O Grande Ditador (The Great Dictator) [1940]


Que pode um artista perante um ditador? Não muito. Ou antes: em que terreno pode ele atacar e com que armas? O golpe de génio de Chaplin é, antes de mais, ter compreendido que não poderia afrontar Hitler senão tendo encontrado um terreno comum com ele. Esse terreno é o do espectáculo.

Alain Philippon, «Cahiers du Cinéma»

Não foi a primeira sátira ao nazismo do cinema (quem detém essa conquista são os Três Estarolas, que lançaram a curta «You Nazty Spy!» alguns meses antes da estreia do filme de Chaplin), mas é, sem sombra de dúvida, a mais inesquecível – e entretanto, ao longo das décadas, fizeram-se mais umas quantas (desde «To Be or Not to Be» de Ernst Lubitsch, ao momento musical do filme original de Mel Brooks «The Producers», ou à violência extrema de «Inglourious Basterds», de Quentin Tarantino) – e aquela que não se resume a uma pura comédia de máscaras e hierarquias sociais: é também um grito de guerra contra a própria guerra, e contra um discurso totalitário, irracional e manipulador, que aterrorizou todo o mundo. «O Grande Ditador» é a exposição do ridículo de um autêntico furacão trágico do século XX, que vitimou milhões de inocentes através do preconceito, do desconhecimento, da massificação de um povo que se uniu para levar a cabo uma ideia louca.

Este é o alvo do discurso de «O Grande Ditador», uma crítica mordaz e genial a um homem que o mundo levou demasiado a sério. Porque, no fundo, Hitler não passava de “um homem baixinho com bigode”, como enuncia uma das personagens da referida comédia de Lubitsch. Mas esse homem foi capaz das maiores atrocidades da História, e foram poucos os que conseguiram (ou quiseram) fazer-lhe frente. Charles Chaplin não foi pela via do combate armado, das bombas, dos bombardeiros ou dos campos de concentração, mas sim pela do sorriso, da gargalhada, da emoção, da lágrima e da filosofia, alertando para um perigo que se estava a tornar demasiado real – e que para o qual os EUA acordaram numa altura tardia.

Mesmo que o Holocausto pareça uma coisa “do passado”, um sistema de medo que já não precisamos de considerar porque nos encontramos noutro tempo com outra mentalidade, não nos deixa de impressionar a mensagem filosófica e pacífica de Chaplin. Porque não se adequa só à tragédia da II Guerra Mundial, ou à ideologia de Adolf Hitler, ou à manipulação do seu sistema, de cariz totalitário, fechado em si mesmo, repressivo e perseguidor, que se apoia nas massas para dar razão às barbaridades que defendia: palavras como as célebres e lindíssimas frases que Chaplin debita (quase de improviso!) nos momentos finais do filme são para tudo e para todos, para qualquer período histórico, forma de pensamento, filosofia, conflito (bélico, político e/ou moral). Porque mais do que um alerta à idiotice dos confrontos armados, Chaplin aponta a tristeza da sociedade contemporânea – que tem tanta contemporaneidade para nós como para aqueles que viram o filme quando estreou, em 1940.

Antes da exploração aprofundada do nazismo, Chaplin brinda os espectadores com uma visão divertida e repleta de nonsense do ambiente vivido numa guerra, utilizando, para tal, a referência da I Guerra Mundial. Em parte, Chaplin recorda-nos algumas das peripécias vividas por Charlot numa curta antiga, denominada «Charlot nas Trincheiras», mas aqui há uma aposta maior na parvoíce das situações e na falta de sentido das mesmas. O preâmbulo do filme é, assim, esse segmento que se passa na I Grande Guerra, em que o barbeiro judeu é um soldado que obedece (ou que tenta obedecer – porque os resultados nunca são os esperados pelos seus superiores) às ordens militares que lhe são impostas. No princípio, está encarregue de lançar mísseis contra o inimigo. Mas logo acontece um problema: um dos mísseis cai, inesperadamente, no chão, sem fazer qualquer barulho. Toda a gente suspeita, mas o barbeiro vai até lá, para tentar perceber o que aconteceu. Logo de seguida, apercebe-se que, quando se aproximou do míssil, e começou a andar à volta do mesmo, este está a persegui-lo. 

