quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O podcast do regresso do Lance


O podcast do regresso de Um Lance no Escuro, uma homenagem às geniais bandas sonoras de Maestro Ennio Morricone, já pode ser ouvido e descarregado no site da Rádio Autónoma. Até à próxima quarta feira... e vejam sempre bons filmes. Ouçam tudo AQUI!

domingo, 26 de outubro de 2014

O Grande Carnaval (Ace in the Hole) [1951]


I can handle big news and little news. And if there's no news, I'll go out and bite a dog.

Talvez o lado mais fascinante dos filmes de Billy Wilder (ou pelo menos, dos seus grandes filmes) seja a ambiguidade moral que confunde a psicologia dos seus protagonistas (e as reacções que o espectador retira dos seus actos e convicções). Essa ambiguidade é, por vezes, acompanhada por uma busca pela redenção - que em alguns casos mais específicos (e mais dramáticos), surge no último momento, não conseguindo, por isso, evitar a ocorrência do destino arrasador e fatalista que está planeado para essas figuras ficcionais (que tanto nos dizem muito mais sobre a vida que a realidade). O desejo de salvação pessoal, tal como o "pôr os pés na terra" e a desilusão do fim dos sonhos e da percepção que as personagens têm daquilo que fizeram (e que provocou - e provocará - uma série de consequências que se desencadeiam ao ritmo de uma bola de neve a descer aceleradamente a montanha, à medida que aumenta mais e mais as suas proporções) chegam tarde demais para Joe Gillis em «Sunset Boulevard», ou para o criminoso apaixonado Walter Neff de «Double Indemnity». E em «Ace in the Hole» voltamos a encontrar estas ideias cruzadas, mas de uma forma mais intensa - e aliás, mais perturbadora - que nessas outras duas obras primas. E esses temas são utilizados para contar uma história aparentemente inocente (sim, porque em Billy Wilder, tudo não passa de aparências, no início) sobre jornalismo e, acima de tudo, sobre os bons e maus valores da profissão (suportada por um código deontológico que dificilmente é posto verdadeiramente em prática), numa dissecação fria e agressiva da criação (ou procura) de notícia à la "american way". Charles Tatum, a personagem de Kirk Douglas, apresenta-se, nos primeiros minutos do filme, como o jornalista ambicioso, o "big shot" originário da Nova Iorque apressada e industrial, que se aproveita de um pequeno jornal de Albuquerque para voltar a lançar a sua reputação - que entretanto perdera devido a "maus comportamentos" na outra cidade.


Entretanto, uma história aparece, que gera lucros, fama e novos inimigos para Chuck, enquanto o grande circo mediático (e o "grande carnaval" - título que a Paramount substituiu pelo original para tentar recuperar os prejuízos de bilheteira do filme - e que acabou por ser utilizado na versão portuguesa) é montado. De uma pequena situação delicada, que pode colocar em risco um homem inocente, se constrói uma gigantesca e mediática atracção de feira, que transforma um local abandonado num ponto de turismo e num grotesco centro comercial. O estratagema envolve, assim, uma exposição, com fins puramente lucrativos e condicionados, das operações de salvamento da vítima, manipuladas pelos interesses de Tatum e companhia e prolongadas o mais tempo possível para maior proveito do êxito nacional que a história e seus desenvolvimentos estão a obter junto da opinião pública, dos outros meios de comunicação social, e dos simples indivíduos que gostam de passar a vida a bisbilhotar o que não lhes compete. Mesmo que isso ponha em causa o próprio protagonista destes planos atribulados, que sofre cada vez mais dentro da mina em que está soterrado, enquanto várias pessoas se aproveitam dele para atingirem os seus próprios objectivos, egoístas e completamente desumanos. E Billy Wilder desenvolve todas estas ideias com o seu génio inqualificável, evidenciando a ascensão pessoal e queda psicológica do anti-herói do filme, magnificamente interpretado por Kirk Douglas - naquele que é, sem sombra de dúvida, um dos seus melhores desempenhos no Cinema.


