Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2014

Gata em Telhado de Zinco Quente: uma sociedade falsificada em rota de colisão

Imagem
Depois de ter noticiado, há mais de um mês, que este clássico de Tennessee Williams iria chegar em setembro ao CCB, tive a oportunidade de ir ver o espectáculo na passada sexta feira. Uma encenação sublime de Jorge Silva Melo, que está em cena até dia 30 em Lisboa, e que depois partirá para outras zonas do país, numa digressão que se prolongará até ao próximo ano: «Gata em Telhado de Zinco Quente» é uma belíssima revisitação de um clássico do século XX, que continua a fazer sentido nos nossos dias – e talvez esteja hoje mais atual do que nunca. Uma produção da Artistas Unidos, sobre a qual escrevi uma análise no Espalha Factos, que pode ser lida aqui.

(Re)descobrir o cinema de Satyajit Ray no Nimas

Imagem
É mais uma das grandes iniciativas deste ano cinematográfico: a partir de hoje, todos os dias até 5 de novembro, o Espaço Nimas irá exibir seis filmes do realizador Satyajit Ray. Apostando maioritariamente em filmes menos conhecidos (pelo menos em Portugal) do cineasta indiano, esta é uma oportunidade única para deslumbrar algumas das maiores pérolas de um génio do cinema, em cópias (realmente) digitais e (realmente) restauradas.
Elaborar (mais) uma História do cinema e ignorar Satyajit Ray é algo equivalente a desprezar Tolstoi ou Steinbeck numa hipotética História da literatura. Quer se goste ou não, é inegável o contributo do realizador para a evolução e renovação do cinema, e os seus filmes, que parecem ser retratos de uma sociedade restrita (a bengali), acabam por ser mais universais do que aparentam – e intemporais também. Dos quatro filmes que pudemos ver, encontrámos as provas de um cineasta sempre em constante reinvenção criativa, através de diferentes histórias e modos de …

Os Gatos Não Têm Vertigens [2014]

Imagem
Quatro anos depois de A Bela e o Paparazzo, o realizador António-Pedro Vasconcelos regressa com uma comédia dramática protagonizada por uma dupla (aparentemente) improvável. Um filme simples, sobre problemas contemporâneos, que não se perde em excessivos simplismos. Uma proposta interessante que pode ser vista, a partir desta semana, nas salas portuguesas. 
Quem diria que ia ser amor à primeira vista?” é parte do slogan promocional desta nova comédia dramática (ou será mais um drama com alguns tons de graça?) que nos chega hoje às salas, numa história de António-Pedro Vasconcelos e Tiago R. Santos. Mas tal como o filme nos mostra, e as variadíssimas entrevistas que o realizador tem feito nas últimas semanas, a história que rodeia os dois protagonistas consegue ser um pouco mais do que uma recriação fácil de um cliché cinematográfico que todos nós já vimos antes (não ambicionando, por isso, centrar-se nessa ideia que tanto está a ser publicitada). O trailer fala por si, e os diálog…

Livros VS Filmes #4 – TO KILL A MOCKINGBIRD

Imagem
O LIVRO  Há várias edições e títulos nacionais atribuídos ao romance de Harper Lee. Mas «Por Favor, Não Matem a Cotovia» continua a ser uma delícia de livro independentemente da tradução. Clássico da literatura norte-americana do século XX, centra-se na vida de uma pequena comunidade sulista e na coragem de um advogado, Atticus Finch, que defende um negro acusado de um crime que não cometeu, (sendo facilmente julgado e odiado devido aos preconceitos que continuam presentes). Mas há também um retrato apurado de costumes e das contradições de uma sociedade sempre em crescimento, com as mentalidades a alterarem-se de geração em geração. 
O FILME  Tal como a obra que adapta, «Na Sombra e no Silêncio» adquiriu também um estatuto de culto – mas por diferentes razões: quer seja pela incrível interpretação de Gregory Peck como Finch, quer pela abordagem cinematográfica aos temas sociais da história. O filme de Robert Mulligan dá uma especial atenção ao caso judicial que é o mote para a maior…

Jersey Boys [2014]

