Literatura: O Homem Duplo (A Scanner Darkly) [1977]


O grande romance sobre a droga não se encontra entre os títulos de maior culto da malta jovem (refiro-me, por exemplo, a «A Lua de Joana» e «Os Filhos da Droga»), mas nesta história (pouco) futurista onde, numa mistura com crítica social e política, se desfazem e se refazem os mitos das consequências do vício. «A Scanner Darkly» é uma obra enigmática, que lida com uma crise de identidade tão forte, e tão persistente, que o próprio leitor poderá, por muitas vezes, duvidar das ideias que está a tirar da história, e ficar confuso e sentir-se também vítima das fortes alucinações e perturbações que Fred/Bob Arctor sente ao longo da história, numa demanda entre o mundo da Lei e o lado da escória viciada. No meio de uma intriga aparentemente banal, há passagens lindíssimas sobre a humanidade e os seus múltiplos instintos, uma dissecação dos valores sociais, e uma série de citações de Goethe (autor cuja utilização na narrativa não foi de todo aleatória). Philip K. Dick diz desde logo que tudo o que lemos no livro foi testemunhado por ele na realidade - e sentimos um certo desgosto com o peso fortíssimo das suas palavras, e da tristeza que usa para descrever as suas personagens, e a podridão do mundo em que elas vivem. «A Scanner Darkly» culmina numa espécie de versão adulterada, mas talvez ainda mais profunda, do desfecho de «1984», e é um romance de arromba que destrói o establishment e que, ao mesmo tempo, se deixa vencer por esse conjunto de (boas ou más) convenções de vida em sociedade.

Tradução portuguesa: Eurico Fonseca, n.º 316 da colecção Argonauta, Edição Livros do Brasil

Comentários