«Ace in the Hole» é uma dissecação agridoce dos males da espécie humana, da maneira que só Billy Wilder soube fazer - e que mantém, na sua essência, o poder emocional e subliminar que o autor lhe incutiu originalmente. Perfeito da disposição dos planos, na planificação do argumento e no timing dos diálogos (dos quais saíram vários dos chavões habituais que associamos ao jornalismo, como "Bad news sells best. Cause good news is no news"), é um dos grandes filmes do cineasta e que ultrapassou a sua própria época. E ainda bem, porque apesar de ter sido um fracasso nos anos 50, as constantes reavaliações de que tem sido sujeito ao longo das décadas conseguiram dar a este filme a atenção que merece: pela sua crítica, pela sua ironia, pela fantástica fotografia e pela roda viva das relações humanas que Wilder desconstrói habilmente, como sempre). As personagens revelam-se em várias máscaras, em vários interesses, e em vários momentos de ambição, como também, de desespero, à medida que a "aberração" carnavalesca começa a ser incontrolável e a ter consequências que fogem da consciência de Chuck e do seu ego desmedido. O "grande carnaval" do acontecimento é ainda, para Wilder, o "grande carnaval" das convulsões sociais, da importância das aparências e, mais ainda, daquilo que vemos, mas que não é mostrado por nada nem por ninguém. Um grande filme, e um dos maiores exemplos da criatividade e genialidade de um realizador.

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sábado, 25 de outubro de 2014

A minha participação no 5x5 do My Two Thousand Movies

A famosa rubrica do blog do Francisco Rocha regressou, e eu fiz parte da primeira dupla de concorrentes. O objectivo foi fazer uma lista com 5 filmes, e escolhi 5 propostas que, não sendo os meus filmes preferidos, são, na minha humilde opinião, fitas que merecem ser vistas.

Eis a lista completa: 

O Clã dos Sicilianos
Inherit the Wind
Hana-bi: Fogo de Artifício
A Oitava Mulher do Barba Azul
Bom Dia

Os textos do Francisco e os links para os filmes podem ser encontrados aqui.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre o regresso de Um Lance no Escuro


Para poder, ao menos por alguns momentos, retirar este blog da condição de "coma" forçado que lhe remeti, escrevo aqui em primeira mão algumas das coisas que vão andar à volta da terceira temporada de «Um Lance no Escuro» (cuja data de estreia já está marcada - como podem ver na imagem). Vamos continuar na grande casa da Universidade Autónoma de Lisboa, e para esta nova fornada de emissões com entrevistas e com bandas sonoras de quando em vez (voltaremos à música para Cinema logo na primeira emissão, com uma homenagem muito especial), e estou a preparar algumas coisas, digamos... interessantes. Ou pelo menos, desconcertantes.

Sim, porque é isso que eu agora pretendo mais com esta nova série do «Lance»: mais do que o Cinema (que começa a ser mais secundário nos momentos de cavaqueira radiofónica), vamos tentar surpreender a cada semana os ouvintes que seguem atentamente este programa. Com convidados imprevisíveis e situações imprevisíveis, onde a Sétima Arte não se tornará um mero acessório, mas que vai deixar espaço para as conversas serem mais sobre tudo o que o convidado deseje falar - para assim se poder alargar também a linha de entrevistados que possa ter (desde cineastas a actores, a radialistas e escritores, a bloggers e... palhaços?). Mas esperam-se algumas surpresas da parte dos mesmos (quem diria que António Sala gostava de realizar documentários?). Contudo, mais do que Cinema, é a conversa que aqui verdadeiramente interessa, e tem sido sempre um enorme prazer conseguir falar, durante mais ou menos meia hora, com tantas e variadíssimas personalidades.

