sábado, 28 de junho de 2014

Os discos dos QUEEN: Sheer Heart Attack [1974]


Ao contrário do que se sucede com os "terceiros volumes" no Cinema, em que os esperançosos no falhanço são sempre em maior número do que os mais positivistas (e/ou ingénuos), no mundo da música a continuidade de uma banda, ou descontinuidade, não se pode avaliar de uma forma tão redutora - porque não há nenhuma "história" que influencia todas as obras, mas um espírito artístico que pode ou não ser desconstruído, independentemente do número da "sequela" em causa. E por isso, há muito terceiros discos que parecem ser tão bons como os seus antecessores, ou até mesmo melhores, mas não é o facto de se tratar de um "terceiro" trabalho que consegue proporcionar uma expectativa prévia mais precisa quanto à sua qualidade. São disso exemplo os Beatles, com «A Hard Day's Night», os Pink Floyd e o controverso «Ummagumma», e também o fenomenal «Led Zeppelin III», da banda homónima... e claro, a esta lista de incontornáveis temos de acrescentar «Sheer Heart Attack», dos QUEEN.

É um dos discos mais bem construídos da banda, fluindo entre extremos musicais e imaginativos que o tornam um achado imperdível entre a longa discografia do grupo. Foi o álbum que definiu os QUEEN como um nome a seguir no mundo das constantes novidades musicais da cultura britânica, e eles conseguiram definir a sua individualidade no feroz mundo mainstream da música - e a canção responsável foi «Killer Queen», o single maior deste disco que, felizmente, tem muito mais para se descobrir. Todas as músicas diferem completamente umas das outras, mas nunca se perde um único fio condutor, o da irreverência e acutilância absolutamente surreais de uma banda em estado de graça - na fama e na criatividade. Das "Trevas" à "Luz", somos conduzidos, através de 13 temas sonantes e inesquecíveis, para um misto de loucura, preversão, "fofice" e inconformismo, para uma visão ainda mais profunda da psicologia QUEENesca. É um dos maiores feitos do grupo, que chegou aqui a um patamar que conseguiria manter por outras ocasiões. Mas «Sheer Heart Attack» deu um novo impulso a uma banda que há muito tempo queria ganhar o seu próprio espaço, e a rebeldia reflectiu-se na criação desta que é uma das obras capitais do quarteto. Entre «QUEEN II» e este álbum, sentimos que eles mudaram: cresceram e trouxeram um punhado de ideias novas e enérgicas, muito por "culpa" do espírito que começam a captar nos primeiros (e muito concorridos) concertos ao vivo.

Abre com «Brighton Rock» e os seus estranhos sons iniciais (captados numa espécie de feira popular, onde reina a animação, o pandemónio e a cacofonia). Pode compartilhar o título com o do livro de Graham Greene (e a adaptação cinematográfica de John Boutling), mas aqui a história (numa letra muito bem escrita) é de amor, contada numa anarquia sensorial pelas guitarradas intensas e provocantes e pela voz multifacetada de Freddie Mercury. Uma grande música (uma das melhores aberturas de um álbum dos QUEEN), e nenhuma outra poderia ser melhor para dar início a esta jornada que nos espera. Uma explosão de sentimentos, garra, instintos e vivacidade que caracteriza todo o disco e cada uma das suas componentes - como a música que se segue, «Killer Queen», a faixa mais orelhuda do disco e a imposição total do mix característico de estilos e referências que a banda mais gostava de reinventar neste período criativo. Mas não é só na voz em Mercury que encontramos a magia dos QUEEN: Roger Taylor volta a surpreender nessa área com «Tenement Fuster», uma inesperada composição demolidora, mas não menos bonita, poética e "roqueira" e que permanece como mais um dos (vários) tesouros escondidos do grupo.

As ideias agradavelmente loucas e descabidas da escrita de Mercury continuam a marcar a continuidade do disco, e a forma como ele nos agarra. Nas duas canções seguintes, a épica e diabólica «Flick of the Wrist» (que possui uma impecável construção narrativa) e a harmoniosa, paradisíaca e sobrenaturalmente operática «Lilly of the Valley», é o que testemunhamos em todo o seu esplendor - mas neste álbum há espaço para tudo e todos, e nada falta a este trabalho dos QUEEN. E se «Now I'm Here», de Brian May, é um tema mais ligeiro, mas não menos merecedor de descoberta, «In the Lap of the Gods» e sua não-continuação, na última faixa do álbum, «In the Lap of the Gods... Revisited» (porque entre ambas a semelhança não vai muito mais para além do título) mostram ser percursoras de outros temas memoráveis e inigualáveis do grupo, como «Bohemian Raphsody» e «We Are the Champions». A primeira é (mais) um devaneio majestoso, dramático, crescente e muito complexo, elaborado e labiríntico, e a segunda é nada mais nada menos que a entrada dos QUEEN para o reino dos Deuses e do poder que eles emanam. Incrível? Sim, mas entre elas há ainda algumas pérolas, maioritariamente curtas, que aumentam também esse lado muito pouco vulgar, como a melodia louca de «Stone Cold Crazy», a magnificência de «Dear Friends», o lado mais tosco e mais pop - mas não menos QUEEN - de «Misfire», a euforia fenomenal e a ainda maior bizarria de «Bring Back Leroy Brown», e por fim, a música de redenção «She Makes me (Stormtrooper in Stilettos), onde May nos conta a "experiência" de elevação aos Céus a que os quatro músicos foram "sujeitos", e que se reflecte, depois, em «...Revisited», com um poderoso e divino tema de encerramento.

«Sheer Heart Attack» é o disco que confirma os QUEEN como uma banda sem limites, um grupo que não tem nenhum ponto fraco ou alguma coisa que não saiba fazer ou reconstruir. Porque se dúvidas havia da genialidade da banda, o terceiro disco fez com que a maioria delas desaparecesse, neste compêndio dos anjos e demónios que povoam o imaginário surreal de Mercury, May, Taylor e Deacon. Os QUEEN dão assim os primeiros passos para a imortalidade, investigando tendências e radicalidades que os levariam a novos mundos em outros álbuns. Um dos discos mais insólitos e duradouros da banda, e que tem tudo lá dentro: o amor, a vida, a morte, a loucura e outras coisas mais, que combinadas como estão nestas 13 faixas, criam um disco inacreditável - e ainda, insuperável.

