sábado, 30 de agosto de 2014

Os discos dos QUEEN: Flash Gordon [1980]


No mesmo ano de «The Game», os QUEEN lançam um álbum insólito, oriundo de circunstâncias não menos desconcertantes: esta é a banda sonora homónima de «Flash Gordon», no que resultou, tanto pelas características bizarras e excêntricas do filme como pelo tom do material de origem (que pede música em tons épicos e espaciais que não se assemelhem ao que John Williams fez para a trilogia «Star Wars»), num conjunto de músicas que acompanham a história de Flash e a sua luta contra o temível imperador Ming (dono do bigode mais estiloso do universo e arredores) para salvar a Terra e todos os seus habitantes da diabólica destruição que o vilão pretende concretizar. De facto, é esta banda sonora um dos (poucos) destaques desta fita, um clássico de serões de fim-de-semana e da vida de muita petizada dos anos 80 e 90 (e ressurgiu no imaginário popular graças à homenagem de Seth MacFarlane na sua comédia «Ted»). Nela, encontramos elementos sonoros que caracterizariam toda uma década de QUEEN e elevariam o mood operático e épico da banda para outras alturas, mais ou menos divinas, mais ou menos imprevisíveis, e mais ou menos apelativas e coincidentes com os discos do passado. Mas «Flash Gordon» não deixa de ser um álbum de um filme, levando, por isso, com todas as coisas boas e más que isso possa carregar. É o álbum menos característico dos QUEEN, apesar de tudo, e nele podemos ouvir também dois excertos compostos por Howard Blake. 

Aqui encontramos algumas experiências que os QUEEN voltariam a tentar repetir noutra colaboração cinematográfica posterior: um conjunto de canções próprias, reunidas em «A Kind of Magic», que serviram para parte da partitura de «Duelo Imortal», um filme com tanta qualidade duvidosa como o do super herói deste disco de 80. E por ser o disco que reúne as melodias de uma experiência cinematográfica, «Flash Gordon» varia muito em relação a um dito álbum “normal” do grupo: o número de faixas é maior, e reduzidíssimo, pelo contrário, é o número de canções que possuem letra: um deles é o grande êxito que foi o tema de abertura, lançado numa outra versão para o mercado dos singles, que corta os diálogos do filme que ouvimos na versão incluída no álbum. E permanece a canção mais conhecida da banda sonora, e uma das mais famosas do reportório do grupo nesta segunda década de vida. «Flash's Theme» revela a heroicidade das histórias de pendor fantástico e kitsch que vive o protagonista, em desventuras intergalácticas. Exceptuando a repetição dos elementos desta primeira faixa noutras que se lhe seguem (como as constantes menções a partes da letra em «Marriage of Dale and Ming (And Flash Approaching)» e na reprise da «Theme»), nunca ouviremos nada de novo a sair das vozes dos membros dos QUEEN... a não ser na última canção, «The Hero», onde ouvimos Freddie Mercury com parte de uma letra nova, como também uma reinvenção da canção principal. Até lá, entre as outras quinze faixas do disco, encontramos composições que captam exemplarmente o espírito da ficção científica excêntrica do filme, mas que podem não funcionar tão bem fora dele. E talvez por ser uma composição mais condicionada (por ser para uma coisa em específico), em alguns momentos podemos perder algum do toque dos QUEEN em virtude daquilo que «Flash Gordon» pretende alcançar com a banda sonora deles. E é pena que as virtudes vocais da banda não tenham sido mais aproveitadas (algo que consegue ser feito em «Highlander» e fazer esse álbum funcionar como uma obra própria)

Mas «Flash Gordon», mesmo com as falhas, não resume o seu interesse a essas duas músicas, porque há pequenas curiosidades repletas de extravagância para apreciar, e que assentam como uma luva ao tom pouco sério e desequilibrado da fita de culto (que tem os seus bons momentos - os minutos iniciais, acompanhados pela tal «theme», funcionam agradavelmente bem). As composições dos QUEEN elevam a obra a um patamar mais interessante (e aumentam-lhe também a esquisitice, em certos momentos), atribuindo-lhe um tom próprio que, mesmo que não aprecie, o espectador nunca conseguirá deixar de associar à forma como a história foi contada para o ecrã. A versão da banda sonora deste álbum tem mais do que uma mera função de compilação das músicas do filme. Em muitas das faixas ouvimos mais diálogos  (muitas vezes excessivos, e desnecessários) e efeitos sonoros do que propriamente música, que nos ajudam por vezes a contextualizar cada invenção musical da banda em cada momento de «Flash Gordon» para a qual foi criada. E algumas funcionam melhor do que outras, mas talvez fosse preferível que o disco se distanciasse um pouco do filme, para conseguir ser mais abrangente a outros públicos. Contudo, esta obra nunca deixa de ser  agradável, e mais uma testemunha da criatividade de um grupo que acompanhou muito bem a mudança dos tempos, oferecendo sempre um toque próprio a cada um dos seus trabalhos, completamente distinto de todos os outros artistas da sua época. Mas seria melhor para o próprio álbum que este pudesse viver com mais individualidade, como «A Kind of Magic» e a sua série de fabulosos e variados hits. O que pode resultar em contexto cinematográfico pode tornar-se menos suportável num registo discográfico - a não ser para os fãs mais acérrimos deste universo fantasioso. Os QUEEN poderiam ter explorado outros caminhos que não fossem o da dissecação pura e dura de uma única via temática das suas capacidades musicais nesta obra, e os resultados são aprazíveis, em parte, e dispensáveis, noutra.

