passada temporada de "Um Lance no Escuro". No âmbito do dossier mui' especial "Na Presença dos Palhaços" escrevi sobre uma das minhas maiores paixões da comédia e do cinema: os imbatíveis irmãos Marx, e Groucho em particular. E vem mesmo a calhar, porque em 2015, lá para Outubro, comemoramos 125 anos do nascimento desse grande senhor. O texto, esse, podem ler já aqui.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Literatura: A Máquina do Tempo (The Time Machine) [1895]


No que Orwell e Huxley ganharam em substância, a distopia de H.G. Wells perdeu em relevância, pelo simplismo das suas linhas narrativas que foram rapidamente ultrapassadas pelo tempo. No entanto, "A Máquina do Tempo" criou um dos bordões preferidos da literatura e do cinema de ficção científica, tendo já sido usada e abusada para mil e uma variações (algumas delas bem mais interessantes que a original, diga-se) desta história científica e socio-política. Os relatos densos e elaborados do protagonista, que nos conta Tintim por Tintim toda a sua aventura espacio-temporal, não revelam grande complexidade dramática ou psicológica - muito pelo contrário: talvez um qualquer resumo desta obra, em jeito de "Apontamentos Europa-América", consiga dizer o mesmo ou muito mais, em menos palavras, do que a escrita de Wells aqui nos transmite. "A Máquina do Tempo" é de um autor prolífico que criou algumas das histórias favoritas dos séculos XIX e XX (como esta, mais "O Homem Invisível" e "A Guerra dos Mundos"), e com a sua ingenuidade, abriu portas para reflexões muito mais grandiosas sobre os problemas do futuro da Humanidade. Uma leitura agradável, mas que funciona mais pelo seu lado histórico (enquanto livro marcante de uma época e de uma sociedade) do que pelo "appeal" ao leitor moderno (que, em grande parte, deixou de existir). Para distopias mais cativantes, consultai "1984", "Admirável Mundo Novo", e também o "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury.

Tradução portuguesa: Alexandre Emílio, n.º 316 da colecção Geração Público, edição Mediasat/Promoway

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Alguns tópicos

Apesar da sempre inconstante actividade deste espaço, têm acontecido algumas coisas giras à minha pessoa nos últimos dias. Como me falta tempo para andar a fazer posts à hora certa, coloco aqui as coisinhas que andei a fazer, nestas últimas semanas, em termos da web:

1. - Foram emitidos os dois últimos Clarões da primeira série (e participei em ambos). Emissões mais longas, com mais de 45 minutos, mas que foram as melhores de sempre. E digo isto não como gabarolice mas por constatação dos factos: acho que nunca conseguimos criar tanto dinamismo e interesse para os ouvintes como nesta dupla de emissões, conduzidas pelo Pedro Quirino (talvez por isso é que foram melhores, porque não fui eu a apresentar). Aqui ficam os podcasts:

CLARÃO 02/07

CLARAO 09/07

2. - Escrevi uma péssima crítica sobre o filme «Táxi» de Jafar Panahi. É tão má que nem me dei ao trabalho de partilhar, ou de avisar o mundo da sua existência, na altura em que foi publicada. Mas partilho agora, que entretanto já passou algum tempo e ninguém se importa. Está aqui o link.

3. - Para comemorar a estreia de um dos grandes filmes do ano, a Máquina de Escrever fez vários artigos sobre «Love & Mercy» e os Beach Boys. Eu, como é costume, fiz o menos interessante e com pior escrita. Nele falo dos dois Brians do biopic e dos actores que os interpretam. Podem ler aqui,

E por agora é isto. Estou a preparar coisas novas para os tempos que se avizinham, mas é tudo ainda top secret. Vou tentando actualizar este estaminé de quando em vez, algo que prefiro não prometer totalmente porque... é o costume. Ora bom dia e com licença!

domingo, 5 de julho de 2015

A nova vida de Ric Hochet (e outras ressurreições da BD)


