quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Em Nome do Povo Italiano (In Nome del Popolo Italiano) [1971]


Pietà e potere non vanno d'accordo.

Falar de Dino Risi e não citar o filme mais famoso por ele realizado, o magnífico «Il Sorpasso», revela-se uma atitude tão injusta como, por exemplo, esquecer «Persona» quando se quer explorar Ingmar Bergman, ou de desprezar «The Searchers» é o tema de conversa. E como é sabido (pelo menos, para todos aqueles que viram essa comédia road-movie, uma fascinante análise à sociedade italiana através das andanças mais ou menos turísticas de um duo improvável de protagonistas), o filme de Risi termina a sua jornada humorística com o desfecho mais trágico, e por isso, menos previsível, que uma comédia poderia possuir. Esse final, que contrasta, em grande medida, com todo o desfile de gags e euforia que fomos acompanhando até então, atribui à história um tom dramático e amargo que troca completamente as voltas ao espectador.


Neste «Em Nome do Povo Italiano», filme quase desconhecido em Portugal, mas que se revela ser uma comédia tão interessante como «Il Sorpasso» (e que é muito mais complexa), o final é pontuado também por uma certa amargura, que faz com que a opinião que formámos até então sobre o que estivemos a ver se altere significativamente. Vejamos bem: em poucas palavras, é a história de um magistrado que investiga um empresário corrupto e interesseiro, suspeito do homicídio de uma jovem rapariga. Há aqui a dualidade entre as duas personagens (algo presente, com outros contornos, em «Il Sorpasso») entre o acusador e o acusado, ou seja, entre o defensor da Lei e do indivíduo que representa todos os esquemas e as formas fáceis de se contornar os parâmetros estabelecidos pela Lei. O que a cena que encerra a narrativa confronta é a maneira, como afinal, os dois opostos se complementam, através da revelação de uma outra faceta da personagem da Lei, e que faz aumentar o drama da sociedade real retratada no filme: no meio da galhofa e do ridículo do quotidiano, continua a haver espaço para o interesse alheio, tanto do lado criminal… como do lado judicial.


É uma curiosa questão, esta que nos oferece «Em Nome do Povo Italiano», e o resto da reflexão sobre a mesma fica a cargo do espectador. Mas há muitas outras (como a oposição entre classes, o conflito entre as mesmas e a forma como levar o Bem ao extremo pode trazer circunstâncias tão duvidosas, ou tão intrincadas, e de semelhantes proporções às do Mal propriamente dito – e neste caso, é a justiça cega, sem eira nem beira –, o que pode ser igualmente nocivo para a boa regulação de um sistema) que fazem do filme uma desvalorizadíssima crítica de costumes, que a cada dia torna-se mais verídica, e que abrange vários focos de tensão da vida social e política. É uma obra complexa, sim, e Dino Risi é um realizador subestimado por isso: muita gente ainda acredita nessa utopia de que a comédia é menor, é um ultraje para o Cinema “sério” e objectivamente “intelectual”. Mas entre uma e outra piada, Risi capta alguns dos maiores problemas da contemporaneidade e faz com que estes adquiram uma singular visão cinematográfica, pontuado por um dinamismo e uma riqueza nos detalhes que alimentam, ainda mais, as intenções satíricas, e surpreendentemente alarmantes, arquitectadas pelo argumento (porque esta é uma comédia e, portanto, deve fazer rir, mas que culmina numa perspectiva fatalmente céptica, descrente dos dois lados da “medalha” que foram desenvolvidos ao longo do filme).


E para ajudar a esta “festa” social há ainda os desempenhos formidáveis de Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi, que sabem perfeitamente manejar as nuances humorísticas e sérias que carrega o conteúdo do filme, para o qual também contribui uma banda sonora orelhuda e uma montagem acutilante (que ajuda, e não destoa, como parece ser hoje a “mania” da montagem da maioria das estreias que por cá chegam) e uma câmara precisa e alucinante (que, com a sua rapidez, filma uma série de planos fulminantes que nos ajudam a entender as subtilezas da narrativa sem precisar que a conversa substitua uma das funções primordiais do Cinema: a de contar uma história, ou pelo menos, de mostrar qualquer coisa, através das imagens, e não “com o auxílio” delas). «Em Nome do Povo Italiano» é, assim, uma comédia mais abrangente do que parece à partida, e que demonstra as particularidades do humor de Dino Risi, e das variadas vertentes que podem obter as piadas dos seus filmes – desde o efeito da mais simples e audível gargalhada, até à revelação de surpresas, de volte-faces inesperados que põem novas cartas na mesa deste “jogo”, nada linear e muito menos óbvio, em que evoluiu o establishment e as figuras que o incluem. Uma prova concreta do poder do cinema popular (e não popularucho, gratuito ou “sessão de domingo à tarde”) que toda a gente deveria conhecer, e que se torna essencial para partir para facções da vida urbana de que, por serem mais delicadas, não costumamos falar regularmente, em momentos informais de cavaqueira, ou em dissecações mais profundas sobre as instituições que nos comandam, ou sobre a outra face do poder legal.

* * * * 1/2

P.S. - Tive a oportunidade de ver este filme no ciclo "As Teias da Lei: a Justiça em Debate no Cinema", conduzido por Lauro António. Continua até dia 25 de Fevereiro, sempre às quartas-feiras, na Reitoria da Universidade de Lisboa. A Programação encontra-se aqui.

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