O melhor que a gente tem


Há um disparate recorrente em muitos textos que se escreveram sobre «Minha Mãe», o último filme de Nanni Moretti: algo como "com este filme, o cineasta chegou à maturidade". É uma ideia ridícula porque quem diz isso é porque não viu com atenção os filmes anteriores de Moretti (e não falo só do dramalhão «O Quarto do Filho»), e depois, porque não é só no drama que se atinge a maturidade (em «Querido Diário», filme que, de certa maneira, explora os dois géneros, já tinha profundidade e seriedade suficientes para afirmar a força do seu cinema). «Minha Mãe» pode ser um drama emocionante sobre a perda e a culpa, mas não é a primeira vez que Moretti lida com estas temáticas, e já falou de coisas bem mais preocupantes e tristes noutros filmes - e, repito, pode-se ser "maturo" com piadas e parvoíce. 

Posto isto, o que há mais a dizer sobre «Minha Mãe»? Ah, sim, é importante falar de outro aspecto: o técnico. Muitos são aqueles que defendem que Moretti está numa fase de "conformismo visual". Ou seja, que dos seus filmes não podemos esperar nenhum feito a nível de realização (ou então, só para chatear o Miguel Ferreira, a "mise-en-scène"). E de facto, os tempos em que o realizador arriscava fazer coisas surpreendentes nesse campo (como aquele longo e silencioso travelling do «Querido Diário», que segue, por alguns minutos, Moretti e a sua Vespa num passeio por Itália sem se passar nada) parecem estar longe. E «Minha Mãe» tem uma montagem que, em certo ponto, se torna mecânica e demasiado convencional. No entanto, o que Moretti perde aí, tem ganho noutra coisa: o lado humano. 

Já «O Quarto do Filho» (filme que esses críticos dizem ser o início desta nova era morettiana) era um murro no estômago emocional, «O Caimão» uma bela (mas quentinha) bofetada à corrupção (não tornando os corruptores e suas vítimas em meras "figuras" do espectáculo), e «Habemus Papam» uma brincadeira inconsequente que dava humanidade a bispos, cardeais e sacerdotes. Mas «Minha Mãe» vai mais fundo. Podemos ser mentirosos como o Johnson's Baby e dizer que não causa lágrimas. Não é por isso que o filme é grandioso, claro, mas se vos disser que esse choro é provocado não por uma certa lamechice manipulada à la Nicholas Sparks, mas pelo que de mais simples encontramos nas emoções das personagens, nos seus arrependimentos e dúvidas... não será isso formidável?

Tem momentos de humor nos sítios certos (e John Turturro cumpre o papel de comic relief do drama do filme com óptimos resultados) e joga bem com as nossas expectativas, esta «Minha Mãe» querida como não há outra na vida. Anda para a frente e para trás no tempo, dá-nos pistas e engana-nos logo a seguir. Esta é mais uma viagem à mente da protagonista e à sua relação com a mãe do que uma homenagem à figura materna propriamente dita, é certo - mas não será por isso que o filme consegue ser tão próximo dos seus espectadores?

Por fim, só uma nota: Margherita Buy, actriz recorrente dos últimos Morettis, tem aqui a sua melhor prestação. E o olhar mais belo de todos os filmes de 2015.

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