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As melhores faixas: entre tanta coisa boa, a escolha revela-se difícil. Mas destacam-se não só o grande single «Killer Queen», como também «Tenement Funster», «Flick of the Wrist» e «Lily of the Valley»... e todas as outras, claro.

Filmes em 60 segundos: Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn) [1949]


Filme “maldito” da carreira de Hitchcock (foi um fracasso de público e crítica, e ainda Hoje sofre de uma tremenda e injustíssima desvalorização), «Under Capricorn» é um dos títulos mais curiosos da sua filmografia: aposta nos planos fixos, como o anterior «Rope», e centra-se numa história de época para retratar um modo de vida e a tensão entre diversas facções da sociedade australiana do século XIX. O suspense pode não ser o ingrediente primordial deste romance intrincado e emocionalmente denso, mas o cineasta aposta todas as suas capacidades ao elevar toda a conjuntura a um outro nível. Um filme anti-Hitchcock (isto é, que não segue as características que tornaram este realizador um ícone da inovação), mas que não deixa, contudo, de ter o seu peculiar traço humorístico, tal como um conflito psicológico ausente de espectacularidades, mas igualmente intenso e preocupante. E que se contemplem também as maravilhosas prestações dos actores.

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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um Lance no Escuro e os musicais

A 11.ª edição de Um Lance no Escuro já está disponível em podcast. É o terceiro especial dedicado a bandas sonoras - e desta vez, proponho uma selecção improvável de musicais. Para ouvir onde e quando quiserem!

UM LANCE NO ESCURO 11

Locke [2013]


Tudo acontece dentro de um carro, a partir de vários telefonemas que acompanham o protagonista ao longo de uma viagem com destino secreto… e fatal. Locke pega numa pequena premissa e transforma-a numa reflexão sobre as interações humanas e os acidentes de percurso que acabam por destruir ou construir relações. E tem Tom Hardy em estado de graça.

É a história de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem que trabalhou afincadamente para conseguir a vida que sempre quis ter. Dedica-se sempre ao emprego, na área da construção civil, e à família que adora. Mas no dia anterior ao maior desafio da sua carreira profissional, Locke parte numa viagem de carro (cujo fim, à partida, desconhecemos), e que vai desencadear uma série de consequências, que se refletirão nas várias chamadas que ele recebe ao longo do percurso. Esses acontecimentos problemáticos irão colocar em risco tudo aquilo que conquistou.

E Locke é isto: passa-se inteiramente dentro do carro do protagonista (com alguns planos ocasionais que mostram a auto estrada onde está a viajar – numa interseção de planos que, infelizmente, se assemelha a um qualquer anúncio de automóveis), e nele, Ivan discute com os seus colegas e familiares, luta contra os demónios do passado (que ainda o perturbam no presente) e tenta arranjar uma solução impossível para reconciliar todos os laços que quebrou, e todos os contactos que destruiu. E pode parecer pouco, ou até pelo contrário, pretensioso: mas Locke funciona muito bem, graças a esta premissa. E quando acaba, percebemos que esta história, que tem uma continuidade moral e humana tão idêntica a tantas outras clássicas e modernas, só poderia ser filmada através deste esquema cénico e narrativo.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

“Hollywood, tens cá disto?”: A Culpa (1981)


O maestro, compositor e pianista António Victorino d’Almeida é também uma das figuras mais mediáticas da televisão portuguesa, tendo apresentado e conduzido diversos programas que se dedicaram à divulgação da cultura e, mais propriamente, da música erudita, em “aulas” que se tornaram num marco para gerações de espectadores. Mas o talento de Victorino d’Almeida espalha-se também noutras vertentes: escreve romances (o mais popular é o primeiro, Coca-Cola Killer) e ainda deu um saltinho para o Cinema, realizando o seu próprio filme: A Culpa, uma das sátiras mais divertidas do Cinema Português – mas infelizmente, uma das menos vistas e divulgadas (nunca houve uma edição para home video, e raramente foi exibida na televisão), apesar de ter sido uma fita premiada (recebeu grandes elogios no Festival Iberoamericano do cinema de Huelva e ainda passou pela Berlinale).

Um filme raro em análise numa nova edição da rubrica «Hollywood, tens cá disto?», no Espalha Factos!

Um ano de Cinema(s) no Nimas


O ciclo emblemático dos Verões do Cinema King está de volta, mas no Nimas: UM ANO DE CINEMA(S) em julho, com vários dos grandes filmes do ano em sessões a 4€. Leiam tudo no Espalha Factos!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sementes de Violência (Blackboard Jungle) [1955]


Yeah, I've been beaten up, but I'm not beaten. I'm not beaten, and I'm not quittin'.


Para compreendermos a delinquência juvenil dos nossos dias, talvez não seja a melhor solução apoiarmo-nos em opiniões alheias, de indivíduos considerados especialistas académicos reconceituados da matéria, de pessoas saudosistas que constantemente dizem que "no seu tempo é que era bom", ou de qualquer outra fonte de informações que a comunicação social expreme até ao tutano, para ajudar a encher chouriços nas infindáveis coberturas que levam a cabo quando algum acontecimento menos agradável sobre a temática surge na actualidade noticiosa. Nenhuma dessas "fontes" será útil para conseguirmos (ou tentarmos) perceber onde é que se encontra a raiz desta rebeldia, que parece tão recente e nada comparável ao que fizeram outras gerações na mesma idade. Talvez o Cinema seja a resposta para todos estes problemas - ou pelo menos, com ele entendemos que, infelizmente, este tipo de delinquência não é de agora, porque acaba por se tratar da repetição constante de um ciclo de irracionalidade, maus comportamentos e ideias levadas ao ponto mais extremo dos extremos.


