terça-feira, 20 de outubro de 2015

Branco e Preto




Na versão original de «Kodachrome», brilhante reflexão sobre a memória que abre o não-menos fabuloso disco "There Goes Rhymin' Simon", de 1973, Paul Simon cantava, entre ironias e sarcasmos acesos sobre memórias da sua vida e outras coisas, que "tudo fica pior a preto e branco" ("everything looks worse in black and white", no original). Anos mais tarde, no mítico concerto em Central Park, onde se reuniu de novo, perante uma plateia de mais de 500 mil pessoas, com Art Garfunkel (uma das maiores parcerias musicais da segunda metade dos anos 60, do qual resultaram cinco grandes discos), os artistas recordaram algumas belas cantigas dos seus tempos áureos e outras que Simon compôs a solo depois da separação do duo. Uma delas foi precisamente «Kodachrome», numa versão mais lenta em que, curiosamente, podemos ouvir um dos seus versos alterados, em relação à versão gravada em estúdio e editada em disco. 

Foi exactamente aquele verso: em vez de ser tudo pior, eles cantaram que o preto e branco melhorava as coisas. E Paul Simon não se recorda, na actualidade, de qual das duas versões foi a primeira a surgir enquanto construía a letra desta música divertida, nem se há alguma intenção específica com ambas. 

Mas podemos magicar qualquer coisa. Provavelmente surge nas nossas mentes uma justificação: há nesta mudança um "jénéséquá" de nostalgia, de revivalismo do passado. E parece que há uma imortalidade lendária mais impressionante naquela que as grandes figuras cinematográficas ganharam com a ausência de cor (falo em preto e branco e lembro-me logo de Bogart e do "Falcão Maltês", numa caça ao homem e numa das "caças ao tesouro" mais belas dos noirs). Com o passar do tempo, fica a ideia de que, à medida que temos mais cores, mais definição de imagem, menos grão e menos riscos, mais pureza encontramos nos "defeitos" dos formatos anteriores, e na inocência que continham as vidas impressas pelas fotos, pela película, pelos discos, e nos momentos captados com a tal kodachrome que, se existe nos tempos que correm, só servirá de peça museológica neste mundo supercalifragilisticamente mediatizado. Ou então não: porque as nossas memórias serão sempre uma ilusão e uma deturpação daquilo que realmente aconteceu. Mas provavelmente, preferimos que assim seja, até porque se torna tudo mais reconfortante?

A canção deixa tudo em aberto. A letra tem uma série de apontamentos que poderiam servir para tudo o que compõe a vida, e para todas as suas contradições. Mas hoje não me apetece filosofar muito. Não estou para aí virado. A única conclusão interessante que se pode tirar disto tudo é: o Paulo Simão é o maior. E felizmente, continua em grande.

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