Escrevo estas (parcas) linhas no dia em que me irei dirigir, daqui a algumas horas, para gravar a emissão inaugural desta terceira época do «Lance». E começaremos da melhor maneira, com um tributo a Ennio Morricone e a algumas das suas melhores bandas sonoras. Obrigado por todo o vosso apoio, e conto com a vossa presença... auditiva, nesta nova fornada de emissões do projecto que mais gozo me dá a fazer. Porque para além do Cinema, a Rádio é uma das minhas outras paixões. Até à próxima quarta-feira, pelas 22 horas!

sábado, 18 de outubro de 2014

Filmes em 60 segundos: A Noite Americana (La Nuit Américaine) [1973]


Um falso documentário sobre as rodagens de um filme: é o que François Truffaut constrói (e interpreta) em «A Noite Americana», interessante mosaico de personagens que interagem umas com as outras, numa série de vinhetas desconcertantes que nos mostram a multiplicidade de problemas, afectos e confusões que rodeiam os bastidores de uma produção de estúdio, “artificial” e ridiculamente dispendiosa e luxuosa, que contraria totalmente as intenções da Nova Vaga da qual o cineasta foi um dos protagonistas. Narrativa com diversas preocupações, tanto estéticas quanto filosóficas, é também uma crítica satírica ao lado industrial do Cinema, que se eleva graças a uma série de magníficos desempenhos e a um sentido cinéfilo apurado e pelas variadas experimentações técnicas que são feitas (algumas mais bem sucedidas do que outras). É talvez o único filme que consegue captar realmente o espírito e o stress de um ambiente típico (e atribulado) deste tipo de filmagens.

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Frank [2014]


E sem que nada o fizesse prever, no meio de tanta vulgaridade, chega esta semana às salas mais um dos grandes filmes do ano: Frank não é uma história normal sobre o percurso de uma banda moderna, mas sim um olhar singular, atento, distante do “mundo real” e colado ao poder dos media e das redes sociais que condicionam as relações humanas. 

Frank é um filme que possui uma construção narrativa que se pode designar de normal (mas não de “vulgar”, ou “banal”): começa com a acidental descoberta da banda pelo jovem protagonista do filme, e a (aparente) ascensão a que este sujeita o seu vocalista e os seus colegas. Talvez Jon seja mais movido pelas suas ambições pessoais do que pelo interesse pelo bem comum, em ajudar a banda a sair da discrição em que está submetida. De facto, é isso que faz com que a sua personagem seja tão inocente e, ao mesmo tempo, tão humana – no pior sentido de humanidade possível, como também no melhor, em certas ocasiões 

Mas não há dúvida que a sua visão do mundo artístico irá mudar completamente – e talvez aos espectadores se suceda o mesmo (esperemos!) – quando começar a lidar mais de perto com estes artistas peculiares, fechados numa redoma que exclui toda a sociedade “formatada” e “comercial” que os pretende “abater”, e por isso, são detratores dos media digitais que o aprendiz tanto utiliza para, sorrateiramente, dar a conhecer ao mundo aquela estranha banda (e mais ainda, para se dar a conhecer a si próprio, um zé-ninguém maior do que todos os outros zés-ninguém do filme). 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

O Senhor Babadook (The Babadook) [2014]


Passou pelo MotelX e agora chega ao circuito das salas, numa distribuição da Alambique: O Senhor Babadook é uma interessante investida australiana no cinema de terror mas que, apesar de ter algumas ideias engenhosas, acaba por sair vencida pela força das convenções que rodeiam a sua história. 

A sinopse é simples, e soa a muitas outras que já vimos antes: mãe e filho vivem sozinhos numa casa, e o pai morreu há sete anos e isso continua a causar traumas no presente. A mãe lê ao filho um conto infantil todas as noites, e de repente surge um livro misterioso (que nunca ninguém viu antes, e que só aparece neste momento porque dá jeito) chamado “O Senhor Babadook“, que o pequeno pede à progenitora que leia. Mas é um livro amaldiçoado, que ameaça criar graves problemas a esta pequena família, e que não os parará de perseguir até ao último momento. 