Há outras situações que mostram a despreocupação de Chaplin pelos “valores” da guerra, opondo-se, assim, e de forma total, ao patriotismo apoiado pela maioria dos países – e que, mais tarde, os EUA também viriam a adoptar para obterem o maior número possível de tropas, ao entrarem no conflito. Entre essas outras cenas encontramos o hilariante desespero do judeu a tentar lançar uma granada – que acidentalmente vai para dentro da sua camisola, quando a cavilha de segurança já foi retirada, ou ainda o acidental encontro do personagem com o inimigo, que não se apercebe da nova “aquisição” no meio do nevoeiro, ou ainda, na famosa cena do avião, em que ele tenta ajudar Schultz, enquanto este guia o veículo – que entretanto, vira de pernas para o ar, sem que eles se apercebam disso (até ao momento em que o protagonista decide desapertar o cinto para o colocar de outra forma que não o incomode, acabando por, com um olhar cínico, tentar não cair agarrando-se ao pára brisas do avião. 

Mas a crítica satírica à guerra não se fica apenas pela guerra propriamente dita – e talvez aqui esteja a sátira mais subtil do filme: não nos podemos esquecer da importância que adquire todo o jogo diplomático que é encenado em várias cenas posteriores que demonstram as estratégias militares de Adenoid Hynkel, bem como as formas que o ditador arranja para convencer o outro ditador (Napaloni) a deixá-lo invadir Osterlich – o que se sucede é uma rivalidade sem igual de dois homens egocêntricos, que só querem estar numa posição mais elevada e com mais poder do que outro. A cena em que os dois estão no barbeiro, e que vão subindo as cadeiras para estarem sempre mais alto, é um exemplo claro disso mesmo, e do pouco valor que Chaplin dá, na vida real, ao poder e aos poderosos que, na sua perspectiva, só estão a ajudar a destruir a humanidade, impondo uma série de valores, ideias e pensamentos que vão contra o bem estar geral da sociedade, mas que apelam à concretização de uma série de interesses pessoais, através de líderes sanguinários e inescrupulosos que não olham a meios para atingir os seus fins. Assim também se faz a guerra – ou é assim, pelo menos, que se encontra a génese para a criação desses enormes e desnecessários conflitos (e talvez, na vida real, essas cenas de “bastidores” sejam mais ridículas que aquelas que Chaplin elaborou).

Com estes e outros mecanismos humorísticos e dramáticos, Chaplin quer apenas salientar uma mensagem muito forte: a do seu apelo existencial e, para muitos, ingénuo e utópico, pelo pacifismo, pela união entre os povos e para o fim destes totalitarismos, que nada mais trouxeram à Humanidade que o Mal e as suas devastadoras consequências. E claro que essas intenções bonitas e sensibilizadoras encontram-se, também, todas reunidas no fabuloso discurso final escrito com minúcia e proferido por Charles Chaplin, e dos planos que lhe seguem: um olhar de esperança de Hannah, um sorriso que vislumbra o futuro, com um tom épico e emocionalmente arrebatador ao qual ninguém consegue ficar indiferente. Porque num mundo dominado pelas Trevas, nunca deixará de existir, apesar de todas as adversidades, uma perspectiva mais animadora. Uma perspectiva de mudança que confia num futuro melhor para a sociedade, uma visão filosófica das coisas que confia nos bons valores da Humanidade e no desejo de que muitos não querem regressar a este horror noutra altura das suas vidas. E depois, olhamos para o crescimento da extrema-direita na Europa actual e questionamos o valor que esses adeptos de ideologias preconceituosas e racistas não atribuíram às palavras de Chaplin. Palavras essas que podem ser “poéticas”, “irreais” ou “politicamente correctas”, mas que fazem falta ao mundo, às pessoas e aos sistemas em que estão inseridas.