Os clássicos podem-nos ajudar: podem existir os rebeldes sem causa de Nicholas Ray em «Fúria de Viver» (que generalizou toda uma maneira juvenil de se olhar para o mundo), mas também há espaço para a perspectiva menos floreada, e mais realista e cruel, de «Blackboard Jungle», de Richard Brooks. A história não heroiciza os alunos, pelo contrário, mas o Professor (o "adulto" que era, na fita de Ray, tal como todos os outros, uma ameaça à liberdade dos jovens, em luta contra o sistema formalizado ao qual não queriam pertencer), num incrível e convincente volte-face da mesma situação social, que ganha outros contornos mais sombrios e, sem dúvida, perturbantes - o que está em causa aqui não é a rebeldia libertária à la James Dean, mas um outro tipo de rebeldia - em que a rapaziada apenas se intitula de "rebelde" porque tenta destruir tudo o que está à sua volta, através da força que um grupo (cobarde) de indivíduos tem contra um só. Eles também não têm causa, mas não têm qualquer intenção de se distanciar do futuro social que os espera. É a lógica das ditaduras, é a lógica dos totalitarismos orwellianos... e é, também, a lógica do grupo de miúdos difíceis e divididos, que se opõem constantemente ao Professor sem terem grandes razões para isso (já que Richard Dadlier tenta mudar o esquema das suas aulas para se aproximar o mais possível dos seus estudantes complicados) e lhe pregam mil e uma partidas (umas mais malvadas do que outras) para o tentarem derrubar, numa estratégia que, até então, sempre dera resultado com outras "cobaias". Mas Dadier não resiste tão facilmente - e o Cinema adora este tipo de protagonistas, os que se levantam contra a maioria. Mas o caso deste educador é igualmente diferente: ele está a lutar pela boa moral dos seus alunos, sem querer impor-lhes barreiras de pensamento.


Contudo, a barreira física é mais forte do que qualquer intenção filosófica, e o culminar da tensão de «Blackboard Jungle» consegue ser, para além de uma das cenas mais impressionantes do mais urbano classicismo norte-americano, um retrato ímpar que não se apagou com o tempo e que permanece assustadoramente autêntico - porque os grupos estudantis continuam a dominar a cultura juvenil (e as particularidades e talentos de cada um continuam como segredos bem guardados, porque podem destruir a força do grupo que os acolheu), porque o Medo continua a regular a sociedade, porque esta é uma lógica de ideias que passa de geração em geração. Richard Brooks não põe falinhas mansas na sua história, e Glenn Ford ainda menos, com a sua interpretação do persistente e implacável professor, homem pertencente ao sistema que sabe ser rebelde... mas pelas melhores razões. Se o objectivo do filme era, há quase sessenta anos, o de consciencializar as massas, através desta história (pouco) ficcional, para um problema real, ambientando-o na cultura dos primórdios do rock n' roll (que supostamente deveria trazer uma renovação das mentalidades) e do sucesso massificado da canção (a primeira do género a abrir um filme, ao que se sabe) que imortalizou a voz de Bill Haley. Hoje até parece mais chocante, porque se tornou mais facilmente concretizável nas vias urbanas contemporâneas, e no choque de culturas e "gangues" que encontramos em qualquer ambiente escolar menos perfeitinho e calmo. Na actualidade, ainda dá menos trabalho derrubar uma pessoa pelos seus pontos mais fracos, como tentam alguns dos miúdos adversários ao professor (enquanto outros, como o que é interpretado pelo fenomenal Sidney Poitier, começam a pouco e pouco a aproximar-se). E vendo isto numa perspectiva mais abrangente, ainda mais fácil é aplicar isto às massas e à vida política que as controla. Não deveríamos estar preocupados?


Os líderes continuam a liderar, erradamente, os seus discípulos ignorantes, numa rebeldia apenas aparentemente rebelde, que nada acrescenta à sociedade: apenas aumenta o grau de destruição em que esta se encontra. E a vitória da recriação social e cinematográfica de Brooks assenta nisso mesmo: por ser autêntica e nada poética, ou fácil, ou agradável. Assistimos à ruína de uma figura que deveria simbolizar a (boa) autoridade na sala de aula, mas ela acaba por ser comida pelos seus próprios métodos, enquanto os núcleos e submundos da juventude comunicam e preparam tantas e diversas façanhas para o combater. Mas esses miúdos só se protegem a si próprios e fecham-se do resto do mundo - mundo esse que, com o passar do tempo, acabará por devorá-los e fazer com que o ciclo formal continue, aproveitando essas "sementes" violentas que estes jovens carregam consigo. E não deixa de ser irónico que, mais de uma dezena de anos depois, Sidney Poitier faria o papel de professor numa história semelhante, em «To Sir With Love», trocando assim a posição de aluno influente e persuasivo pelo do educador submetido às ideias desconcertantes dos seus alunos. Mas «Blackboard Jungle» é um testemunho de uma época de mudança na América, mas também dos rastos do passado que continuam a ser assumidos como "novidade" no presente - e apesar disto não ser verdade, como a delinquência ganha cada vez mais força, face a uma fraca e frágil resistência por parte das várias entidades governamentais e institucionais, cada novo drama estudantil que faz correr rios de tinta dá uma nova dimensão a esta problemática. E o filme ajuda-nos a entender como é urgente corrigi-lo. Um grandioso exemplo do Cinema urbano e social feito pelos EUA, e uma lição de Técnica, Arte e Representação.

* * * * 1/2

sábado, 21 de junho de 2014

Os discos dos QUEEN: QUEEN II [1974]


O maior mal de «QUEEN II» encontra-se na forma como foi relegado ao esquecimento e à subvalorização. Porque não é um mau álbum, muito pelo contrário - e o culto que a ele se tem prestado desde o seu lançamento comprova isso mesmo. A crítica foi menos simpática para com este álbum, mas o tempo veio trazer-lhe justiça. E mesmo que não possua a frescura do trabalho de estreia (e aquele espírito e entusiasmo equivalente ao dos caloiros que acabam de chegar ao mundo universitário), em «QUEEN II» conseguimos ouvir alguns dos temas mais inspiradores da banda, e que podem alterar totalmente a imagem generalizada  e massificada que se criou à volta do quarteto. 1974 foi um ano dedicado à criatividade e às experiências (depois deste disco, que com a música «Seven Seas of Rhye», ao ser exibida no programa «Top of the Pops», possibilitou um arranque maior para a fama da banda, que acabaria por dar origem ao fervilhar explosivo de ideias do outro álbum que fizeram nesse ano, «Sheer Heart Attack»), algumas mais bem conseguidas do que outras, que os QUEEN tentaram levar, incansavelmente, a bom porto. E em «QUEEN II», escutamos muitos grandes experimentalismos musicais, e também outros que não correram tão bem - mas que não deixam, por isso, de ser merecedores de atenção.