Para uma história que se assume como um autêntico reciclar de estereótipos dos filmes de terror (há aqui tanto de O Exorcista como de The Shining), a premissa de O Senhor Babadook nem está construída de forma repetitiva e insuportável – e por isso é que o filme consegue ser verdadeiramente interessante em quase todo o seu conjunto. Há que apreciar, também, um vigoroso trabalho de câmara e o bom trabalho dos atores.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Arraial do Técnico 2014: a noite, a música e a boémia universitária


Quem disse que este moço só escreve sobre Cinema? Hoje foi dia de estreias... e por isso, para variar um bocadinho, aqui fica o relato (ou algo parecido) das minhas peripécias no Arraial do Técnico. Uma viagem pelas festividades académicas para descobrir no Espalha Factos.

sábado, 11 de outubro de 2014

O Caminho Entre o Bem e o Mal (A Walk Among the Tombstones) [2014]


O mais recente filme de ação de Liam Neeson consegue ser mais interessante do que todos os outros que o ator fez até à data, mas não consegue suplantar a mediania da história que carrega. Ainda assim, vale por ter alguns bons momentos de entretenimento, e por ser mais suportável do que se pode esperar.

Baseado no livro de Lawrence Block, O Caminho Entre o Bem e o Mal é mais um filme de ação protagonizado por Liam Neeson. Diga-se “mais um”, porque parece que tem sido este o género em que o ator tem apostado mais nos últimos anos, com propostas que, na sua totalidade, e até a este filme, se tinham revelado sempre como infelizes, execráveis e desprezíveis (com alguns casos mais degradantes que outros – alguém viu esse festival insípido e cansativo de clichés que deu pelo nome de Sem Identidade?). 

Por isso, este novo filme de Neeson, realizado por Scott Frank (argumentista de Relatório Minoritário e Romance Perigoso, pelo qual foi nomeado para o Oscar na dita categoria), não foge, em parte, às regras impostas pelas suas anteriores incursões nas fitas de ação, que tornaram este novo interesse do ator numa vaga a que os espectadores já se habituaram, e que podem reencontrar de tempos a tempos: a sua personagem é um anti-herói duro (que está pronto a partir para a pancadaria), uma história linear que se perde em lugares comuns, e outros ingredientes. Não nos esqueçamos das cenas de luta, de “grandes plot twists” que, na realidade, não o são, e claro, da constante intenção de Neeson em tornar-se no novo ícone de ação, para a pequenada do século XXI. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Amar, Beber e Cantar (Aimer, Boire et Chanter) [2014]


O último filme do realizador de Hiroshima, Meu Amor e O Último Ano em Marienbad chega finalmente a Portugal. Amar, Beber e Cantar é uma interessante e revigorante comédia dramática, sobre seis personagens à procura de si mesmas e de uma razão para todos os problemas e enganos de que serão vítimas nesta história. 

Seis atores interpretam os membros de três casais, que se veem condicionadas por um sétimo, amigo de todos eles, que os espectadores nunca irão conhecer fisicamente (apenas poderemos saber de quem se trata graças a tudo aquilo que as personagens contam sobre a sua vida, os seus segredos e os seus dilemas no presente). É assim que se desenrolam todas as peripécias de Amar, Beber e Cantar, onde vemos as alegrias e mágoas das personagens, os momentos de rutura de cada um dos casais e os recorrentes ensaios para uma peça, numa narrativa cheia de risos, lágrimas e algum whisky

Se Alain Resnais é um cineasta das relações humanas (filmadas, claro, sempre de uma maneira muito peculiar), este seu derradeiro trabalho demonstra isso mesmo, através de uma perspetiva não muito recorrente (pelo menos, no cinema contemporâneo): se a narrativa já é por si só baseada numa peça de teatro, e se nessa narrativa está incluída uma sub-plot sobre a preparação de uma outra peça de teatro (uma peça dentro da peça), o filme acrescenta uma outra fórmula para aumentar e fortalecer ainda mais o seu lado dramatúrgico: a construção aparentemente cinematográfica dos elementos figurativos e cénicos (como os cenários) é, no seu todo, uma recuperação dos valores do teatro filmado, e de certas formas de se usar a câmara que imperavam nos tempos do mudo (os planos gerais em sequência, muitos deles fixos).

