Os discos dos QUEEN: Hot Space [1982]


Se os QUEEN se caracterizam pelo mix de referências e estilos musicais, em «Hot Space» a história é ligeiramente diferente. Aqui encontramos uma salganhada de coisas, sim, mas não se criou o fio condutor comum da maioria dos álbuns anteriores, já que essas coisas se encontram dispostas de uma maneira que em pouco se assemelha a experiências do passado, onde o estilo da banda parece ser algo tapado por vários elementos musicais que eles quiseram utilizar aqui, mas que acabaram por danificar todo o álbum. Além disso, «Hot Space» é mais um conjunto de experimentações do que de invenções, provocando uma série altos e baixos que acabam por criar apenas um disco de agradável audição, mas de fácil esquecimento. E por isso, o álbum acaba por não funcionar tão bem, ao direccionar-se maioritariamente a tendências de teor mais pop e (alguma) disco que reflectem só as modas da época em que foi feito. A criação de uma obra como esta, com as suas características próprias, adveio do gigantesco sucesso do tema «Another One Bites the Dust», que graças ao qual o grupo conseguiu, numa rara ocasião, triunfar junto do público com um tema que nada tem de rock. Assim, «Hot Space» é uma espécie de prolongamento, para um disco inteiro, de todos os ingredientes dessa música que incita mesmo ao “pézinho de dança”. 

A antiga e lendária máxima “No synthesisers!” já tinha sido violada, em parte, com «The Game», e aqui, a maquineta (e seus derivados) acabaria por dominar a construção melódica na sua totalidade, apagando quase sempre o rock e proporcionando um espaço maior para outros géneros, executados de uma maneira menos interessante. Mas nada está perdido: encontramos alguns temas interessantes dentro destas características, e podemos descobrir também algumas canções que se afastam das mesmas e se aproximam do passado, apontando também para caminhos artísticos que a banda seguiria no futuro. Daí, por ser tão diferente de tudo o que a banda fez antes ou depois, este é o seu trabalho que lhe consegue ser menos facilmente associável, sendo também o disco menos apreciado pela legião de fãs dos QUEEN. Contudo, «Hot Space» é um álbum essencial no percurso dos QUEEN. É o disco que marca um novo som da banda, que seria aperfeiçoado mais tarde (nos trabalhos posteriores o rock voltaria ao de cima), e que demonstra uma reviravolta na imaginação do grupo e em todas as coisas que criariam as músicas que editaram ao longo dos anos seguintes da década de 80.

Mas não começamos mal: «Staying Power» é um bom tema, dentro das limitações para o qual foi designado, tal como a sensaborona «Dancer» e as interessantes «Back Chat» e «Body Language». Mas ao ouvirmos cada uma destas 3 faixas, torna-se cada vez mais inacreditável que este se trata mesmo de um disco dos QUEEN. A coisa só parece melhorar um pouco a seguir, com «Action this Day», de Roger Taylor, que apesar de não ter sonoridades tipicamente QUEEN, consegue captar alguma da excentricidade e criatividade que a eles são facilmente associadas. Algo semelhante encontramos em «Put Out the Fire», que tenta afastar-se da tendência disco que percorre grande parte dos outros temas, volta ao rock e avança para o terreno da canção socio-política (trata-se de uma letra de Brian May que critica o uso de armas de fogo). Não deixa de ser importante revelar, ou assinalar, esta faceta interventiva do grupo, que já encontrámos antes nesta jornada musical, e que voltaremos a descobrir nos próximos álbuns (redescobriremos essa pérola intitulada «Is this the world we created...?»). E se esta música já referenciava a tragédia de John Lennon, a que se lhe sucede, «Life is Real (Song for Lennon)» é um tributo completo de Freddie Mercury ao membro dos Beatles, com referências a algumas das maiores pérolas desse quarteto, mas que acabam por se esconder no meio de uma composição que não sai vencedora. 

«Las Palabras de Amor (The words of Love)» pode ser pirosa, mas também é uma homenagem sentida dos QUEEN aos seus fãs latino-americanos, e alguns interpretam-na como uma alegoria para a Guerra das Malvinas. Mas a intervenção não é tão "óbvia" como em «Put Out the Fire», nem a técnica está tão bem executada, e a canção acaba só por vencer pela simplicidade lírica das suas vozes. Depois há «Cool Cat», outra canção (justamente) esquecida, que teve, na versão inicial, a colaboração de David Bowie, que faz dueto com Mercury no desfecho do álbum. Mas o cantor não gostou do resultado final e pediu para a sua prestação ser retirada, e talvez até tivesse razão: é a canção mais descontextualizada de todas, que tem como única função proporcionar algum divertimento aos ouvintes, através de alguns efeitos sonoros e pelo ritmo da construção. Felizmente que «Hot Space» fecha com chave de ouro e assim, tal como todos os filmes que se salvam graças aos minutos finais, o disco torna-se mais interessante graças ao seu fim. «Under Pressure» (a tal em que participa Bowie) é a canção mais famosa da obra, que valeu mais um n.º1 no Reino Unido aos QUEEN, e mesmo que não se enquadre com nada do que ouvimos antes aqui, acaba por ser a única música que, verdadeiramente, nos fica na memória. E o tempo comprovou isso, tal como as repetições constantes do tema em milhares de emissoras de rádio de todo o mundo. É um épico como só os QUEEN poderiam criar, diferente de todos os outros da sua autoria, mas igualmente incrível e inesquecível.


«Hot Space» é um álbum menos inspirado, devido à decisão dos membros dos QUEEN de utilizar outros métodos para a elaboração da sua música. E os resultados não “soam bem” dentro do conjunto da obra do grupo, nem o próprio disco consegue funcionar “a solo”. Mas há certas experimentações disco que não são de deitar fora (e que acabam por ser, também, uma delícia para os melómanos) e, sim, acabam por ficar no ouvido, quer gostemos ou não delas. Mas o que acaba por sobressair são os poucos temas que possuem elementos "veteranos" da obra dos QUEEN, não por terem esses elementos, mas porque se tratam dos temas com melhor trabalho vocal e instrumental. O novo som que Freddie Mercury queria para a banda (algo que desagradava May e Taylor) acabaria por ser abandonado, de modo parcial, daí para a frente. Porque depois, os QUEEN começariam a juntar o seu rock épico com instrumentos e técnicas que acompanharam as novas modas da música de cada ano – uma solução que obteve resultados mais ou menos inspirados. Felizmente que eles não voltaram a fazer um álbum com excessivas apologias ao disco, mas para o bem ou para o mal, foi esse género, e esta experiência meio falhada, que influenciou a carreira do grupo até ao fim do mesmo. Eles acabariam por corrigir alguns dos erros que aqui encontramos, conseguindo, posteriormente, criar novos sucessos que não só iam ao encontro dos propósitos do grupo, como encaixavam nos discos em causa – algo que parece não acontecer aqui e com «Under Pressure».

* * * 1/2

As melhores faixas: «Under Pressure» é a melhor, mas vale a pena escutar com atenção as interessantes «Action this Day», Put Out the Fire»

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