Quando uma personagem icónica da literatura vê-se transferida para outras mãos (ou seja, quando decorre a passagem de testemunho, do autor original para outros que foram, ou não, escolhidos por esse mesmo autor para continuarem o seu legado), é muito difícil conseguir manter o mesmo nível nesse universo criativo. Não estamos a falar do caso extremo dos comics norte-americanos como os da Marvel ou da DC, que por terem já passado por tantos autores distintos, sofreram demasiadas transformações que fizeram com que se perdesse, por completo, toda a essência original idealizada pelos seus criadores (agora é possível ver esses super-heróis em mil e um "travestismos", entre versões "dark", versões "what if" na Idade Média, num futuro longínquo ou noutro período temporal qualquer, e outros tantos tipos de variação narrativa e visual), mas da escola da banda desenhada franco-belga. Mesmo que muitas das "imagens de marca" desse tipo de BD tenham ressurgido graças a novos autores, são raros os casos em que a mudança acaba por ser frutífera para essas personagens e universos. Não admira que Hergé tenha imposto, desde muito cedo, que a morte de Tintin fosse decretada com o seu falecimento, porque para o bem e para o mal (um álbum ficou por concluir), ficámos com "apenas" uma ilustre panóplia das mais brilhantes histórias da História da BD. E por mais que se tentem fazer "reboots" e "remakes" ilegais da personagem, ela continua a ser a mesma de sempre, porque o "original" persiste, em qualidade e "inesquecibilidade", perante todas essas falsificações.

Entre os poucos exemplos de sucesso dessa passagem de testemunho encontram-se, por exemplo, os diversos "re-tratamentos", por duplas de autores distintas, que as aventuras de Blake e Mortimer sofreram desde a morte do autor, Edgar P. Jacobs. Sendo sempre fiéis ao espírito das singulares peripécias originais desta dupla, os novos autores reinventaram esse universo com grande inteligência, e conseguiram fazer álbuns que conseguem igualar ou até, mesmo, superar algumas das aventuras originais menos interessantes (outras, como «A Marca Amarela» e «A Armadilha Diabólica», serão sempre geniais obras-primas da nona arte). Em Lucky Luke, encontramos também essa tendência, já que finalmente o herói encontrou um "rumo" certo, depois de tantos anos desvairados em que Morris tentou encontrar, numa miríade de argumentistas, algum sentido para as aventuras da sua personagem mais conhecida (que perdeu muito do seu espírito depois de uma época gloriosa de parceria com o mestre René Goscinny). Mas Spirou é talvez o caso mais emblemático de todos, já que foi no terceiro autor da série (e não no original), que o universo que Hoje conhecemos tão bem, foi instituído - o trabalho de Rob-Vel, "pai" do personagem, e de Jijé, que lhe seguiu, em nada se compara com a imaginação atribuída pelo autor à série. A partir daí, todos os outros autores que lhe seguiram não tentaram renovar Spirou (como ele tinha feito), mas sim seguir as pegadas das aventuras e invenções criadas por Franquin - e o sucesso, obviamente, nunca voltou a ser o mesmo.

Em «Descansa em Paz, Ric Hochet», encontramos uma "ressurreição" muito especial, diferente da que foi testemunhada pelos outros ícones da BD já citados. A famosa personagem, um jornalista com dotes de detective, que surgiu nas páginas da revista Tintin e que já protagonizou quase quatro vintenas de álbuns, foi criada pela dupla Tibet (desenhador) e André Paul Duchâteau (argumentista). Após a morte do primeiro, o destino da personagem ficou incerto, até que se decidiu optar por Vam Liemt e Zidrou, que surgiram com esta nova história. Com um traço não tão certeiro como o dos álbuns originais, esta "sequela" tem um registo diferente: com tantas aventuras vividas, Ric Hochet vive uma série de peripécias que entram numa espécie de thriller de mistério adulto, com tudo o que melhor há na série (como a entrada maquiavélica do Camaleão, um dos seus vilões mais conhecidos, e a relação com o comissário Bourdon e a sua sobrinha - que, pela primeira vez, graças ao diabólico plano do inimigo de Ric, ganha contornos menos infantis), que se mistura com um forte registo de auto-paródia a vários lugares-comuns perpetuados por este universo. E mesmo que não funcione de uma maneira tão prodigiosa como algumas das histórias clássicas de Hochet, o álbum valoriza-se por conseguir manusear bem esse lado satírico e com algo de "quebra da quarta parede", prendendo o leitor pelo timing das tiradas cómicas e pela boa construção da narrativa.