Estar a falar aqui de todas as faixas (muitas delas ligadas entre si) é desnecessário, porque a maior parte delas é curtíssima (reflectindo momentos específicos da narrativa, e que lhe aumentam, em certos aspectos, a epicidade deste tipo de histórias de super heróis) e porque se-lhes adequa perfeitamente o que já foi registado em parágrafos anteriores. Em vez de estarmos a ouvir o disco, em muitos momentos parece que escutamos apenas o filme, sem o auxílio de imagens. E muito honestamente, considero isso desprestigiante para o trabalho dos QUEEN e para aquilo que deve ser uma banda sonora. Mas é o que temos, porque assim, ao ouvir este álbum, o(a) leitor(a) poderá, com o auxílio dos tantos diálogos que pode ouvir, compreender a história e entender mais ou menos como está estruturada a fita - e assim, evita ter de assistir ao visual berrante e completamente datado deste "clássico". Ao contrário de outros discos dos QUEEN, que mantiveram a frescura com o passar dos anos, este «Flash Gordon» não consegue passar de uma (boa) curiosidade para melómanos e cinéfilos, que se ouve com prazer, mas que não consegue convencer como audição "a solo", que se consiga distanciar do filme em que inspirou, porque os sons especificamente elaborados para acompanhar o filme, por mais toque de QUEEN que tenham, não conseguem ser tão memoráveis como as músicas do grupo feitas apenas por eles e segundo as mensagens e irreverências que desejaram passar aos seus ouvintes.

* * *

A melhor faixa: sem qualquer dúvida que é a «Flash's Theme», a única que consegue funcionar autonomamente e que acaba por influenciar todas as outras.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Se... (If...) [1968]


One man can change the world with a bullet in the right place.

Quem disse que é no ambiente escolar que se criam as raízes para a continuação da manutenção do sistema em que gerimos a nossa vida e o nosso quotidiano, tinha toda a razão. E um filme como «If...», obra fundamental do Cinema britânico (e representativa de uma década fulgurante que trouxe várias mudanças à sociedade inglesa e à cultura em geral), sustenta e comprova essas mesmas palavras, justificando-as com a hierarquia académica de um colégio tipicamente britânico (e que corresponde verdadeiramente a todos os conceitos de rigidez e tradição que costumamos associar a este tipo de comunidades, graças ao imaginário inglês que nos proporcionam diversos livros, filmes e séries de época), que esconde na sua estrutura desequilibrada uma sede de poder e de excessiva autoridade, onde os alunos mais velhos aliam-se aos tutores e às altas individualidades que dirigem, com mão de ferro, este colégio reputadíssimo, para fazerem dos mais novos e dos caloiros os seus servos, obedientes às ordens desses falsos Mestres, e oprimidos por um modo de vida que apoia este tipo de situações, e que terá consequências para o futuro desses estudantes ingénuos - que mais tarde se irão revelar, na vida "normal", como os responsáveis pela continuação das rotinas sociológicas e hierárquicas da humanidade.


«If...» é assim, um modelo, à escala reduzida, das convulsões e sobressaltos de uma qualquer sociedade,  de um qualquer país, de um qualquer continente, relatando, também, as rupturas mais ou menos perigosas com as convenções, também elas propensas ao perigo de quem as sofre na pele. Dividido em oito diferentes capítulos, Lindsay Anderson revela as tendências britânicas e seus constrangimentos, e coloca, em retratos mais ou menos alegóricos, todas as partes que perfazem a soma desta estranha, mas tradicional e conservadora comunidade. Através de um misto de autoridade e desobediência, punição e severidade, entre as cores vivas e o mistério do preto e branco, que se intercalam em várias cenas (e as escolhas de cinematografia podem ter sido afectadas pelo baixo orçamento, mas o realizador joga também de uma boa forma com essas imposições), caminhamos por uma reflexão psicológica que marca um tempo e uma certa maneira de se fazer Cinema. A provocação encontra-se tanto na rebeldia e revolucionarismo dos estudantes (encabeçados por Mick Travis, personagem interpretado por Malcolm McDowell - no papel que fez com que Kubrick encontrasse o protagonista ideal para «Laranja Mecânica» - e que entra aqui no primeiro capítulo de uma trilogia de fitas) como também nas tentativas mais ou menos forçadas da autoridade exercer o seu poder, e ainda, nas relações mais ou menos tensas que os alunos estabelecem uns com os outros, onde a arrogância, a prepotência e a infantilidade são conceitos-chave para se poder entender como, apesar da capa de seriedade, o colégio apresenta várias fragilidades que podem ser facilmente quebradas (tendo mesmo os recursos do próprio estabelecimento como "arma" da destruição, porque ao mesmo tempo que impedem a violência e a revolta dos estudantes, os seus preceitos já centenários ajudam a que os alunos possam ter os meios para contestar, com toda a criatividade).


