quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Criado (The Servant) [1963]


Se na peça «The Homecoming» (exibida há pouco tempo por cá com o título «Regresso a Casa», numa encenação de Jorge Silva Melo), o autor Harold Pinter tinha explorado, com mestria, as relações de poder e de subserviência dentro de um agregado familiar, no ano anterior, ao escrever o argumento de «The Servant», realizado por Joseph Losey (com quem colaboraria por diversas ocasiões ao longo da década de 60), já estabelecia as bases para a abordagem dessas temáticas. E aliás, o que encontramos no filme (que também poderia transformar-se numa exemplar obra dramatúrgica) acaba por ser ainda mais feroz, vil e diabólico do que aquilo que vemos na peça de 1964. Aqui é a relação entre um criado e o seu amo que está em causa, num jogo psicológico de contradições, desistências e armadilhas traiçoeiras que põe as duas personagens numa roda viva maior e mais acidentada do que aquilo que podemos esperar num qualquer thriller ou filme de acção desenfreada. É uma luta de classes que está em causa, e a honra e ambição de cada uma delas, entre as paredes de uma casa que se torna o palco de mil e uma situações, que desenrolam conflitos que, por sua vez, trocam constantemente o papel do criado e do seu senhor entre a dupla de actores (Dirk Bogarde e James Fox), e que irão afectar todos aqueles que os rodeiam.


«The Servant» vive, por isso, de um misto de sadismo e de imprevisíveis subserviências entre as duas personagens, numa relação de (duvidosa) proximidade e, por vezes, familiaridade, que faz com que, ao contrário do que possa parecer, a fatalidade se torne ainda mais densa, mais fria e mais inevitável. A ela não conseguirão escapar nenhum dos intervenientes desta troca diabólica de insultos, que em nada conseguem travar as consequências que advirão das situações provocadas pelo criado, que tenta a todo o custo, e por todas as vias possíveis e imaginárias - algumas bastante perversas e dúbias em relação aos seus objectivos - desafiar o seu amo, a fragilidade da sua personalidade, e a falta de capacidade que este tem em exercer verdadeiro poder e respeito na casa em que habita. Assim, e mais do que um filme de crítica social, ou de difamações no seio de um círculo mais fechado e íntimo, esta é uma reflexão sufocante sobre o lado grotesco da destruição e ressurreição (desajeitada) das relações humanas. E mesmo que se trate da adaptação de um livro (escrito por Robin Maugham), é em Pinter que pensamos quando estas componentes se desenrolam no ecrã, porque o poder não se faz, ao que parece com o estatuto, ou mesmo por uma relação hierárquica em que o próprio poder se constrói e se impõe. É um labirinto de emoções e de  pequenos egocentrismos, o que encontramos em «The Servant», um grande filme que brinca com o sentido ético do espectador, com os padrões e convenções sociais, e ainda, com a forma que a força das aparências tem para aumentar a densidade e discrição dos mais perigosos segredos e obscuridades individuais.


Mas o que é ainda mais genial, no meio disto tudo (e não referindo sequer outras coisas que tantos críticos e especialistas na matéria têm aproveitado para dissecar sobre esta obra, em milhentas teses e análises à mesma - e que acabaram por criar uma "imagem" mediática falsificada do que isto realmente se trata), é que Losey filma esta história com métodos simples, utilizados para este tipo de narrativas que estão quase sempre centradas num único espaço cénico (recordem-se os planos fixos e a câmara meticulosa de Sidney Lumet em «12 Homens em Fúria», ou as peripécias de Stanley Kramer para captar, com o mínimo número de planos e montagem possível, a intensidade do choque do julgamento e do confronto entre Spencer Tracy e Fredric March em «Inherit the Wond»), e ao mesmo tempo, não deixa nunca de ir para além desse puro teatro filmado: «The Servant» é também uma lição de Cinema na medida em que nos ajuda a compreender como, afinal, para captar um espírito teatral, poder-se-á, com engenho e perspicácia, utilizar outras maneiras que não as já habituais, atribuindo à técnica um papel que se torna decisivo para aquilo que apreendemos no filme, graças a planos extraordinários e a uma impecável mise-en-scène. Contudo, o centro do filme está nos atores, e no constante caminhar para o declínio de uma, e para a ascensão da outra. Só por isso, e pelos maravilhosos diálogos entre Bogarde e Fox, já existem bons motivos para tornar «The Servant» numa obra prima imortal.

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