A capa de «QUEEN II» tem uma das imagens mais icónicas do grupo (que seria utilizada, depois, noutras ocasiões, como no teledisco da fantástica «Bohemian Raphsody»), e o disco revela-se também como uma obra conceptual: em vez do tradicional Lado A e B, o vinil foi dividido entre Lado Branco e Lado Negro. O primeiro tem músicas mais emocionais, e o segundo joga tudo nas extravagâncias mais ou menos exequíveis da criatividade fantasiosa de Mercury - e que, em certos momentos, revela ser muito sombria. O Negro parece ser o lado mais conseguido (ao nível do alinhamento e da continuidade entre faixas), mas todo o disco é digno de nota: começando pela entrada tenebrosa e macabra de «Procession», tema puramente instrumental e (curiosamente) acidentado, podemos ter já como ponto de partida aquilo que nos espera ao longo de todo o álbum: um trabalho com altos e baixos, onde os primeiros são mais presentes (felizmente). A música seguinte, «Father to Son», mais bonita e contida, mas também rebelde, reflecte a mistura de tendências (varia muito entre géneros, nunca consegue ser apenas uma "coisa"). «White Queen (as it began)» é uma das duas grandes pérolas do lado branco do álbum, juntamente com «The Loser in the End» (um tema contagiante, com rock puro e duro, cantado por Roger Taylor). Uma música constantemente em reinvenção, introspectiva, profunda, e uma das peças fundamentais do puzzle imaginário do disco, e da extravagância peculiar da banda. Já «Some Day, One Day», de Brian May, que se encontra entre estas duas músicas, não é mais do que uma espécie de sequela de «White Queen», mas perde-se no esquecimento do ouvinte.

O "black side" começa com «The Ogre Battle», uma música demasiado bizarra para ser apreciada - porque dentro das extravagâncias dos QUEEN também há limites para o suportável. E com «Funny How Love Is», estas são mais duas músicas menos apreciáveis da obra. Mas para compensar, há «The Fairy Feller's Master», que revela os sonhos de Freddie Mercury em todo o seu esplendor, numa composição completamente lunática; ouvimos ainda a pequena-grande pérola «Nevermore»... mas a outra canção maior desde lado, e até de todo o disco, acaba por ser «The March of the Black Queen», uma ópera sumptuosa que se sobrepõe a todas as maiores excentricidades do corpo artístico do disco, e mesmo àquele que foi o único "hit" do álbum, responsável por abrir um novo caminho para os QUEEN: a agradável e orelhuda canção «Seven Seas of Rhye», versão final da música cujo primeiro demo, mais curto e unicamente instrumental, encerrou o primeiro disco. 

«QUEEN II» não é como o seu antecessor, e tal como as boas sequelas, consegue distanciar-se em termos de qualidade e sai vencedora das conquistas criativas que tentou alcançar. Contudo, talvez seja por isso que continuam as falhas: ao quererem demarcar-se daquilo que gravaram anteriormente, os QUEEN acabam por cair nos mesmos erros que constroem mais um álbum imperfeito, mas cheio de bons momentos musicais. Disco experimental, frenético e desconcertante, com mais rock e surrealismo que o disco de estreia, as críticas maioritariamente negativas atribuídas na época pela elite especializada não influenciaram o pequeno culto que a banda estava a criar, a pouco e pouco, e com o passar dos anos, o álbum foi reavaliado e hoje é considerado uma pérola. E mesmo com todos os defeitos, tem sonoridades inesquecíveis e multifacetadas. Deixa menos para dizer, este segundo trabalho da banda, mas mereceu mesmo ser desenterrado do injusto esquecimento que lhe foi conferido. Continuava assim a busca atribulada dos QUEEN por um lugar de topo na cena musical dos anos 70. Voos e sucessos mais altos seguir-se-iam em breve, mas aqui estão também patentes as ideias primordiais de muitos dos grandes êxitos que marcariam álbuns e épocas criativas posteriores. 

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As melhores faixas: o mistério musical patente em «The March of the Black Queen», os delírios de «White Queen (as it began)», o poder inesperado de «The Loser in the End»... e inevitavelmente, «Seven Seas of Rhye».

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Tom na Quinta (Tom a la Ferme) [2013]


Xavier Dolan regressa com um filme onde mostra aquilo que vale, começando a ir mais além da imagem hipster que lhe é vulgarmente associada: Tom na Quinta é um thriller revelador da criatividade de um cineasta inovador. E chega esta semana a Portugal.

É um realizador em crescimento, e parece-nos que está, agora, a tentar demarcar-se um pouco do lado puramente hipster que o tornou um ídolo de uma nova geração de cinéfilos, impondo-se também como um sério autor de cinema que tem boas histórias para contar. Sim, continua a permitir-se incluir referências próprias – mas nada disso tenta sobrepôr-se, como estilo, a todo o conteúdo da obra, que prima pela inteligência da narrativa e da câmara, e pela aliciante e trepidante evolução das personagens e da psicologia de cada uma delas.

Tem interpretações grandiosas e impecáveis, e revela os segredos de uma pequena comunidade e de uma forma (ainda) preconceituosa de se olhar o mundo – segredos esses cujas consequências podem ser mais devastadoras e destruidoras que tudo aquilo que possamos imaginar.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um Lance no Escuro e... Oceano Pacífico?

A décima edição de Um Lance no Escuro já está disponível em podcast. O convidado foi João Chaves, e não estranhem: o programa é o mesmo, mas a introdução é melhor que todas as outras.

UM LANCE NO ESCURO 10

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Homem Sombra (The Thin Man) [1934]


- I'm a hero. I was shot twice in the Tribune.
- I read where you were shot 5 times in the tabloids. 
- It's not true. He didn't come anywhere near my tabloids.

A fórmula já não era nova na época, nem mesmo original: um ex-detective que volta à carga ao investigar, por puro e simples "gozo", um caso relacionado com o seu passado e as pessoas que conheceu durante a sua carreira. Mas «The Thin Man» pega nesse ponto de partida cliché para criar as suas particularidades (que a tornaram numa comédia única e, ainda hoje, aclamadíssima, oitenta anos depois do seu lançamento), e é aí mesmo onde acaba por vencer. Milhentas histórias policiais e crimes obsoletos podemos encontrar em muito filme e história literária, mas poucas conseguem ganhar o estatuto de clássico americano e, mais do que isso, um clássico do género cómico: talvez se não lhes faltasse uma dupla excepcional de protagonistas (cuja química interpretativa é fabulosa e hilariante), uma construção narrativa recheada de singulares apontamentos humorísticos, e um fox-terrier adorável, muitas dessas obras teriam resistido ao tempo, como conseguiu esta atribulada e incrível aventura de polícias e ladrões, que originou um dos mais duradouros blockbusters e (consequentemente) franchises da era clássica de Hollywood, já que este casal de detectives à moda antiga gerou diversas sequelas, e só falta o remake (que infelizmente é um projecto que está a ser mesmo pensado).