Não há dúvidas que Chaplin goza com Adolf Hitler, os seus maneirismos e a sua forma de se expressar, a torto e a direito, ao longo de todo o filme, salientando sempre essa ideia tão lubitschiana de denunciar o ridículo de um homem que tem demasiado poder nas mãos. Quando Hynkel surge pela primeira vez, com grande pompa e circunstância, não nos conseguimos esquecer dos discursos de Hitler e do apoio popular gigantesco que conseguiam obter. Claro que, em «O Grande Ditador», as “massas” não passam de efeitos visuais e sonoros – mas ilustram bem o dinamismo que o ditador alemão conseguia obter dos milhares de fervorosos adeptos e seguidores que acompanharam todo o seu percurso político, até atingir este topo. Quando Hynkel está a falar “alemão” (na realidade, trata-se de uma língua “inventada” por Chaplin, uma mistura entre vários idiomas em que, de vez em quando, sentimos uma ou outra alfinetada a satirizar o alemão), impõe tanto respeito que os microfones temem-no, e o público aplaude e cala-se logo que o ditador assim lhes pede, para poder prosseguir o seu raciocínio. Hynkel é o maestro de um povo, tal como Hitler manuseou a nação germânica a seu bel-prazer. Mas há, depois do discurso, toda a saída formal do líder, atravessando o púlpito, descendo desastrosamente as escadas, e recebendo, com “carinho”, os populares que aguardam a sua chegada. Tira fotos com bebés, assina postais, distribui apertos de mão – e em tudo isto, Chaplin ridiculariza, com grande malícia mas com subtileza também, os propósitos do nazismo, cuja popularidade se deve muito mais à propaganda criada pela “máquina” e ao controlo obsessivo do povo pelo seu ditador, do que à figura de Hitler propriamente dita.

O discurso final do filme é o momento em que Chaplin se dirige com mais garra ao espectador. Reza a lenda que preparou detalhadamente o discurso, mas que acabou por falar de alma e coração a todos os milhões de seres humanos que o admiravam, e que ele sabia que podia tocar e chamar à razão, através destas suas palavras sensatas e belíssimas. E não é para menos que este é um dos melhores filmes de Chaplin, sendo, também, o filme que, entre os sonoros que realizou, mais soube utilizar o “som” dos diálogos, acompanhados por uma belíssima banda sonora. Mas essa utilização do som passa também por este momento, sem música, num plano fixo e quase na sua totalidade em sequência, que realça uma série de ideias que muitos realizadores nunca conseguiriam passar, se utilizassem mil e uma inovações técnicas de montagem, de planos, de argumento. 

Apontando para a era das máquinas (e em parte, da tal estandardização criadora de autómatos que tinha sido criticada em «Tempos Modernos» - principalmente com o primeiro conjunto de cenas emblemáticas, passadas numa fábrica, em que Charlot enlouquece depois de fazer tantas vezes a mesma função), Chaplin aponta directamente para o coração dos espectadores, alertando que não precisamos de “máquinas” humanas, mas da humanidade em todo o seu esplendor, e das qualidades que a caracterizam e que parecem desaparecer em momentos como este – uma postura adoptada por muitos filmes americanos anteriores à instauração da censura, sendo o vencedor de Oscar «A Oeste Nada de Novo», de 1930, o caso mais emblemático.

Se bem que idealista e impossível de concretizar para muitos, não deixa de ser curiosa a forma como este discurso nos cativa no século XXI. Continuamos obcecados pela máquina, ou estaremos completamente sob o domínio delas (sendo os computadores e os gadgets tecnológicos um exemplo mais actual disso mesmo)? E as guerras continuam com os mesmos propósitos? E a extrema-direita vai regressar à ordem do dia? Não sabemos, mas o legado deixado por Chaplin pede que possamos impedir esse acontecimento, apontando os valores mais universais da alma humana e que transcendem, por completo, qualquer dimensão política ou hierárquica da nossa espécie. O desfecho perfeito para uma obra prima.


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P.S - Este texto é uma adaptação de algumas partes de um trabalho académico que fiz sobre este filme. Tentando, sem sucesso, escrever qualquer coisa de novo sobre ele, depois de o ter revisto na Gulbenkian. Por isso decidi buscar pedaços disto e remontei-os, alterando algumas coisas para tentar que se tornasse não tão inferior e desprezível. Isso também foi impossível de concretizar: se não consigo escrever nada de jeito sobre filmes, quando o caso é «O Grande Ditador», o problema torna-se ainda maior.

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