O impacto da história foi grande e a aclamação também (venceu a Palma de Ouro em Cannes), tendo sido também objecto de uma sátira burlesca pelos Monty Python, num sketch que parodia o famoso e violentíssimo desfecho. Mas outra das coisas mais notáveis de «If...» é, para além da controvérsia, a intemporalidade (mais ou menos acidental) que ganhou o experimentalismo da sua narrativa: nunca estiveram mais atuais as questões de Poder, apesar de cada vez mais se reflectir sobre elas - e de reflexões mais complexas já terem surgido sobre as mesmas nos anos posteriores a esta. Mas o culto da Obediência e o desprezo (disfarçado e subtil) pela Liberdade presentes no filme ganham uma força maior no nosso tempo. Se a obra marca o princípio do fim da década mais tumultuosa e rebelde do século XX inglês e do seu Cinema, é pela concepção que utilizou para retratar os britânicos (com todos os adjectivos negativos possíveis e imaginários, impondo uma nova visão sobre o funcionamento das escolas que, ainda hoje, não conseguiu ser alterada) que se consegue distinguir na crítica das suas temáticas: permanecem o domínio dos grupos conformistas face à individualidade, os preconceitos que rapidamente podem ser rotulados a cada um e utilizados por todos os outros em via da mais pura e dura chacota, e a tradição, por ser tradição, mais vale deixar continuar a ser como ela tem sido desde sempre. Tudo continua o mesmo e, regressando à metáfora social, é assim que encontramos o nosso país, e todos os outros: iguais, vulgares, sem aspirações a coisa alguma nem pretensões de qualquer índole. Mas não será que este status quo poderá ser, um dia destes, alvo de um "atentado" irracional (que ajudou a criar, já que proporcionou as condicionantes para o mesmo), como acontece no filme, que pretende acabar com toda a banalidade e injustificada auto-sobrevalorização do sistema? Ou seja, não será provável que, mais tarde ou mais cedo, alguém queira acabar com a delicadeza das instituições da forma menos delicada possível? E por isso, mesmo que tenha uma ou outra ideia artisticamente mais datada, «If...» permanece uma fita de culto que pede urgentemente para ser compreendida e aplicada para a contemporaneidade.

* * * * 1/2

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Recordar: Dirk Bogarde


Tímido e reservado na vida real, Dirk Bogarde revelou, no grande ecrã, uma vastidão de transformações físicas e psicológicas surpreendentes ao longo de mais de quatro décadas de carreira no cinema. O público recorda-o por uma meia dúzia de personagens memoráveis, mas Bogarde foi mais longe do que a opinião pública pretende apregoar: do drama à comédia, ele desdobrou-se em papéis distintos que revelaram inúmeras facetas e máscaras do seu talento que, ainda hoje, permanece impecável e que merece ser sempre recordado.

Escrevi mais um texto para a rubrica "A Recordar", que podem ler, na íntegra, no Espalha Factos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

17 filmes de Ingmar Bergman em DVD até ao final do ano


Depois da passagem por vários Cinemas do país, 17 filmes de Ingmar Bergman chegam agora ao mercado do DVD, com versões restauradas, e alguns dos títulos são inéditos no home-video em Portugal. Mais informações no Espalha Factos!

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Salão de Jimmy (Jimmy's Hall) [2014]


Ken Loach regressa com mais um filme sobre política e as diferentes gerações que compõem uma sociedade em choque, confrontada com as mudanças provocadas pelo progresso e pelas novas mentalidades. O Salão de Jimmy é um pequeno e agradável filme que estreia hoje no nosso país, numa distribuição da Leopardo Filmes

São vários os filmes que utilizaram a dicotomia entre a tradição e a modernidade na criação das suas histórias, personagens e circunstâncias. Casos de excelência como o célebre Inherit the Wind, de Stanley Kramer, um feroz estudo sobre o fanatismo e a irracionalidade da crença, e a desconstrução das subculturas juvenis feita em This is England – Isto é Inglaterra, de Shane Meadows, são dois impecáveis exemplos da eficácia e importância dessa temática no Cinema, e que condiciona, de maneira tão forte, as relações humanas. O choque entre o conservadorismo e a rebeldia (como tão bem sublinha a personagem de James Dean no inesquecível Fúria de Viver, de Nicholas Ray) é uma constante em cada geração: todas terão os seus problemas, insolúveis para as que lhes antecedem, e óbvios para aquelas que lhes irão suceder. 

O Salão de Jimmy poderá não ser um título tão entusiasmante no tratamento dessas simbologias como os anteriormente citados, nem é mesmo um dos grandes filmes do seu realizador, Ken Loach, defensor de um cinema realista que não esquece as convicções políticas e o meio social em que as personagens vivem e fazem o seu crescimento físico e psicológico (são dignos de lembrança filmes como Kes e Sweet Sixteen). Contudo, o mais recente projecto do cineasta britânico, que conta já com cinquenta anos de carreira, prima pela elegância da narrativa e pela simplicidade das interpretações.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Alfred Hitchcock: 5 filmes subvalorizados


