domingo, 26 de outubro de 2014

O Grande Carnaval (Ace in the Hole) [1951]


I can handle big news and little news. And if there's no news, I'll go out and bite a dog.

Talvez o lado mais fascinante dos filmes de Billy Wilder (ou pelo menos, dos seus grandes filmes) seja a ambiguidade moral que confunde a psicologia dos seus protagonistas (e as reacções que o espectador retira dos seus actos e convicções). Essa ambiguidade é, por vezes, acompanhada por uma busca pela redenção - que em alguns casos mais específicos (e mais dramáticos), surge no último momento, não conseguindo, por isso, evitar a ocorrência do destino arrasador e fatalista que está planeado para essas figuras ficcionais (que tanto nos dizem muito mais sobre a vida que a realidade). O desejo de salvação pessoal, tal como o "pôr os pés na terra" e a desilusão do fim dos sonhos e da percepção que as personagens têm daquilo que fizeram (e que provocou - e provocará - uma série de consequências que se desencadeiam ao ritmo de uma bola de neve a descer aceleradamente a montanha, à medida que aumenta mais e mais as suas proporções) chegam tarde demais para Joe Gillis em «Sunset Boulevard», ou para o criminoso apaixonado Walter Neff de «Double Indemnity». E em «Ace in the Hole» voltamos a encontrar estas ideias cruzadas, mas de uma forma mais intensa - e aliás, mais perturbadora - que nessas outras duas obras primas. E esses temas são utilizados para contar uma história aparentemente inocente (sim, porque em Billy Wilder, tudo não passa de aparências, no início) sobre jornalismo e, acima de tudo, sobre os bons e maus valores da profissão (suportada por um código deontológico que dificilmente é posto verdadeiramente em prática), numa dissecação fria e agressiva da criação (ou procura) de notícia à la "american way". Charles Tatum, a personagem de Kirk Douglas, apresenta-se, nos primeiros minutos do filme, como o jornalista ambicioso, o "big shot" originário da Nova Iorque apressada e industrial, que se aproveita de um pequeno jornal de Albuquerque para voltar a lançar a sua reputação - que entretanto perdera devido a "maus comportamentos" na outra cidade.


Entretanto, uma história aparece, que gera lucros, fama e novos inimigos para Chuck, enquanto o grande circo mediático (e o "grande carnaval" - título que a Paramount substituiu pelo original para tentar recuperar os prejuízos de bilheteira do filme - e que acabou por ser utilizado na versão portuguesa) é montado. De uma pequena situação delicada, que pode colocar em risco um homem inocente, se constrói uma gigantesca e mediática atracção de feira, que transforma um local abandonado num ponto de turismo e num grotesco centro comercial. O estratagema envolve, assim, uma exposição, com fins puramente lucrativos e condicionados, das operações de salvamento da vítima, manipuladas pelos interesses de Tatum e companhia e prolongadas o mais tempo possível para maior proveito do êxito nacional que a história e seus desenvolvimentos estão a obter junto da opinião pública, dos outros meios de comunicação social, e dos simples indivíduos que gostam de passar a vida a bisbilhotar o que não lhes compete. Mesmo que isso ponha em causa o próprio protagonista destes planos atribulados, que sofre cada vez mais dentro da mina em que está soterrado, enquanto várias pessoas se aproveitam dele para atingirem os seus próprios objectivos, egoístas e completamente desumanos. E Billy Wilder desenvolve todas estas ideias com o seu génio inqualificável, evidenciando a ascensão pessoal e queda psicológica do anti-herói do filme, magnificamente interpretado por Kirk Douglas - naquele que é, sem sombra de dúvida, um dos seus melhores desempenhos no Cinema.


«Ace in the Hole» é uma dissecação agridoce dos males da espécie humana, da maneira que só Billy Wilder soube fazer - e que mantém, na sua essência, o poder emocional e subliminar que o autor lhe incutiu originalmente. Perfeito da disposição dos planos, na planificação do argumento e no timing dos diálogos (dos quais saíram vários dos chavões habituais que associamos ao jornalismo, como "Bad news sells best. Cause good news is no news"), é um dos grandes filmes do cineasta e que ultrapassou a sua própria época. E ainda bem, porque apesar de ter sido um fracasso nos anos 50, as constantes reavaliações de que tem sido sujeito ao longo das décadas conseguiram dar a este filme a atenção que merece: pela sua crítica, pela sua ironia, pela fantástica fotografia e pela roda viva das relações humanas que Wilder desconstrói habilmente, como sempre). As personagens revelam-se em várias máscaras, em vários interesses, e em vários momentos de ambição, como também, de desespero, à medida que a "aberração" carnavalesca começa a ser incontrolável e a ter consequências que fogem da consciência de Chuck e do seu ego desmedido. O "grande carnaval" do acontecimento é ainda, para Wilder, o "grande carnaval" das convulsões sociais, da importância das aparências e, mais ainda, daquilo que vemos, mas que não é mostrado por nada nem por ninguém. Um grande filme, e um dos maiores exemplos da criatividade e genialidade de um realizador.

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