Não é por acaso, aliás, que o American Film Institute incluiu «The Thin Man» entre a sua lista das cem melhores comédias do Cinema Americano. O filme sobressai por possuir um charme muito próprio, conseguindo partir, com sucesso, para além do establishment do Cinema industrial do seu tempo. É, também, a consagração da dupla William Powell e Myrna Loy, que contracenaram em mais de uma dúzia de fitas (a primeira vez que se encontraram no ecrã foi em «Manhattan Melodrama»), e que aqui se encontram no auge: além de ser um dos casais mais engraçados da História do Cinema, os dois detectives são, também, a força maior de um filme que prima, ainda, pela beleza, coerência e timing dos seus diálogos. Porque enquanto a realização é bastante académica e básica,  mas fluidamente desenvolvida, acompanhamos as trepidantes desventuras dos dois descobridores e do seu (inteligente e astuto) cão, que tem tanta piada como os donos, no meio da grande formalidade visual e construtiva em que se baseia o filme: as etapas da investigação são previsíveis, tal como os desenlaces românticos da trama. Mas é nesses momentos óbvios que surge o menos óbvio, fruto das interacções entre personagens - o que faz com que «The Thin Man» seja mesmo uma película divertidíssima.


As pequenas "obscenidades" do filme, que tentam lutar contra o apertado sistema de censura em vigor na obsessiva Hollywood de então (não deixa de ser curioso conjugar as pequenas situações irónicas e sarcásticas que envolvem o lado íntimo das personagens com a forma como as mesmas lidam com as proibições instituídas pela indústria e pelo estúdio que financiou a produção), são também uma delícia - porque «The Thin Man» é ainda uma jóia dourada da comédia e, ao mesmo tempo, um tesouro histórico sobre a sociedade americana e a sua cultura. São poucas as obras que conseguem receber ambas as distinções, porque há muitos filmes ditos "importantes" (de um modo educacional e institucional, até) que podem não dizer alguma coisa aos nossos gostos. E esta obra faz ambas as coisas: diverte-nos e aguça a nossa curiosidade sobre o Cinema daquele tempo, e as tendências que os estúdios tentavam continuar ou inverter (com novos projectos e ideias). «The Thin Man» não se trata de um caso de inovação da História do Cinema, mas é um exemplo do impacto da ilusão do ecrã na sociedade do seu tempo - e do poder gigantesco do star system na mente dos consumidores (o primeiro filme estabeleceu uma "marca de confiança" que levou a que todas as outras sequelas fossem também um enorme êxito). Se o tipo de história é vulgar, totalmente invulgar, na actualidade, é conseguir reciclar na íntegra uma destas convenções e torná-la completamente nova, como o conseguiram fazer em 1934. Hoje, os estúdios estão mais centrados no conceito de reutilizar e deitar fora, mesmo no que diz respeito aos símbolos do seu Cinema que são exemplos da originalidade criada a partir da não-originalidade. E só o facto de quererem refazer «The Thin Man» (mesmo que, de momento, a produção esteja em stand-by) mostra como isto é verdade (não seria mais proveitoso pegar, como remake, na mesma convenção e criar novas situações a partir dela? - um exemplo recente de sucesso disso mesmo é a enorme diferença que existe entre a genial versão televisiva de «Fargo» com o filme original dos Coen). Mas felizmente, o original permanecerá para proporcionar mais gargalhadas e genial entretenimento a todos aqueles que assim o desejarem.

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segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Recordar: Claude Rains


Foi o Homem Invisível e o inesquecível Capitão Renault de «Casablanca». Mas a carreira do brilhante Claude Rains não se resume apenas a estes dois papéis: há todo um mundo de personagens e talentos que merece ser descoberto, e que é analisado ao pormenor em mais uma edição da rubrica «A Recordar». 

O texto escrito pela minha pessoa, que saiu ontem, está disponível no Espalha Factos.

sábado, 14 de junho de 2014

Os discos dos QUEEN: QUEEN [1973]


O álbum de estreia dos QUEEN pode ser descrito de mil e uma maneiras, mas a palavra "típico" é a única que não deve ser mesmo utilizada. É uma nova banda a marcar o seu território, definindo-se com uma multiplicidade de talentos e marcas estilísticas que a acompanhariam nos trabalhos vindouros. De facto, apesar de reflectir as tendências musicais da época do seu lançamento (encontramos algumas marcas de heavy metal e de rock progressivo - este segundo estilo seria uma constante em toda a discografia do grupo, mesmo em alguns dos seus álbuns mais "pop", que se recorde o caso de «The Works», 1984), é totalmente um álbum QUEEN, repleto das suas peculiaridades e pérolas inconfundíveis. O álbum segue em crescendo, surpreendenda a cada música (pelas mais diversas razões), não dando ao ouvinte o que ele está à espera - e se isto, na atualidade, se trata da maior das verdades, imagine-se o efeito que teve naqueles que, em 1973, descobriram esta sonoridade. Gerou falatório, foi um grande êxito de vendas, tanto no Reino Unido como nos EUA, e não poderia ter sido um melhor pontapé de saída para o grupo. E que ninguém se engane - aqui não há mesmo sintetizadores!

Começa da forma mais entusiasmante possível, graças a «Keep Yourself Alive», que se tornou o grande single a sair deste primeiro álbum. É a melhor maneira de os desentendidos e os curiosos perceberem quem são, afinal, os QUEEN. Foi a forma da banda afirmar-se e dar um cheirinho daquilo que poderia ser capaz. Com este tema de abertura o grupo mostra aquilo que está disposto a proporcionar aos seus ouvintes, dando a entender que poderão esperar tudo e mais alguma coisa das faixas que se seguirão. Mas lá no fundo, e apesar da diversidade de estilos e ideias que o disco carrega,  as grandes guitarradas tão presentes na maioria das faixas acabam por nos fazer perceber que, nesta fase embrionária da banda, os seus elementos queriam, nesta sua salada de frutas extremamente rica e variada, que o rock não deixasse nunca (mesmo com todas as salganhadas possíveis e imagináveis) de ser o elemento principal.

