Os 10 melhores clássicos que vi em 2014


E é este o outro top do ano, e que é bem mais importante do que o anterior porque abrange todos os "outros" filmes que vi em 2014. Não queria descrever estes filmes como "antigos", mas a palavra"clássicos" não é de todo desadequada, porque é isso que os dez filmes desta lista, os melhores que vi em 2014, são: títulos inconfundíveis e inesquecíveis que marcaram a História do Cinema, e  que correspondem a verdadeiras obras primas. Não há qualquer ordem, apenas fiz esta lista consoante cada um dos filmes me foi surgindo na memória (porque é dificílimo "arrumar" tão belos filmes em prateleiras tão vulgares como as dessas contagens).

De fora ficaram todos os grandes filmes que vi pela segunda vez, ou alguns até que redescobri como se tratasse de um primeiro visionamento (o melhor de todos, e o que mais gostei, foi sem dúvida «O Exército da Sombra», de Jean-Pierre Melville - como foi tão bom ver um filme completamente diferente daquilo que me lembrava de ter visto há três ou quatro anos!). Mas sem mais demoras, comecemos então a contagem desta lista, que o resto não interessa por agora. Vamos a isto!

Sonata de Outono (Höstsonaten) [1978]


Um dos filmes mais "acessíveis" do mestre Ingmar Bergman, mas também um dos mais envolventes e emocionantes. «Sonata de Outono» consegue fazer isso utilizando, apenas, a relação distante e conflituosa entre uma mãe e a sua filha. E é perfeito, tanto nos diálogos e na mise-en-scène, como nas interpretações - Liv Ullmann é, mais uma vez, extraordinária, e Ingrid Bergman surpreende pela frieza e, ao mesmo tempo, pelo lado carinhoso que consegue transmitir com a sua personagem. Um filme simples, mas grandioso na sua simplicidade.

Umberto D. [1952]


Clássico do Neorrealismo italiano, «Umberto D.», de Vittorio de Sica, conseguiu sobreviver muito melhor do que tantos outros filmes "colegas" da sua geração (como «A Terra Treme», de Visconti, que tive oportunidade de ver em 2014, no DocLisboa, e que não passa hoje de um relevante, mas desequilibrado, documento social) porque aposta numa emoção bonita, tipicamente "italiana", sentimentalista sem ser lamechas, com a história do idoso que perde tudo... menos o seu fiel amigo Spike. Este filme, e o do Bergman, devem ter sido os únicos que me fizeram deitar umas lágrimas em 2014. É certo que não é assim que se avalia a qualidade de um filme... mas eu regularmente também não me dou para choradeiras.



Billy Wilder é um génio colossal, e por isso este não é o único filme do realizador que está incluído nesta lista. Mas «O Grande Carnaval» é um dos seus filmes menos conhecidos, pelo menos em Portugal (não está editado em DVD, enquanto que nos EUA há uma magnífica edição restaurada da The Criterion Collection), mas também um dos melhores de Wilder. Com Kirk Douglas no papel do protagonista, é uma arrebatadora dissecação do mundo do sensacionalismo da comunicação social, e da luta entre jornalistas para conseguir a melhor notícia, o melhor escândalo, sem ter em conta as vidas inocentes que por ela são afectadas. Não foi visto com bons olhos pelos puritanos da Hollywood clássica, mas hoje tem um poder social inquestionável (e é um dos filmes preferidos de Spike Lee).

O Leopardo (Il Gattopardo) [1963]


Era um daqueles pecados cinematográficos que há muito tempo tinha para resolver - e valeu a pena a espera, porque fez com que conseguisse ver o filme nas melhores condições possíveis (sou muito "picuinhas" e sei que ver os filmes na altura certa pode estragar uma experiência que até pode ser boa, como constatei ao rever o filme do Melville). E o que é que se pode dizer desta realização de Visconti, para além da beleza daquilo que as imagens, as interpretações, o argumento e a crítica social e de costumes nos apresentam? Está tudo lá, em «O Leopardo». Um épico fabuloso e graciosamente megalómano.