Vários são os filmes do realizador, vulgarmente intitulado como "o Mestre do Suspense", que surgem numa multiplicidade de tops e listas cinéfilas oriundas dos quatro cantos do mundo. Seja a aventura trepidante de espionagem de «Intriga Internacional», o horror psicológico de «Psycho» e a obsessão pela ilusão de «Vertigo» (que agora não consegue livrar-se do rótulo de "Melhor Filme de Todos os Tempos", graças à famigerada lista da revista Sight and Sound), Hitchcock é um realizador presente na memória e crescimento de várias gerações de cinéfilos e de realizadores. Contudo, e apesar de nessas ditas selecções dos mais grandiosos títulos da história do Cinema (com critérios mais ou menos duvidosos - como os da Empire, nas suas listas dos 500 e dos 301 melhores filmes de sempre), existem uns quantos títulos do cineasta que permanecem escondidos do grande público - ou pelo menos, desvalorizados por uma boa parte do mesmo. Ou porque estavam à espera de encontrar um hitchcockianismo presente noutros filmes e que num ou outro não conseguiram descobrir, ou porque pensavam que o filme seria uma coisa e acabou por ser outra completamente diferente, ou até porque, em algumas dessas fitas mais "obscuras", Hitchcock não se ficou apenas pelo suspense e pela tensão, e decidiu ir muito mais além da exploração épica das perturbações da vida humana. Esta lista pretende ressuscitar cinco casos que, a meu ver, merecem ser vistos, ou revistos, ou repensados. São cinco obras da fase hollywoodiana de Hitchcock, que ficaram, talvez, escondidos a um canto graças ao poder e mediatismo de tantas obras primas que o realizador elaborou em solo americano. Espero que gostem, e que encontrem (mais) bons motivos para conhecer em pormenor o brilhantismo de um dos maiores mestres da Sétima Arte. Como se já não houvessem suficientes!

1. - Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat) [1944]


Tal como seria em «A Corda», «Chamada para a Morte» e «Janela Indiscreta», «Um Barco e Nove Destinos» tem a sua história confinada a um único espaço cénico, onde se desenrolam todas as interacções e conflitos entre as diferentes personagens. É um filme que reflecte as preocupações de uma época, por falar da II Guerra Mundial e do perigo da ameaça nazi poder alastrar-se para o resto do mundo. E isto é demonstrado através do barco do título, que pode mesmo ser visto como uma metáfora para a humanidade, e para a maneira como um só um indivíduo pode provocar o pânico a muitos mais. Hitchcock concentra aqui a sua habitual tensão de uma forma inesperada, desagradável para uns, mas interessante e viciante, até, para outros. Para além de ter um dos cameos mais originais do realizador, «Lifeboat» é um espantoso exercício de narrativa que, apesar de possuir características que tão bem poderiam adequar-se a uma peça de teatro, foi montada de uma maneira exemplar que só no Cinema poderia ser concretizada. Uma genial desconstrução do ambiente cinzento da guerra, e uma impecável fita de suspense que reflecte o que de mais generoso e cruel existe no ser humano.

2. - A Casa Encantada (Spellbound) [1945]


Basta falar da colaboração que Salvador Dali prestou ao filme (e à sua sequência mais memorável, que na versão original era mais longa do que a final) para entender como, apesar de ter algumas falhas (há uma ou outra cena que é completamente "pointless"), «A Casa Encantada» é outro filme de Hitchcock que merece ser visto com verdadeiros olhos de ver. História de crime, amnésia e sonhos surreais, é protagonizada pela sempre majestosa Ingrid Bergman e por Gregory Peck, num papel que muitos consideram hoje demasiado exagerado para as características que suporta. Contudo, as perturbações da sua personagem reflectem muito bem as dúvidas e os mistérios que escondem os casos mais obtusos da psicanálise, e sendo Hitchcock um perito na arte de manipular a mente dos espectadores, teria de chegar o dia em que a ciência seria abordada num dos seus filmes. Um filme muito interessante que vive da química entre os dois protagonistas, tão atribulada pelas consequências dos métodos científicos e pelo crime que atribuem ao paciente amnésico, em circunstâncias que serão desvendadas, passo a passo, ao longo de toda a trama.



É o único filme a cores desta lista, e o mais desvalorizado e espezinhado de todos (mesmo com os enormes louvores do gang dos «Cahiers du Cinéma»), por ser o mais "anti-Hitchcock": «Under Capricorn» não é, tal como outros filmes do realizador, um thriller propriamente dito, e entre os vários não-thrillers que fez, este deve ser o que mais se afasta das marcas mais conhecidas do estilo do cineasta. Gira à volta de um triângulo amoroso, na Austrália do século XIX, e da hierarquia social que proporciona várias contradições entre as personagens e os sentimentos que nutrem umas pelas outras, dividindo-se por razões de poder, mas também por segredos obscuros do passado e por mistérios que ficaram à espera de uma resposta. Fabuloso na fotografia e nos magníficos cenários, e emocionante na construção da intriga romântica e na oposição entre diferentes facções da sociedade nobiliárquica da época, «Under Capricorn» tem pouquíssimos momentos de suspense, mas o centro do melodrama e todas as outras componentes da narrativa estão muito bem pensadas, de uma forma que só Hitchcock poderia ter feito - mesmo que este filme em nada se pareça com tantos outros do seu curriculum.