E é isso que presenciamos, à medida que acompanhamos a evolução mais ou menos equilibrada do álbum, entre canções que foram compostas antes ou depois da formação dos QUEEN (o tema que se segue ao primeiro é «Doing All Right», que Brian May escreveu, juntamente com Tim Staffell, quando ainda estavam formados os Smile e Freddie Mercury ainda não tinha dominado a conjuntura). Mostrando um espírito revolucionário e irreverentemente "barulhento" em certas ocasiões, que causam os melhores momentos do álbum (como é o caso da excepcional, mas esquecida, «Great King Rat»), «QUEEN» é o início da evolução estilística do grupo e da criatividade muito própria que os caracteriza, muito assente na reinvenção de géneros musicais e no poder assumidamente épico que assumem as canções mais singulares, criando "mixes" de sons e de ideias que acabariam, também, por estar na génese de pérolas posteriores, como «Bohemian Rapshody» e o caos interplanetário de «Innuendo». Essa criatividade QUEEN é também marcada pelos sonhos dos seus membros, que influenciam os "disparates" (no melhor sentido do termo) de muitas das suas composições (ouça-se com atenção a letra algo anárquica e fantasiosa que Freddie Mercury escreveu para «My Fairy King»), ou a consciência social e filosófica de tantas outras (exemplo disso é «The Night Comes Down», uma canção com algum interesse, que possui uma letra melancólica e até, em parte, existencialista, de Brian May, cuja sonoridade me faz recordar os ambientes dos melhores "films-noir") e ainda, o lado desconcertante e, por vezes, chocante (para a época) da maior parte delas («Jesus» é mesmo sobre Cristo e o impacto da personalidade numa sociedade que não o quis compreender)..

«QUEEN» é o lado irrequieto e quase "hiperactivo" de um grupo que, para a época, se revelou bastante promissor - mesmo que nem todas as críticas ao álbum tenham sido das mais favoráveis, acabaram por conseguir criar um público fiel e seguidor que não pararia de crescer a cada novo álbum lançado. Mas ainda havia algumas pontas soltas por acertar, e sentimos isso quando escutamos, na contemporaneidade, o álbum na íntegra: acompanhando uma mão cheia de grandes músicas estão outras que, parece, não servem para mais nada do que encher espaço (a versão de «Seven Seas of Rhye» que encerra o álbum não é mais do que uma versão instrumental e não concluída daquele que viria a ser um dos singles do álbum seguinte). Mas é inevitável, os QUEEN conseguiram o que pretendiam: ao terminar o álbum ficamos com vontade de ouvir mais, e temos pena que tudo tenha acabado. E para todos aqueles que se entusiasmaram com este bom disco de estreia (mas que tem, inevitavelmente, as suas falhas), os QUEEN acabariam por compensar as falhas do seu primogénito nos avanços que concretizaram nas obras posteriores. Porque poucas são as bandas que acabam por arrancar com um poder tão marcante e demolidor como este quarteto. Eles conseguiram marcar o seu território... e a partir daqui, a fama e a aclamação nunca mais cessariam.

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As melhores faixas: A energia de «Keep Yourself Alive» e a potência aparentemente desprezível de «Great King Rat».

Filmes em 60 segundos: Joe [2013]


Pode ser um título que espelha a moda de pseudo-independência que começa a dominar o circuito americano, (aquela espécie de fingimento que certos filmes utilizam para tentarem parecer diferentes dos demais - o conceito de “indie” não é algo que podemos associar à realização televisiva, descontrolada e despreocupada de David Gordon Green), mas tem muito que se lhe diga: para além do regresso triunfante de Nicolas Cage (que acerta quando não está em modo “over the top”, tal como sucede aqui), «Joe» centra-se nos dois grandes protagonistas anti-heróicos da narrativa (politicamente incorrecta), admiravelmente compostos pelas gloriosas interpretações do elenco (Tye Sheridan tem um grande futuro pela frente) e na singular gestão que faz do drama e da tensão sempre presentes na atribulada história. É uma fita que mostra o crime e a irracionalidade, não se cansando de dissecar a busca pela redenção no lado mais duro e selvagem da América.

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Difamação (Notorious) [1946]


A man doesn't tell a woman what to do. She tells herself.

O que é que atribui a «Notorious» um valor superior que não conseguimos igualar em nenhum outro filme de Alfred Hitchcock? Ou por outras palavras: o que é que tem este Hitchcock que os outros Hitchcocks não têm? E esta dúvida poderá ser ainda mais vaga se soubermos que, nesta sólida história de amor triádica, é impossível encontrarmos o suspense sufocante de «Vertigo» ou de «Shadow of a Doubt», ou as grandes reviravoltas envolvidas em mistério e aventura de «North bu Northwest» e «Strangers on a Train». Ao contrário destes e doutros títulos hitchcockianos, «Notorious» será, talvez, um dos filmes mais "calmos" e contidos do realizador... aparentemente, claro. Não foi por acaso que esta se tornou numa das obras mais famosas do Mestre do Suspense (que aqui trabalha esse mesmo suspense através de um caminho mais peculiar). Além da excepcional fotografia (e a utilização que a mesma faz do espaço e dos actores - que se vejam atentamente as formidáveis sombras e a maneira como a luz é aproveitada), Hitchcock conseguiu, com esta fita, um outro bónus: o de conseguir reunir três enormes actores e desmascarar as suas "personas" cinematográficas através de uma história invulgar, que utiliza com grande audacidade os elementos básicos do romance hollywoodesco para lhes proporcionar uma nova vida e contornar as vulgaridades da época em que foi feito. O romance de espionagem e de convulsões emocionais assenta como uma luva a Cary Grant (menos cómico e mais introspectivo, e por isso, mais impressionante), Ingrid Bergman (que toma uma postura menos ingénua e mais feroz e trágica) e Claude Rains (o eterno secundário de «Casablanca» e «Mr. Smith Goes to Washington» que revela mais uma de várias facetas interpretativas), e em tudo, apesar de não parecer, podemos ver como Hitchcock quis inovar - aqui, sem precisar do efeito de choque que mais o caracterizou nos outros filmes citados, por exemplo. Não só as "performances" como os efeitos e os geniais planos de câmara deitam o espectador para uma incerteza constante, numa construção narrativa e cinematográfica que foi fruto da sua época. Marca uma nova fase na evolução criativa de Hitchcock, e foi filmado e realizado no tempo e lugar certos.