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Criado (The Servant) [1963]


Se na peça «The Homecoming» (exibida há pouco tempo por cá com o título «Regresso a Casa», numa encenação de Jorge Silva Melo), o autor Harold Pinter tinha explorado, com mestria, as relações de poder e de subserviência dentro de um agregado familiar, no ano anterior, ao escrever o argumento de «The Servant», realizado por Joseph Losey (com quem colaboraria por diversas ocasiões ao longo da década de 60), já estabelecia as bases para a abordagem dessas temáticas. E aliás, o que encontramos no filme (que também poderia transformar-se numa exemplar obra dramatúrgica) acaba por ser ainda mais feroz, vil e diabólico do que aquilo que vemos na peça de 1964. Aqui é a relação entre um criado e o seu amo que está em causa, num jogo psicológico de contradições, desistências e armadilhas traiçoeiras que põe as duas personagens numa roda viva maior e mais acidentada do que aquilo que podemos esperar num qualquer thriller ou filme de acção desenfreada. É uma luta de classes que está em causa, e a honra e ambição de cada uma delas, entre as paredes de uma casa que se torna o palco de mil e uma situações, que desenrolam conflitos que, por sua vez, trocam constantemente o papel do criado e do seu senhor entre a dupla de actores (Dirk Bogarde e James Fox), e que irão afectar todos aqueles que os rodeiam.


«The Servant» vive, por isso, de um misto de sadismo e de imprevisíveis subserviências entre as duas personagens, numa relação de (duvidosa) proximidade e, por vezes, familiaridade, que faz com que, ao contrário do que possa parecer, a fatalidade se torne ainda mais densa, mais fria e mais inevitável. A ela não conseguirão escapar nenhum dos intervenientes desta troca diabólica de insultos, que em nada conseguem travar as consequências que advirão das situações provocadas pelo criado, que tenta a todo o custo, e por todas as vias possíveis e imaginárias - algumas bastante perversas e dúbias em relação aos seus objectivos - desafiar o seu amo, a fragilidade da sua personalidade, e a falta de capacidade que este tem em exercer verdadeiro poder e respeito na casa em que habita. Assim, e mais do que um filme de crítica social, ou de difamações no seio de um círculo mais fechado e íntimo, esta é uma reflexão sufocante sobre o lado grotesco da destruição e ressurreição (desajeitada) das relações humanas. E mesmo que se trate da adaptação de um livro (escrito por Robin Maugham), é em Pinter que pensamos quando estas componentes se desenrolam no ecrã, porque o poder não se faz, ao que parece com o estatuto, ou mesmo por uma relação hierárquica em que o próprio poder se constrói e se impõe. É um labirinto de emoções e de  pequenos egocentrismos, o que encontramos em «The Servant», um grande filme que brinca com o sentido ético do espectador, com os padrões e convenções sociais, e ainda, com a forma que a força das aparências tem para aumentar a densidade e discrição dos mais perigosos segredos e obscuridades individuais.


Mas o que é ainda mais genial, no meio disto tudo (e não referindo sequer outras coisas que tantos críticos e especialistas na matéria têm aproveitado para dissecar sobre esta obra, em milhentas teses e análises à mesma - e que acabaram por criar uma "imagem" mediática falsificada do que isto realmente se trata), é que Losey filma esta história com métodos simples, utilizados para este tipo de narrativas que estão quase sempre centradas num único espaço cénico (recordem-se os planos fixos e a câmara meticulosa de Sidney Lumet em «12 Homens em Fúria», ou as peripécias de Stanley Kramer para captar, com o mínimo número de planos e montagem possível, a intensidade do choque do julgamento e do confronto entre Spencer Tracy e Fredric March em «Inherit the Wond»), e ao mesmo tempo, não deixa nunca de ir para além desse puro teatro filmado: «The Servant» é também uma lição de Cinema na medida em que nos ajuda a compreender como, afinal, para captar um espírito teatral, poder-se-á, com engenho e perspicácia, utilizar outras maneiras que não as já habituais, atribuindo à técnica um papel que se torna decisivo para aquilo que apreendemos no filme, graças a planos extraordinários e a uma impecável mise-en-scène. Contudo, o centro do filme está nos atores, e no constante caminhar para o declínio de uma, e para a ascensão da outra. Só por isso, e pelos maravilhosos diálogos entre Bogarde e Fox, já existem bons motivos para tornar «The Servant» numa obra prima imortal.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