4. - Confesso! (I Confess!) [1953] 


Entre todos os filmes subvalorizados de Hitchcock (ou entre, pelo menos, os que constituem este quinteto em análise), «Confesso!» é o meu preferido. Foi mal compreendido na altura da estreia nos EUA pelas ligações da história a um tipo de ritual católico, cujo significado era inconcebível para a cultura norte-americana - a do sigilo da confissão, que torna a relação de intimidade entre o sacerdote e o pecador em algo semelhante à de um psiquiatra e seu paciente, mas com contornos espirituais. E é por isso que o padre Michael Logan (uma composição magistral de Montgomery Clift) não deita cá para fora a identidade do culpado do assassínio, que um crente assumiu numa confissão improvisada, pouco tempo depois da ocorrência, e que lhe trará imensos problemas - inclusive o facto de se tornar o suspeito número 1 desse crime que não cometeu. O cumprimento da norma assume-se perante a individualidade nesta história, e isso faz com que o tema do "inocente que se transforma em criminoso aos olhos da opinião pública" ganhe uma nova e mais espectacular dimensão no universo hitchcockiano: é que neste caso, o padre sabe todos os pormenores que o poderiam ilibar das falsas acusações que a polícia lhe responsabiliza... mas não os pode utilizar, por dever ao sacerdócio. «Confesso!» tem um suspense refinadíssimo que apenas encontramos em outros grandes filmes do Mestre. Porque é que foi atirado para a valeta do esquecimento? A passagem do tempo pode ajudar a que se possa olhar de outra maneira para os contornos da religião restrita e complexa que é retratada - e isso é apenas uma pequena parte nesta diabólica obra de ética, valores, desespero e cobardia.



O motor da acção é o mesmo de «I Confess» e de tantos outros filmes de Hitchcock (que tinha este tema como um dos seus predilectos): o homem acusado de um crime que não cometeu. Mas aqui vemos a adaptação de uma história verídica - e que, apesar disso, sobrepõe-se à realidade, e a uma mera e televisiva recriação dos factos, para ser uma invenção muito bem imaginada pelo cineasta. Contudo, convém não esquecer que Hitchcock não pôs de parte o lado real da história, salientando, desde o princípio, que os contornos da situação que vemos descritos ao longo do filme são mais surpreendentes e insólitos do que muitos elementos ficcionais que encontramos em alguns dos seus mais sólidos e provocantes thrillers. Protagonizado pelo genial Henry Fonda (numa das suas interpretações mais empolgantes) e por Vera Miles, no papel da fragilizada esposa do acusado que acaba por sentir física e psicologicamente as consequências do engano judicial, «The Wrong Man» parte de pouco, e daquilo que, infelizmente, se tornou na categoria mais banal de tragédias do nosso quotidiano, para criar uma sensação de desconforto e de preocupação no espectador, que se sente não só perto dos personagens que acompanha no ecrã, como também que aquilo que se passa com eles tem também a ver consigo, e com a sua condição no meio de uma sociedade desorganizada e fragilizada. Mais um grande filme de Hitchcock que, mesmo que seja o menos dos subvalorizados desta selecção, não deixou de ficar, injustamente, de parte, ao pé de outros filmes mais populares do realizador.

Robin Williams: 10 grandes personagens


Actor multifacetado e original, Robin Williams começou na comédia (e com um grande êxito na TV, com a série Mork & Mindy, spin-off do popular Happy Days), mas a pouco e pouco, a sua carreira demonstrou que o ator não tinha apenas talento para fazer rir, com os seus improvisos explosivos e a sua enorme capacidade de inventar e desconstruir personagens e situações bizarras do quotidiano. No Cinema, Williams foi mais longe e brindou-nos com óptimas prestações humorísticas, dramáticas, sombrias e duvidosas.

O Espalha-Factos recorda o trabalho do génio através de uma selecção de dez dos seus melhores papéis no cinema. Uma lista para recordar os momentos mais altos de uma carreira atribulada, mas que marcou a cultura popular. Da minha parte estão Um Russo em Nova Iorque, Bom Dia, Vietname, As Faces de Harry e Insomnia. Podem ler o artigo aqui.

A Viagem dos Cem Passos (The Hundred-Foot Journey) [2014]


O novo filme de Lasse Hallström é uma simpática, mas vulgar, incorreta e desinspirada abordagem ao mundo da cozinha, através de um conto de fadas desnecessário que, apesar disso, conseguimos ver com algum deleite.

Conta com produção de Oprah Winfrey e Steven Spielberg, e a história é assinada por Steven Knight, a partir de um suposto best-seller mundial. Mas talvez A Viagem dos Cem Passos não precisasse de tão altas individualidades a cooperarem na sua execução, porque o resultado final poderia muito bem ser da autoria de qualquer tarefeiro menor da indústria cinematográfica. É estranho ver o autor do incrível Locke a escrever um argumento com muitas pontas soltas e formatado, mas esse tipo de história adequa-se perfeitamente ao seu realizador, que volta a pegar em temas e construções narrativas básicas e muito lineares, como antigamente, onde o charme e o encanto assumem o papel principal. Mas afinal, quem ainda se lembra do banalíssimo Chocolate (que apenas vivia da química forçada entre Juliette Binoche e Johnny Depp) e do risível Uma Vida Inacabada (mais o seu urso em CGI)? 

Pois, é que A Viagem dos Cem Passos é mais do mesmo, só que se calhar, com ainda mais falhas. E o facto de, ao contrário do que indicia o título e a história, nem cem passos distanciam os dois restaurantes rivais (que competem ferozmente no início da trama e que depois acabam felizes para sempre no final), é apenas uma gota de água no meio de um oceano de clichés, estereótipos e facilitismos que vão ao encontro dos propósitos bonitinhos que se pretendem conjugar no desfecho.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

15 filmes para o Verão


São quinze as sugestões que eu, o Diogo Simão e a Rosalinda Ova propomos para estes dias de intenso calor. Da minha parte, podem encontrar nesta lista filmes de Billy Wilder, Don Siegel, Sergio Leone, Louis Malle e Woody Allen. Uma selecção para todos os gostos, que pode ser lida aqui.