O filme centra-se na tensão amorosa que rodeia os dois protagonistas, nunca perdendo a ironia típica das melhores obras de Hitchcock. Mas o realizador nunca foi tão negro e, ao mesmo tempo, tão suave como em «Notorious»: a sua realização é fatalista, como fatal acaba por ser o destino das 3 personagens, em que Grant e Rains entram num jogo de ilusões amorosas e numa disputa pelo amor da mulher interpretada por Ingrid Bergman. E a escada, claro está, é também uma das figuras centrais da história, pelas melhores e piores razões. Pode parecer mais quieto e introvertido, mas no final, acaba por ser tão ou mais brutal com os pequenos movimentos que executa (através da elegante manipulação da câmara) do que na maioria dos seus outros grandes filmes. Talvez ele aqui estivesse mais atento a todo e qualquer pormenor, e conseguiu aproveitar todas as coisas que fazem desta uma obra singular na produção clássica norte americana - e mesmo, também, um filme atípico entre as produções da RKO. É uma lição de Cinema, de narrativa e de técnica, e uma daquelas provas maiores de que esta é uma Arte completamente distinta das outras canonicamente consideradas como tal. Porque se trata de uma obra prima que eleva as vidas da ficção a um novo patamar de maravilhamento: Hitchcock criou aqui verdadeira poesia.


Com sarcasmo, mistério e formidáveis marcas de film-noir, «Notorious» pode ser um filme menos frenético e movimentado de Alfred Hitchcock, mas não é por isso que deixa de ser uma das suas obras mais fascinantes, perturbadoras e nada convencionais, que consegue chegar ao nível que poucos filmes, os melhores, conseguem. É uma obra que inspira e expira autêntico Cinema, contrariando as ideias feitas facilmente associadas ao Mestre do macabro, da mentira, da desconstrução visual e sensorial e do inesperado que está presente em cada esquina. «Notorious» é a queda de uma mulher, a paixão de um homem e a decadência social e emocional de outro. Um filme que nos prende desde o primeiro instante e que só nos deixa escapar no último frame de todos. No desfecho, ficamos entusiasmados: só os grandes realizadores sabem dar a volta a uma pequena história de amor e política que poderia ser apenas "mais uma" entre o manancial industrial de Hollywood. Mas não, Hitchcock soube dar a volta, tal como os seus fantásticos e inesquecíveis actores. Um grande filme, maior do que a vida e maior do que as emoções.

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sábado, 7 de junho de 2014

Nova rubrica - Os discos dos QUEEN


Não se questiona o poder da banda de John Deacon, Roger Taylor, Brian May e Freddie Mercury, no que diz respeito à criação de grandes êxitos comerciais, que se diversificavam entre as mais profundas baladas românticas até aos mais potentes épicos de rock, com alguma ópera mas "sem sintetizadores" (pelo menos, durante alguns anos). Em 1973, os QUEEN surgiam com um álbum enigmático, que se tornou rapidamente num enorme sucesso de vendas, e que colocou no ouvido de todos os melómanos «Killer Queen» e «Seven Seas of Rhye». O culto continuou, e a cada novo passo, o quarteto não deixavade surpreender, partindo para caminhos e estilos musicais sempre alternativos e desconcertantes. Mesmo na fase mais pop do grupo (claramente a década de 80) conseguimos ver como eles souberam dar o seu toque e a sua extravagância muito particular a uma cultura "mainstream" que poderia ficar-se apenas pela vulgaridade das músicas descartáveis de "one hit wonders" e de certas vagas celebérrimas da música da época. Porque enquanto os anos 70, 80 e 90 continuam a ser designados como tal, os QUEEN não perderam o "sense of wonder" de sempre e poderão ser associados a qualquer ano, década ou século, já que álbuns como «A Night at the Opera» e «Innuendo» continuam sempre a ser surpreendentes e inspiradores.

Eis então, o que eu quero dizer com tudo isto: sou um grande fã da banda, mesmo que isso implique que certas pessoas me comecem a julgar com outros olhos. E nas últimas semanas, voltei a escutar várias canções da banda com uma enorme regularidade (quase obsessiva). Mas - e tal como os outros grandes conjuntos musicais - os QUEEN não podem ser limitados aos êxitos, por muito bons que sejam - e que acabaram por criar aquela imagem de falsa "piroseira" que muitos ainda, com grande persistência, ainda gostam de associar a este conjunto. Há pérolas escondidas para descobrir, há momentos bizarros que merecem ser escutados, há letras geniais que merecem ser compreendidas com um nível de atenção superior.  

O que me proponho fazer, no intuito de responder a essas intenções, é re-ouvir, na íntegra, os discos de originais dos QUEEN e fazer análises mais ou menos extensas sobre os mesmos. Muitas das canções do grupo funcionam muito bem de forma isolada, mas em certos casos, como o da «Opera», tudo soa de maneira diferente se o álbum for escutado do princípio ao fim, sem saltos de "tracks" ou paragens aleatórias. Estas análises serão livres, seguindo um estilo parecido com o que uso para falar de filmes aqui no blog, sendo que, sobre alguns discos, terei mais coisas a dizer do que doutros (e não serão propriamente os grandes álbuns que têm mais para contar...). Farei de crítico sem qualquer tipo de pretensão para tal (como acontece nas pseudo-coisas sobre Cinema que vou escrevendo de quando em vez), dissecando as canções e procurando ir à raiz dos grandes temas da banda - e que não se encontram, necessariamente, entre os maiores hits que toda a gente já ouviu até à exaustão. Uma boa parte está lá... mas há muito mais para descobrir. E essa descoberta poderá proporcionar uma nova visão mais alargada do poder criativo dos quatro elementos deste conjunto. Eu espero que isso possa acontecer.Esta é mesmo uma daqueles bandas que vale a pena conhecer a fundo - e não pensem que, como fã incondicional, que admiro tudo na discografia dos quatro extravagantes. Vou avaliar cada álbum, com as estrelinhas também das críticas de Cinema, e assinalar aquilo que gosto mais e/ou desgosto mais em cada um dos dezasseis títulos. Mas isto não pretende ser uma análise formal aos discos: irei ser o mais subjectivo que puder. Ou pelo menos, o mais suportável possível.

Assim, nesta rubrica semanal, que terá início já no próximo sábado, dia 14 de junho, irei analisar, ao ritmo de um por semana, as músicas, as curiosidades e as raridades de todos os quinze álbuns de estúdio lançados pelos QUEEN, desde a estreia de 1973 até «Made in Heaven», álbum de 95 lançado sem Freddie Mercury. Obviamente, não se falará aqui da fase Paul Rodgers ou das novas andanças de May e Taylor com o vocalista Adam Lambert - não pretendo ferir os sentimentos dos fãs, nem os meus. Apesar de eu não acreditar muito que o tão aguardado álbum «Queen Forever» seja uma maravilha (que irá conter gravações nunca antes ouvidas dos QUEEN ainda com Mercury - ou seja, poderá ser uma espécie de «Made in Heaven» parte II), o mesmo poderá ser incluído nesta rubrica se, antes do encerramento da mesma, já tiver sido finalmente lançado. Não farei distinções ou elitismos: respeito todos os géneros musicais e, na minha sincera opinião, os QUEEN fizeram experiências fascinantes nos vários estilos que impuseram ao longo do seu currículo. 