Os autores fazem a revisão da matéria dada, ao estabelecerem referências, a torto e a direito, com elementos de um sem-número de aventuras anteriores de Ric Hochet, situando a narrativa não no tempo presente (como os autores originais fizeram em cada livro, o que fez com que Ric ultrapassasse as décadas sem uma ruga, como Tintin), mas em finais dos anos 60 (a época mais gloriosa e frutífera do herói). Essa utilização de elementos de muitos álbuns anteriores pode parecer um mecanismo repetitivo e, por vezes, uma "desculpa" para a falta de criatividade de alguns pontos fulcrais do álbum. Mas é algo que mostra que, pelo menos, esta nova geração quer dar a perceber, aos novos e aos velhos leitores da personagem, que tem uma "cultura" da série bastante avançada. Não é que isso auxilie este nova aventura, mas «Descansa em Paz, Ric Hochet!» é um bom ponto de partida para uma nova dupla que pode evoluir e, quiçá, num futuro próximo, igualar (ou talvez, superar - o que é mesmo muito difícil) as melhores aventuras clássicas de Tibet e Duchâteau. E para quem não apreciar esta nova imagem do herói que foi "filho" da revista Tintin, ou que não se identifique com as roupagens modernas de outros clássicos (como o igualmente polémico regresso de Astérix, analisado por aqui há algum tempo, e que consegue ser, pelo menos, superior aos títulos apenas assinados por Albert Uderzo), pode sempre folhear, ler e reler os álbuns originais. Esta história nova de Hochet, no original intitulada «R.I.P. Ric!», é mais apropriada para aqueles que já conhecem o universo (e que poderão, assim, perceber as múltiplas private jokes espalhadas por várias pranchas), mas que consegue ser um pouco mais do que uma homenagem simplista aos "bons velhos tempos" da BD franco-belga.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

As Nuvens de Sils Maria (Clouds of Sils Maria) [2014]


No mais recente filme de Olivier Assayas, “As Nuvens de Sils Maria”, Juliette Binoche é a estrela de uma reflexão sensaborona sobre o mundo dos palcos. 

Quando começa, As Nuvens de Sils Maria parece que tem tudo para dar certo: na era moderna vemos uma atriz perturbada pelo seu próprio êxito (Juliette Binoche), que se vê confrontada com o passado e com uma nova versão da peça que a tornou numa estrela, 20 anos antes. Guiada pela sua manager (Kristen Stewart a fazer o ar de “frete” habitual), a artista tenta controlar a dor dos sentimentos perdidos com a solidão psicológica do presente. Dito deste modo, fica-se mesmo com a impressão de que Olivier Assayas nos quer apresentar uma história sobre o passado e o presente da Arte, e das relações intrínsecas que se criam entre a ilusão do palco e a desilusão da existência.

Leiam a crítica integral na Máquina de Escrever.

Exterminador: Genisys (Terminator Genisys) [2015]


Ao contrário do que se poderia esperar, o quinto filme da saga Exterminador não se baseia apenas no espetáculo visual pirotécnico. E faz uma curiosa ressurreição da personagem mais famosa de Arnold Schwarzenegger. 

É um dos blockbusters mais estimados dos anos 80, e deu origem a uma sequela superior, no princípio da década seguinte. Ambos os filmes foram assinados por James Cameron, que ali introduziu uma série de ideias e inovações técnicas que revolucionaram o cinema de ação. O paradigma do divertimento hollywoodesco deixou, há muito, de passar pelos contornos destas obras, e por isso é que O Exterminador Implacável resistiu tão bem ao tempo: porque consegue ainda impressionar pelas imagens e narrativa tanto na história original como na seguinte, e porque não utiliza, ao contrário do que é habitual na atualidade (devido à preguiça dos grandes estúdios… e do público), os efeitos visuais como método primordial de cinema.

Leiam a crítica integral na Máquina de Escrever.