Imagem
É a celebração cinematográfica, assinada pelo veterano Clint Eastwood, de uma das bandas americanas mais famosas de sempre. Baseado no musical homónimo de grande sucesso da Broadway que passou por vários outros palcos do mundo, Jersey Boys é uma delícia visual que tem causado opiniões várias e extremas, mas não há dúvida que o filme merece ser descoberto. Estreia esta semana. 
O regresso de Clint Eastwood à realização faz-se com um filme que, tal como alguns dos anteriores, foi recebido pelo público e pela crítica sem conseguir gerar nenhum consenso. Esta é uma situação que se tem vindo a tornar constante, e alguns dos casos em questão tornam essa tão grande variedade de opiniões num fenómeno interessante (o que se sucedeu com Hereafter – Outra Vida e J. Edgaré disso exemplo). Contudo, talvez Jersey Boys, mesmo que se enquadre numa linha de estilo semelhante a todos os filmes que se sucederam ao magnífico Gran Torino, possa ser visto como um objeto de estudo à parte, diferente dos s…

A Emigrante (The Immigrant) [2013]

Imagem
Há um conflito tenso e armadilhado, entre dois irmãos, que se constrói através de oposições antigas e das fragilidades mentais de ambos. Minto: Jeremy Renner e Joaquin Phoenix não são mais do que primos em «The Immigrant», último filme de James Gray, estreado entre nós com um grande atraso (a culpa é do jet lag... comercial). Mas os pontos de colisão entre ambos parecem com que se torne mais adequado, pelos hábitos humanos e cinematográficos que adquirimos, que nos lembremos desse outro tipo de relação familiar, mais próxima e, ao mesmo tempo, mais acidentada, e propícia à descoberta de caminhos perigosos, dos quais não poderemos nunca voltar. Contudo, não é a rivalidade entre os dois vigaristas (um das artes de palco, e o outro mais virado apenas para os palcos mais duvidosos... e certas profissões obscuras da vida urbana) que se torna o cerne da obra, mas sim a causa de todos os atritos entre ambos: Marion Cotillard, ou melhor dizendo, Ewa. Porque se tanto Emil como Bruno são repre…

Os discos dos QUEEN: Hot Space [1982]

Imagem
Se os QUEEN se caracterizam pelo mix de referências e estilos musicais, em «Hot Space» a história é ligeiramente diferente. Aqui encontramos uma salganhada de coisas, sim, mas não se criou o fio condutor comum da maioria dos álbuns anteriores, já que essas coisas se encontram dispostas de uma maneira que em pouco se assemelha a experiências do passado, onde o estilo da banda parece ser algo tapado por vários elementos musicais que eles quiseram utilizar aqui, mas que acabaram por danificar todo o álbum. Além disso, «Hot Space» é mais um conjunto de experimentações do que de invenções, provocando uma série altos e baixos que acabam por criar apenas um disco de agradável audição, mas de fácil esquecimento. E por isso, o álbum acaba por não funcionar tão bem, ao direccionar-se maioritariamente a tendências de teor mais pop e (alguma) disco que reflectem só as modas da época em que foi feito. A criação de uma obra como esta, com as suas características próprias, adveio do gigantesco suce…

Os Maias - Cenas da Vida Romântica (Versão Integral) [2014]

Imagem
Ao mesmo tempo que o filme, com duas horas e 17 minutos, chega hoje a várias salas de cinema do país, a adaptação da obra de Eça de Queiroz poderá ser também vista na versão do realizador, numa iniciativa exclusiva do Cinema Ideal. Com mais 50 minutos, a descoberta desta director’s cut compreende mais cenas, que nos proporcionam uma visão cinematográfica mais alargada desse clássico da literatura. A não perder. 
A história todos conhecem, e as personagens também. Mas recapitulemos, para aqueles que, porventura, se terão esquecido de tamanha complexidade (porque o mundo de Os Maias é vasto, e porque João Botelho selecionou somente alguns dos “episódios” do livro, que são também os pontos-chave da obra): há, obviamente, a paixão principal da história, mas ainda vemos, com deleite, as polémicas conversas políticas e sociais entre Carlos da Maia, o seu amigo João da Ega e todos os seus ilustres comparsas, as rivalidades com Dâmaso Salcede e a sátira irónica e corrosiva à hierarquia de cl…