Para já, fica a lista dos 15 discos dos QUEEN, sobre os quais poderão ficar a conhecer a opinião deste rapaz. E aproveitem para reencontrarem-se com estas obras. Porque em «The Works», por exemplo, há «Radio Ga Ga» e «I Want to Break Free», mas ainda aparecem «Keep Passing the Open Windows» e «Is This the World We Created...?». Espero que gostem desta viagem musical e cultural. Eu cá estarei todas as semanas para vos receber!

QUEEN [1973]
QUEEN II [1974]
SHEER HEART ATTACK [1974]
A NIGHT AT THE OPERA [1975]
A DAY AT THE RACES [1976]
NEWS OF THE WORLD [1977]
JAZZ [1978]
THE GAME [1980]
FLASH GORDON [1980]
HOT SPACE [1982]
THE WORKS [1984]
A KIND OF MAGIC [1986]
THE MIRACLE [1989]
INNUENDO [1991]
MADE IN HEAVEN [1995]

Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas (A Million Ways to Die in the West) [2014]


Mil e Uma Maneiras de Bater as Botas: quando Family Guy encontra o velho Oeste e o confronta num duelo pacífico, onde a provocação da maior gargalhada é o prémio que está em jogo. Talvez seja a forma mais sucinta, e contudo, mais apropriada, para se resumir o espírito da nova comédia de Seth MacFarlane, que sucede o grande êxito de bilheteira Ted (cuja sequela está já em preparação). O filme parodia os westerns e a mitologia desta lendária época da História dos Estados Unidos da América, pegando em elementos que tentam satirizar aquilo que o lado heróico dos títulos do género tenta “esconder”: as condições de vida degradantes e deprimentes daquele tempo e o atraso que marca todo o sistema de “Lei do Mais Forte”, que caracteriza tão bem esta etapa evolutiva do país. 

É uma homenagem ingénua e despretensiosa ao western. Não é este o objetivo da história de Seth MacFarlane, mas é inevitável que nele encontremos algumas referências carinhosas aos grandes filmes do género que povoam o imaginário da Hollywood clássica… e que marcaram o Cinema. Muitos críticos tentarão criticar a obra pela falta de “rigor” dessa homenagem e pelas supostas obrigações que deveria cumprir (se desempenhasse esse papel de tributo), mas temos de colocar os pontos nos is: o comediante só quer parodiar, de forma pura e dura, os pequenos detalhes que apenas ele e a sua equipa conseguem descobrir e apurar com tanta criatividade e humor. E conseguem fazê-lo de forma hilariante. Pode não ser tão consistente como Balbúrdia no Oeste, o spoof de Mel Brooks aos filmes de “coboiada”. Mas tem os seus méritos próprios e proporciona grandes doses de divertimento – especialmente para todos aqueles que apreciarem o humor menos abrangente e “desagradável” de MacFarlane

Mas apesar também da grande convencionalidade da história, o filme vale mesmo pelas suas fabulosas personagens (e todos os símbolos que representam), pela versatilidade dos seus bons gags e pelas magníficas interpretações do elenco, onde encontramos vastíssimos e surpreendentes cameos de diversas personalidades, que ajudam a dar a volta a uma comédia que podia ser tão óbvia, seca e desinteressante como tantas outras. Noves fora, as coisas más ficam de lado com a quantidade de gargalhadas que proporcionam as boas.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Quase Gigolo (Fading Gigolo) [2013]


Esta é, provavelmente, uma das histórias de amor mais insólitas a estrear nos cinemas portugueses em 2014. Senão vejamos: há um gigolo improvável no centro da narrativa, os desejos que desperta em senhoras da alta sociedade nova iorquina e a paixão que se desenrola entre ele e a personagem mais contida e conservadora da trama. Será isto uma surpresa? Não, porque romances que rumam em busca da simplicidade têm sido, desde sempre, uma das ferramentas mais usadas e abusadas pelo Cinema – mas se a mesma história é contada outra vez, John Turturro sabe mostrar como aquilo que já conhecemos pode voltar a ter encanto. O seu próprio encanto. 

É um romance desajeitado – na diferença de preceitos e contradições religiosas que constrói barreiras entre Fioravante e a viúva judia – e uma crítica aguçada a um modo de vida americano muito marcado pelas raízes judaicas que marcam a História do País (e a própria História do Cinema – numerar todos os judeus influentes da indústria revela-se uma tarefa de difícil precisão e execução), e pelas regras que as mesmas impõem. Turturro explora a vida e os bairros onde cresceu e cria pontos de contacto também com o próprio Woody Allen e as reflexões teológicas que fez em vários dos seus grandes filmes (Ana e as Suas Irmãs e Crimes e Escapadelas são dois dos casos mais marcantes). E esta é uma das maneiras pelas quais a comédia aparentemente convencional mostra ser diferente, tal como na abordagem das relações humanas e das interações que criamos uns com os outros. 

Apesar da sua aparente simplicidade (termo que aqui deve ser considerado sinónimo do adjetivo “simplista”), Quase Gigolo não se trata de “mais um filme” a estrear em Portugal: tem o seu quê de curiosa a sua passagem pelo nosso país, e mesmo que vá dividir opiniões, vale a pena descobrir este conto erótico e filosófico que reflete as divergências da religião que influenciam o modo de vida as pessoas que a praticam (como de igual forma as que não são crentes) e os dogmas que ainda são muito presentes – neste caso em particular no judaísmo, fortemente sentido nas pequenas comunidades fechadas e conservadoras, que o filme retrata de uma maneira relevante.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Um Lance no Escuro e o Sentido da Vida de Miguel Gonçalves Mendes

Eis aqui a emissão de ontem de Um Lance no Escuro, transmitida na Rádio Autónoma. Agora, podem ouvir onde e quando quiserem este oitavo episódio do programa onde se juntam a cavaqueira e o Cinema. Uma conversa muito interessante e cultural com Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de «Autografia» e «José e Pilar». Eu sou suspeito, mas... vale mesmo a pena escutar!

UM LANCE NO ESCURO 08