Nunca Digas Nunca (And So It Goes) [2014]


É uma típica história de amor e de desilusões face ao envelhecimento, como Hollywood sempre gostou de utilizar para fazer reaparecer algumas das suas maiores estrelas (recorde-se o exemplo, muito mais interessante, de A Casa do Lago, com Katharine Hepburn e Henry Fonda). E lembremo-nos que não é o cliché de uma narrativa que a pode tornar desinteressante – poderíamos trazer a discussão algumas boas dezenas de trabalhos de realizadores conceituados, que pegam em velhos chavões das histórias do cinema e que fazem, com elas, filmes que se tornaram mais originais do que poderiam aparentar. 

Mas o objetivo de Nunca Digas Nunca não é esse, desde o princípio. E não há mal nenhum nisso. Se virmos o trailer com atenção, esta parece ser uma comédia totalmente light, sem qualquer tipo de propósitos intelectuais ou criativos, e que não sendo das melhores dessa categoria, poderia até trazer um bom tempo de entretenimento razoável, onde os atores se divertem à grande, elaborado de forma eficaz e com alguma pinta e carisma. Se assim fosse, se esta comédia seguisse esse caminho, algo banal, mas não muito desprezível, não teria razões de queixa. 

O problema é que tudo isso é uma fachada, porque nem como entretenimento ligeiro este Nunca Digas Nunca consegue funcionar bem. Entre as piadas patéticas (onde só uma em cada trinta e sete nos consegue criar uma espécie de sorriso) e as figuras embaraçosas das personagens e das situações “cómicas” em que são envolvidas (quantas vezes é preciso aturar as cenas tão “familiares” que envolvem fezes e sexualidade canina?), parece que encontramos mesmo o constrangimento nos próprios atores. Faz pena ter de ver Michael Douglas a interpretar o homenzinho estereotipado com ar de poucos amigos, numa versão menor do protagonista rezingão e teimoso de Melhor é Impossível (não há que enganar, o argumentista é o mesmo), que de um momento para o outro acorda para a vida.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A transição entre camadas pode gerar uma pequena pausa


Olho para a quantidade exuberante de posts que escrevi para este blog em julho e agosto do ano passado e fico surpreendido, e desiludido com aquilo que agora faço, e que me deixa algo triste por não ser aquilo que era antes (pelo menos neste blog). É certo que esse Verão foi outro... mas este está a ser extremamente pouco produtivo. Fora as coisas para o Espalha Factos (que têm saído com resultados cada vez mais abaixo do pouco nível que eu já consegui chegar noutras alturas), não tenho tido paciência, ou grande inspiração (porque tempo é coisa que não me falta) para mandar mais regularmente neste estaminé as habituais postas de pescada. E tenho pena, porque era um hobbie que me dava imenso gozo - e que agora, não sei porquê, não consigo concretizar. Tento começar várias críticas e nada tem saído. E os posts da rubrica dos QUEEN têm sido completamente maus, e por isso peço que me perdoem estas andanças.

Mas não consigo aguentar muito mais, pelo menos por agora. Ao contrário de muitos seres da minha geração, a exposição ao computador, se bem que aparentemente necessária e contínua, só me tem causado imensos problemas. E daí, decidi tirar uns dias de folga da Companhia, e mesmo um pouco tudo o resto - redes sociais (vou abrandar mas continuo, claro, a andar por lá), fóruns, participações em rubricas, etc - para voltar, depois destas pseudo-férias temporárias a lidar com o mundo tal como gosto dele, ou pelo menos, para eliminar este pequeno desgosto neurótico que está a crescer. E para poder ver os filmes que quero (aaah, que saudades de ver apenas clássicos!), ler a qualquer instante, e desenvolver as mil e uma ideias que surgem na minha cabeça em pequenos rabiscos em papel que arquivo religiosamente num dossier improvisado.

Não sei quanto tempo durará a dita pausa, mas ainda será por alguns dias. Exceptuando os textos que tenho de deixar agendados para o Espalha Factos (críticas e tudo o mais - espero abrandar no resto deste mês, porque não tenho conseguido ter nenhuma satisfação em escrever ultimamente), não terão muitas notícias minhas por outro meio online. E se as actualizações deste blog, ou seja, os posts escritos propositadamente para ele, já eram escassos, nos próximos dias não irão sequer acontecer (as partilhas dos artigos do EF também serão feitas posteriormente. Só alguma publicidade no twitter e facebook será feita no momento em que esses textos saírem, e depois mais nada). A rubrica dos QUEEN fica em stand-by e volta à carga quando decidir retornar a esta vida quotidiana (que neste momento me está a cansar muito). Espero estar de volta, pelo menos, ainda neste mês de Agosto - e se isso acontecer, será bom sinal, pelo menos para mim, e se assim for, no sábado depois deste já voltarão a ter a rubrica - e gostava de voltar aos meus antigos prazeres, o de escrever com gosto, de dissecar clássicos ou grandes filmes, de falar novamente sobre livros, ou séries, ou tantas outras coisas.