Livros VS Filmes #3 - FAHRENHEIT 451

Imagem
O LIVRO  Clássico da ficção científica do século passado, o livro do visionário Ray Bradbury continua essencial para a compreensão dos perigos da modernidade – e enquanto estamos rodeados de computadores, smartphones, tablets e outras parafernálias, tendemos a esquecer o verdadeiro valor dos livros, e a forma como estes simples objectos podem mudar o mundo e muitas mentalidades. Uma obra que se lê de uma assentada, mas a sua filosofia pode criar uma reflexão profunda no leitor, através de uma história que envolve um sistema burocrático que repudia a literatura e que apoia ad aeternum a massificação televisiva e sensacionalista. Muito actual, portanto. 
O FILME  Não é que a adaptação de François Truffaut seja desprezível, mas a forma como decidiu recriar, visual e narrativamente, o imaginário de Bradbury, não foi a mais bem pensada. Não por causa das limitações de um filme em relação a um livro, mas pelo planeamento da produção, que poderia ter feito melhor com menos recursos e parafe…

Grigris [2013]

Imagem
Uma história “à americana” em língua francesa? É o que Grigris, nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, parece ser… e em parte, é. Mas há outras coisas que acabam por distinguir este filme curioso, que estreia esta semana em Portugal, pela mão da Medeia Filmes
Grigris começa com uma impressionante cena de dança, em que o homónimo (interpretado por Souleymane Démé no seu primeiro desempenho no cinema) se encontra no centro da pista do bar onde costuma trabalhar, atraindo a atenção e o entusiasmo dos visitantes do espaço que, extasiados, conseguem captar a energia dos seus movimentos e a irreverência do seu estilo. A sensação que este início deixa no espectador irá repetir-se em todos os outros momentos do filme onde veremos o artista a exercer o seu maior talento. 
Mas não é só ele, este protagonista invulgar, que faz o deleite de Grigris, e por isso encontramos um filme que, mais do que agradável e feito de uma forma impecável, alerta para situações sociais (como a vida da comunida…

E Agora? Lembra-me [2013]

Imagem
O premiado documentário de Joaquim Pinto passou peloFestival de Locarnoe, em Portugal, pelos certames Queer Lisboa e Doclisboa. Agora, chegou ao circuito comercial de distribuição e é também um dos dois filmes de estreia do novoCinema Ideal
Naquele tempo, depois da aclamação com prémios de renome internacional, o novo filme de Joaquim Pinto começou a dar que falar por esse mundo fora. Chegou a Portugal primeiro pelos festivais, e agora, que está já disponível em várias salas do país, a crítica foi à projeção e entrou em êxtase, encontrando genialidades inexistentes em cada frame, e o júbilo povoou por toda a Terra (ou pelo menos, era o que parecia). Muitos cantaram e gritaram, com alegria, ousando dizer: “Bendito o que vem em nome da salvação sempre inglória do cinema português. Hossana! Hossana nas alturas!”. 
Serve esta pequena brincadeira de linguística (e que vai de encontro a um dos pontos centrais do documentário, a fé e a crença nos dogmas) para abrir esta análise a E Agora?…

Filmes em 60 segundos: O Meu Nome é Ninguém (Il mio nome è Nessuno/My Name is Nobody) [1973]

Imagem
Um western spaghetti que é também um improvável buddy movie: é isto «My Name is Nobody», filme de Tonino Valerii com um toque (gigantesco e óbvio) de Sergio Leone, e uma banda sonora de Ennio Morricone que faz referências directas ao que de mais épico têm «O Bom, o Mau e o Vilão» e «Aconteceu no Oeste», como ao lado paródico de «Aguenta-te Canalha!». É talvez aqui que este título se situa, num ponto intermédio que, ao mesmo tempo, leva ao extremo as duas vertentes, tão leonianas, deste tipo de westerns, patente na relação entre as personagens de Henry Fonda e Terence Hill, o velho e o novo que se ajudam mutuamente nas mais variadas situações. Cómico, por vezes imprevisível e quase sempre incongruente, nunca deixa de ser, contudo, uma história muito divertida e ritmada, que se acompanha com deleite e, até, algum encanto (apesar da brejeirice de algumas cenas). 
★ ★ ★