Ninotchka [1939]


"Garbo laughs" foi o slogan desta magnífica comédia de Ernst Lubitsch, num argumento escrito por Charles Brackett, Walter Reisch e Billy Wilder. E é o que vemos acontecer: ela ri, mas também se apaixona e vive intensamente a vida parisiense, na companhia de um boémio da cidade. Um dos mais perfeitos exemplos da comédia sofisticada (na construção dos diálogos, na importância simbólica dos objectos, no lado subliminar das situações, etc) e um filme inesquecível, na crítica política da época, mas também por todas as coisas satirizadas que hoje ainda fazem parte do quotidiano.

Um Caso de Vida ou de Morte (A Matter of Life and Death) [1946]


Se há um filme que comprova totalmente que o Cinema é uma arte de magia, tanto no sentido da ilusão como no do encantamento, é com certeza este. Realizado por Michael Powell e Emeric Pressburger, é uma história sobre os dois lados da existência, a vida e a morte, e o que há em cada uma delas. Repleto de lindíssimas ideias visuais, «A Matter of Life and Death» é um dos filmes mais icónicos da cultura britânica, e um dos romances mais bonitos dos filmes. 

Eva (All About Eve) [1950]


Vencedor de 6 Oscares, incluindo nas categorias principais (Filme, Realizador, Argumento e Actor), «All About Eve» é uma incrível recriação da definição de "fama" no star system norte-americano, através da oposição entre uma actriz de teatro veterana, e de uma "caloira" que entra no mundo artístico através da primeira. Filme autêntico e directo, sem papas na língua, tem as magníficas Bette Davis e Anne Baxter, e permanece Hoje ainda como um dos retratos mais fiéis do mundo cruel dos artistas e da mediatização que criam com a sua imagem.



Uma comédia clássica que tem pouco de clássica, mas sim de inovadora. Com muito humor negro à mistura, conta-se uma saga de mortes e paixões no mais puro estilo britânico, com uma perfeita noção de timing, de ironia e de sarcasmo, combinados com as variadíssimas personagens (mais as oito vítimas do ódio do protagonista, todas elas interpretadas por Alec Guinness). Uma incrível peça de Cinema e de comédia que ainda hoje está "fresca"e mais original do que muito material humorístico que tem saído nas salas nos últimos tempos.

O Farrapo Humano (The Lost Weekend) [1945]


Finalmente saiu em DVD no nosso país, e é o outro título de Billy Wilder presente nesta lista. Ao contrário de «Ace in the Hole», «The Lost Weekend» não foi nenhum flop na época, conquistando as graças do público e da crítica, como também dos Oscares. História de decadência psicológica, é um retrato perturbante e profundo sobre os vícios e a maneira como lidamos com eles. Um filme de Wilder característico e nada característico, ao mesmo tempo, e uma das suas obras mais controversas, e que ainda hoje mantém esse efeito. E Ray Milland é simplesmente genial, 

A Vítima do Medo (Peeping Tom) [1960]


A encerrar esta lista, um dos filmes que mais me impressionou em toda a minha vida, e um dos únicos dois títulos desta dezena que tive o privilégio de ver em sala (neste caso, foi no Lisbon & Estoril Film Festival, num ciclo dedicado às temáticas tão orwellianas dos media, em que passaram outros fenomenais filmes). Uma obra que levou à ruína do realizador Michael Powell, mas que, com o passar dos anos, se tornou numa das maiores influências da História do Cinema, tanto pelo lado provocador utilizado para retratar o espectador e o olhar da câmara que apanha tudo (tanto o bem como o mal), como pela exímia conjugação entre a montagem, a realização, os actores e o argumento. Fecho este artigo com uma curiosidade: nessa sessão, numa sala tão pequena e com tão poucos espectadores, esteve também o senhor Wes Anderson, convidado desta edição do festival, e que é um grande fã do filme.

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