Contrariamente ao modo de escrita de outros blogs e dos seus bloggers (apre que detesto esta expressão), não consigo, nem nunca consegui, gostar de manter um ritmo aceitável de postagens. Porque, apesar de adorar, a minha maior paixão não é escrever, mas sim o Cinema, a Literatura, a Música, o Teatro, a Rádio... e espero continuar a desenvolver-me nestas duas áreas no próximo ano lectivo, e aproveitar estes dias de merecidas "férias" para descansar a cabeça e esquecer o computador, e a porcaria de era supra tecnológica em que vivemos - e onde eu, infelizmente, não me consigo enquadrar. Talvez enquanto estiver em pausa deixo alguns textos escritos para publicação posterior, não sei...

Sinceramente, tenho saudades de 2013, e das coisas que podia fazer, e da maior liberdade que tinha para concretizar coisas loucas neste blog e em tantos outros sítios. Mas vou aproveitar para passear mais e desenvolver ideias que estão a ganhar pó no dito dossier. Preciso de parar um pouco para voltar a sentir saudades disto. E depois cansar-me outra vez. E etc, etc, etc.

Continuação de boas férias a todos. As minhas já estão a "rolar" há algum tempo, mas agora começam as "férias" desta rotina de escrita que estou a amar cada vez menos. E bolas, nunca me foi tão difícil expressar o que sinto como agora.

Até depois!

P.S. - O título é estúpido. Mas eu gosto.

sábado, 2 de agosto de 2014

Os discos dos QUEEN - The Game [1980]


A começar a década de 80, que trouxe tantas promessas, fracassos e bizarrias que se tornaram um legado insubstituível do mundo da música, os QUEEN lançam «The Game», um dos seus álbuns mais curtos, e que é também mais uma das suas curiosidades discográficas que permanecem escondidas do grande público (mesmo que tenha dois dos temas mais conhecidos da banda, «Another One Bites the Dust» e «Crazy Little Thing Called Love»). Foi o único disco do grupo a alcançar o número 1 do top de vendas nos EUA (e isso explica-se pelo seu lado comercial muito mais apelativo), e o primeiro em que os quatro quebraram a promessa de não utilizarem sintetizadores nas suas canções (em todos os álbuns anteriores encontramos uma inscrição, "No Synthesisers!", que parece mostrar o orgulho dos QUEEN em não terem esse tipo de sonoridades nas suas canções, criando o seu próprio estilo criativo com outras experimentações vocais e instrumentais), e isso cria uma grande diferença para «The Game»: é um álbum mais assumidamente pop que rock (apesar de algumas homenagens ao género e certas recuperações de ideias de canções antigas), marcando o início de uma série de mutações que levariam a banda a ter um estilo diferente do que a tinha caracterizado até então. E outra coisa curiosa: o baixo ganha um papel mais relevante, sinal da mudança dos padrões musicais, algo que se verificaria em muitos dos grandes sucessos da década (como por exemplo, «You Can Call Me Al» de Paul Simon).

A partir daqui, nunca ouviríamos os QUEEN dos anos 70, e mesmo as roupas e o visual sofreriam uma transformação completa (foi com os "eighties" que Freddie Mercury deixou crescer o lendário bigode). Mas não foi por causa dessa mudança que eles começaram a fazer músicas menos interessantes - pelo contrário, porque os QUEEN souberam acompanhar as tendências das épocas que presenciaram e das diferentes gerações que conseguiram alcançar. E «The Game» revela-se mais um capítulo agradável da fascinante viagem de descoberta da evolução de uma banda que esteve sempre em contínua explosão criativa. No disco aposta-se mais em canções isoladas (com maior potencial lucrativo, por serem menos complexas e mais acessíveis que a dos outros álbuns), e não notamos um fio condutor. Talvez seja esse o grande problema do disco, tal como o grande desequilíbrio que encontramos em algumas canções. 

"Open up your mind and let me step inside", é o primeiro verso que ouvimos, na voz de Freddie Mercury, na primeira faixa de 10 do álbum, intitulada «Play the Game», escrita pelo vocalista, e que nos fala das vicissitudes e dificuldades que implica esse grande jogo, eterno e intemporal, que é o do amor. Recorda-nos desde logo o passado da banda pela sua impecável e épica sonoridade, possuindo também já as características que fariam os QUEEN avançar para a "modernidade" da nova década. E apesar de ter a potência para ser um grande single de sucesso da banda, tal não aconteceu - mas não deixa por isso de ser uma das grandes canções do álbum, que apenas peca pelo desnecessário fade-out (havia motivos para desenvolver esta música e dar-lhe um final mais adequado). De seguida surge uma canção desconhecida do grande público, «Dragon Attack», de Brian May, uma curiosa composição onde se nota uma diferença de maturidade na voz de Mercury (que seria a que ouviríamos ao longo dos anos seguintes), e cujos sons, experiências e melodias fazem-nos recordar completamente alguns dos símbolos artísticos maiores dos oitentas - sem deixar de possuir o toque inimitável dos QUEEN. Mas parece ser só um aperitivo para o grande tema "disco" que lhe sucede, a mítica «Another One Bites the Dust», uma das músicas "mexidas" mais interessantes deste novo período artístico da banda, e que não parecendo nada ao estilo do grupo, não deixa de ter qualquer coisa QUEENesca no seu conteúdo e na estrutura métrica e vocal da pequena "narrativa" pessimista que conta em pouco mais de três minutos e meio. «Need Your Loving Tonight», de Deacon, é uma pequena canção extremamente contagiante e que acaba por se destacar, apesar da letra simplista, pela harmonia incrível que é criada entre os elementos pop e a presença de sons rock. Depois há o tema rockabilly «Crazy Little Thing Called Love», outra faixa alegre, escrita em poucos minutos por Mercury, que aposta em outras facetas menos exploradas dos QUEEN, e que homenageia, mais uma vez, o estilo de Elis Presley. É mais uma prova de que esta não é banda que os ouvintes se habituaram a conhecer nos anos 70, mas que nem por isso perderam a energia e a garra artística.

