domingo, 5 de julho de 2015

A nova vida de Ric Hochet (e outras ressurreições da BD)


Quando uma personagem icónica da literatura vê-se transferida para outras mãos (ou seja, quando decorre a passagem de testemunho, do autor original para outros que foram, ou não, escolhidos por esse mesmo autor para continuarem o seu legado), é muito difícil conseguir manter o mesmo nível nesse universo criativo. Não estamos a falar do caso extremo dos comics norte-americanos como os da Marvel ou da DC, que por terem já passado por tantos autores distintos, sofreram demasiadas transformações que fizeram com que se perdesse, por completo, toda a essência original idealizada pelos seus criadores (agora é possível ver esses super-heróis em mil e um "travestismos", entre versões "dark", versões "what if" na Idade Média, num futuro longínquo ou noutro período temporal qualquer, e outros tantos tipos de variação narrativa e visual), mas da escola da banda desenhada franco-belga. Mesmo que muitas das "imagens de marca" desse tipo de BD tenham ressurgido graças a novos autores, são raros os casos em que a mudança acaba por ser frutífera para essas personagens e universos. Não admira que Hergé tenha imposto, desde muito cedo, que a morte de Tintin fosse decretada com o seu falecimento, porque para o bem e para o mal (um álbum ficou por concluir), ficámos com "apenas" uma ilustre panóplia das mais brilhantes histórias da História da BD. E por mais que se tentem fazer "reboots" e "remakes" ilegais da personagem, ela continua a ser a mesma de sempre, porque o "original" persiste, em qualidade e "inesquecibilidade", perante todas essas falsificações.

Entre os poucos exemplos de sucesso dessa passagem de testemunho encontram-se, por exemplo, os diversos "re-tratamentos", por duplas de autores distintas, que as aventuras de Blake e Mortimer sofreram desde a morte do autor, Edgar P. Jacobs. Sendo sempre fiéis ao espírito das singulares peripécias originais desta dupla, os novos autores reinventaram esse universo com grande inteligência, e conseguiram fazer álbuns que conseguem igualar ou até, mesmo, superar algumas das aventuras originais menos interessantes (outras, como «A Marca Amarela» e «A Armadilha Diabólica», serão sempre geniais obras-primas da nona arte). Em Lucky Luke, encontramos também essa tendência, já que finalmente o herói encontrou um "rumo" certo, depois de tantos anos desvairados em que Morris tentou encontrar, numa miríade de argumentistas, algum sentido para as aventuras da sua personagem mais conhecida (que perdeu muito do seu espírito depois de uma época gloriosa de parceria com o mestre René Goscinny). Mas Spirou é talvez o caso mais emblemático de todos, já que foi no terceiro autor da série (e não no original), que o universo que Hoje conhecemos tão bem, foi instituído - o trabalho de Rob-Vel, "pai" do personagem, e de Jijé, que lhe seguiu, em nada se compara com a imaginação atribuída pelo autor à série. A partir daí, todos os outros autores que lhe seguiram não tentaram renovar Spirou (como ele tinha feito), mas sim seguir as pegadas das aventuras e invenções criadas por Franquin - e o sucesso, obviamente, nunca voltou a ser o mesmo.

Em «Descansa em Paz, Ric Hochet», encontramos uma "ressurreição" muito especial, diferente da que foi testemunhada pelos outros ícones da BD já citados. A famosa personagem, um jornalista com dotes de detective, que surgiu nas páginas da revista Tintin e que já protagonizou quase quatro vintenas de álbuns, foi criada pela dupla Tibet (desenhador) e André Paul Duchâteau (argumentista). Após a morte do primeiro, o destino da personagem ficou incerto, até que se decidiu optar por Vam Liemt e Zidrou, que surgiram com esta nova história. Com um traço não tão certeiro como o dos álbuns originais, esta "sequela" tem um registo diferente: com tantas aventuras vividas, Ric Hochet vive uma série de peripécias que entram numa espécie de thriller de mistério adulto, com tudo o que melhor há na série (como a entrada maquiavélica do Camaleão, um dos seus vilões mais conhecidos, e a relação com o comissário Bourdon e a sua sobrinha - que, pela primeira vez, graças ao diabólico plano do inimigo de Ric, ganha contornos menos infantis), que se mistura com um forte registo de auto-paródia a vários lugares-comuns perpetuados por este universo. E mesmo que não funcione de uma maneira tão prodigiosa como algumas das histórias clássicas de Hochet, o álbum valoriza-se por conseguir manusear bem esse lado satírico e com algo de "quebra da quarta parede", prendendo o leitor pelo timing das tiradas cómicas e pela boa construção da narrativa.

Os autores fazem a revisão da matéria dada, ao estabelecerem referências, a torto e a direito, com elementos de um sem-número de aventuras anteriores de Ric Hochet, situando a narrativa não no tempo presente (como os autores originais fizeram em cada livro, o que fez com que Ric ultrapassasse as décadas sem uma ruga, como Tintin), mas em finais dos anos 60 (a época mais gloriosa e frutífera do herói). Essa utilização de elementos de muitos álbuns anteriores pode parecer um mecanismo repetitivo e, por vezes, uma "desculpa" para a falta de criatividade de alguns pontos fulcrais do álbum. Mas é algo que mostra que, pelo menos, esta nova geração quer dar a perceber, aos novos e aos velhos leitores da personagem, que tem uma "cultura" da série bastante avançada. Não é que isso auxilie este nova aventura, mas «Descansa em Paz, Ric Hochet!» é um bom ponto de partida para uma nova dupla que pode evoluir e, quiçá, num futuro próximo, igualar (ou talvez, superar - o que é mesmo muito difícil) as melhores aventuras clássicas de Tibet e Duchâteau. E para quem não apreciar esta nova imagem do herói que foi "filho" da revista Tintin, ou que não se identifique com as roupagens modernas de outros clássicos (como o igualmente polémico regresso de Astérix, analisado por aqui há algum tempo, e que consegue ser, pelo menos, superior aos títulos apenas assinados por Albert Uderzo), pode sempre folhear, ler e reler os álbuns originais. Esta história nova de Hochet, no original intitulada «R.I.P. Ric!», é mais apropriada para aqueles que já conhecem o universo (e que poderão, assim, perceber as múltiplas private jokes espalhadas por várias pranchas), mas que consegue ser um pouco mais do que uma homenagem simplista aos "bons velhos tempos" da BD franco-belga.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).