António-Pedro Vasconcelos: “Estamos a transformar a sociedade num somatório de indivíduos”


Entretanto o blog chegou aos 1900 posts e continua num estado pseudo-vegetativo. Mas aqui ainda vou colocando as novidades que faço para o Espalha Factos. A mais recente é esta, finalmente disponível: a longa e interessante entrevista ao realizador António-Pedro Vasconcelos, sobre os filmes e outras coisas mais. Tem fotografias da Ana Catarina Araújo, e pode ser lida aqui!

domingo, 5 de outubro de 2014

Livros VS Filmes #5 – O PADRINHO


O LIVRO 
Foi um autêntico best-seller na época em que foi lançado, e tornou famosa uma das histórias mais conhecidas da cultura norte-americana contemporânea: «O Padrinho» é a saga da família Corleone, contando uma série de situações que envolvem os negócios da máfia, os segredos das personagens e o passado de Vito, o Padrinho a quem todos obedecem – mesmo os que o querem atraiçoar a qualquer momento. O romance explora uma ou outra figura que os filmes deixaram de lado (como a ascensão de Johnny Fontaine, baseada nas peripécias de Frank Sinatra em Hollywood), e desenvolve-se de uma maneira deliciosa e envolvente. 

O FILME 
É mais conhecida que o livro, mas a versão de Coppola vai mais longe do que a imaginação de Mario Puzo, recriando elementos do romance com uma poesia cinematográfica que Hoje é indissociável do universo dos Corleone. Desenvolvendo-se ao longo de uma trilogia, este «Padrinho» adapta o livro no primeiro filme e em parte do segundo, ao contar a história das origens de Vito Corleone. Um clássico absoluto do Cinema, que deu a certas passagens da história um tom muito mais interessante e inesquecível (como a cena do cavalo, que foi feita daquela forma porque o realizador leu mal as palavras de Puzo). 

O VEREDICTO 
A influência do filme é inegável, e de facto, este acaba por funcionar mais hoje do que o livro. Contudo, sem o primeiro, e sem a colaboração de Puzo na escrita dos argumentos da trilogia, nunca Coppola poderia ter criado um monumento cinematográfico como este. Vale a pena ler o livro principalmente depois de vistos os 3 filmes, porque complementa melhor assim tudo aquilo que nos contam as personagens e tudo o que as rodeia.

Quinta edição da rubrica «Livros VS Filmes», publicada à sexta feira (desta vez, e excepcionalmente, ao sábado), de quinze em quinze dias, na página do facebook Culturart.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Os Gatos Não Têm Vertigens: Entrevista a Ricardo Carriço e João Jesus


A propósito da estreia do filme «Os Gatos Não Têm Vertigens», tive a oportunidade de fazer duas entrevistas rápidas a Ricardo Carriço e João Jesus no Hotel Altis, antes de uma conversa mais extensa com o realizador (a publicar em breve), que podem agora ser lidas no Espalha Factos. As fotografias são da Ana Catarina Araújo, e o artigo está aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

“Hollywood, tens cá disto?”: Oxalá (1981)


No mês em que estreou Os Gatos Não Têm Vertigens, recordamos um dos primeiros filmes de António-Pedro Vasconcelos, e que foi também um dos seus primeiros êxitos de bilheteira (juntamente com O Lugar do Morto, também da década de 80), conseguindo quase 90 mil espectadores. Produzido por Paulo Branco, foi apresentado pela primeira vez ao público na Seleção Oficial do Festival de Veneza em 1981, e apesar do sucesso inicial, ao ter estreado no Nimas a 8 de maio de 1981, o filme começou a ficar despercebido, em parte por não ser exibido na televisão regularmente, e também porque não existe qualquer edição no mercado home video disponível entre nós.

Nesta nova edição da rubrica mensal do Espalha Factos recordamos este filme que, digo eu, é um dos melhores do realizador. Para lerem o artigo, sigam este link.