Os factos e as lendas



O fim de uma era, contada por dois filmes distintos: em «The Man Who Shot Liberty Valance», John Ford "mata" os mitos do Oeste, mas não deixa que a realidade se misture com as lendas dessa época (algo que parece, ainda hoje, sentir-se em grande escala - talvez muito do que achamos "saber" desse período da História norte-americana não passe de uma junção, em jeito de sopa, de várias ideias retiradas de centenas de westerns e histórias como esta); em «Once Upon a Time in the West», Sergio Leone despede-se dos spaghettis (não sou dos que considera «Duck, you Sucker!» um western, porque de facto pouco tem a ver com o género), mas a morte "social" das suas personagens implica que se ajustem contas nos momentos finais, já que (parafraseando o interessante título espanhol do filme), chegou a hora de tudo ser resolvido. Chegou a hora de Fonda e Bronson, antes que todo aquele mundo lendário e mitológico, que viveu o seu período áureo nos anos anteriores, tenha obrigatoriamente de cumprir o seu percurso de declínio.

Separados por vários anos, os dois filmes são duas testemunhas iguais de várias das convulsões que o Cinema sofreu em pouquíssimo tempo (com a queda do western americano, o apogeu e rápido "declínio" do western spaghetti, o fim da Hollywood clássica e o aparecimento de novos movimentos culturais - dentro e fora das lides cinematográficas). Sendo o Cinema a arte que teve menos tempo para se desenvolver (em apenas um século, conseguiu chegar a dimensões que a Literatura  e outras formas artísticas só conquistaram, lentamente, ao longo de muitas mais centenas de anos), num abrir e fechar de olhos, tudo mudou nessas imagens em movimento. Hoje, olhamos para a modernidade de outra maneira, e consideramos ridículas certas experiências "revolucionárias", ao contrário de filmes mais "arcaicos", criticados pelos novos movimentos dos finais dos anos 60, por exemplo, e que hoje olhamos, talvez, com uma perspectiva  mais "institucional". Mas a visão pessimista, saudosista e, acima de tudo, épica destes dois filmes (o primeiro, de um realizador veterano nos anos finais da sua carreira, e o segundo, de um cineasta cuja popularidade cresceu do dia para a noite, mas que teria pouco espaço para concretizar os seus projectos nos anos vindouros), mantém-se hoje inesquecível. Eis o poder do grande Cinema.

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