«Rock It (Prime Jive)» é uma extravagância insólita, de Roger Taylor, com muito rock e algumas experiências que não têm nada a ver com o que ouvimos até agora neste álbum. Alguns instrumentos parecem fazer sons semelhantes aos dos videojogos modernaços da época (e que hoje são adoráveis peças de culto retro) e não deixa de ser curiosa a invenção levada a cabo por Taylor com este devaneio "barulhento", mas complexo - e daí, esta não ter sido uma das músicas mais vendidas do disco (e os QUEEN quase nunca a tocaram nos seus concertos). Já «Don't Try Suicide», de Mercury, nunca interpretada ao vivo, é mais uma música "tola", mas divertida e não menos irreverente, com vários tipos de sonoridade, e um dos grandes pontos de originalidade/homenagem a várias referências do disco. E «Sail Away Sweet Sister (To the Sister I Never Had)» quebra, tal como a «Rock It» de Taylor, com o ritmo mais simples da maioria das canções anteriores, e é uma composição fortíssima e marcante de Brian May (que os Guns n' Roses interpretaram em concertos), que tenta recuperar a magia de outros tempos com a sua construção pouco linear, mas fascinante. Em «Coming Soon», Taylor volta à maior e mais eficaz pop, sendo também outra canção extremamente desconhecida dos QUEEN. Através da bateria de Taylor e a voz de Mercury, ouvimos algo que - arrisco dizer - seria o modelo para vários êxitos do género de outras bandas dos anos 80. E «Save Me» é uma bonita balada que encerra, com chave de ouro, este «The Game», onde a pop alia-se ao melhor da imaginação vocal e instrumental da banda.

Não é o melhor álbum dos QUEEN, e a pop faz com que algumas canções sejam menos inspiradas que outras, mas «The Game» tem mais umas quantas pérolas do grupo e, mesmo que também não seja um dos títulos mais sonantes desta segunda década de QUEEN, é uma obra indispensável para compreender a mitologia da banda - e os alicerces de mais algumas marcas de culto que, a partir daqui, seriam lançadas. Além de que deve ser um dos álbuns que se escuta com mais prazer, logo à partida, não provocando grandes reacções de estranheza, pela simplicidade das músicas e pela forma agradável como elas entram nos nossos ouvidos. E se os QUEEN nunca mais seriam o mesmo grupo excêntrico dos setentas, e das grandes óperas rock que os popularizaram, agora começariam a ser uma banda de massas. Mas não perderiam, graças a esse novo estatuto, o estilo e a originalidade: essas apenas se transformaram, para o agrado de muitos novos fãs e para o desagrado de alguns "veteranos". Mas esta é a verdade absoluta: foi a partir daqui que a energia e o misticismo da banda alcançou os maiores patamares de grandeza.

* * * * 

As melhores faixas: A entrada com «Play the Game», o ritmo viciante de «Another One Bites the Dust», o classicismo rock de «Crazy Little Thing Called Love», o inesperado de «Sail Away Sweet Sister» e o bonito final com «Save Me».

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Belém (Bethlehem) [2013]


A Alambique lança entre nós mais um filme impressionante sobre o conflito israelo-palestiniano, duas semanas depois da chegada de Omar, nomeado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, às salas portuguesas. Belém é um drama intenso e uma fortíssima estreia na realização de um grande novo talento do cinema.

Seguindo a melhor tradição dos filmes densos e sofisticados de Michael Mann (onde as emoções entre os dois lados da Lei se confundem num jogo de poder, destruição e chantagem mútuo), Belém reflete o ambiente de tensão entre Israel e Palestina, numa realidade bélica cujas proporções trágicas conhecemos cada vez melhor graças ao pouco que conseguimos saber através dos meios de comunicação social. Tal como tudo o resto, a situação delicada que envolve os dois países gera uma série de consequências e condicionantes, que se traduzem na atitude das personagens, nas suas defesas e nos seus ataques, numa narrativa sólida e construída de uma maneira eficaz e original.

E neste poderoso filme, o realizador Yuval Adler não quer só fazer um retrato da guerra, mas uma abordagem sincera ao perigo das relações humanas e dos interesses de cada pessoa. Aí, nessa conceção, é que encontramos a maior influência, ou semelhança, com alguns filmes de Mann, mais propriamente Heat – Cidade Sob Pressão e Inimigos Públicos. A oposição entre o gato e o rato da questão israelo-palestina (e aqui ambos os papéis se podem confundir nos dois lados da medalha) é uma constante, e não se fica só por uma visão expositiva e desinteressada das violentas guerrilhas entre a polícia e os seus opositores. Adler vai mais longe e não cede a quaisquer tentações facilitistas, proporcionando uma história audaz, perturbante, e que poucas vezes temos oportunidade de contemplar assim, porque está filmada de uma maneira realista e, ao mesmo tempo, fria e sedutora.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.