quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Emigrante (The Immigrant) [2013]


Há um conflito tenso e armadilhado, entre dois irmãos, que se constrói através de oposições antigas e das fragilidades mentais de ambos. Minto: Jeremy Renner e Joaquin Phoenix não são mais do que primos em «The Immigrant», último filme de James Gray, estreado entre nós com um grande atraso (a culpa é do jet lag... comercial). Mas os pontos de colisão entre ambos parecem com que se torne mais adequado, pelos hábitos humanos e cinematográficos que adquirimos, que nos lembremos desse outro tipo de relação familiar, mais próxima e, ao mesmo tempo, mais acidentada, e propícia à descoberta de caminhos perigosos, dos quais não poderemos nunca voltar. Contudo, não é a rivalidade entre os dois vigaristas (um das artes de palco, e o outro mais virado apenas para os palcos mais duvidosos... e certas profissões obscuras da vida urbana) que se torna o cerne da obra, mas sim a causa de todos os atritos entre ambos: Marion Cotillard, ou melhor dizendo, Ewa. Porque se tanto Emil como Bruno são representativos de dois tipos de ilusões (o primeiro através da magia dos seus truques repletos de fantasia - símbolo de uma humildade incompatível com a feroz concorrência do mundo dos "states" -, e o segundo pela maneira como espezinha fortemente o sonho americano colorido e fofinho - conseguindo orientar-se muito bem nos meandros gananciosos e duvidosos da vida popular nocturna), a protagonista terá de lidar com os dois mundos para garantir a sua própria sobrevivência, numa sociedade a crescer, mas que nunca deixou de ter a expectativa de um colapso sempre à espreita, apesar de todo o optimismo e da esperança de muitos emigrantes que, tal como Ewa, partiram para os EUA em busca de uma vida melhor, mais justa e mais digna (e com a despreocupação e a excessiva confiança do sistema económico, viu-se o resultado: a aparente prosperidade americana não conseguiu evitar que, no final dos anos 20, década em que se desenrola a acção de «The Immigrant», o país entrasse numa enorme recessão, que provocaria a ruína e a desgraça de uma grande parte da população, entre ricos e pobres).


«A Emigrante» é, assim, um filme de contradições, mas acima de tudo, de suposições e dos medos que rodeiam a (in)glória do sonho americano. Do realizador James Gray (que, tal como nos filmes anteriores, não voltou a criar nenhum consenso, tanto da parte da crítica como do público), chega-nos mais uma história que tem tudo para se assemelhar a tantas outras que conhecemos de fio a pavio... e de facto, é o que acaba por acontecer, à medida que vemos as paixões, a ruína psicológica das personagens e a sede de ascensão num ambiente dominado pela decadência e pelo desespero. Mas porque será o filme tão especial, afinal? A razão é simples: apesar dessa construção narrativa "óbvia", e da familiaridade dos aspectos técnicos (e principalmente, da cinematografia, que tanto nos faz recordar as cenas de flashbacks de «O Padrinho - Parte II»), nunca conseguimos deixar de pensar que este é um trabalho de Gray. E tal como os bons autores, ele parte do "velho" para construir algo novo, que se desdobra na beleza dos planos (como o do desfecho) e das texturas cromáticas, no encadeamento das pequenas tensões da acção, e na utilização e "manipulação" do formidável conjunto de actores que dão vida a estas figuras dúbias e (inacreditavelmente) insólitas. Joaquin Phoenix é já uma peça habitual do Cinema de Gray, acompanhando-o desde «The Yards», drama de família e corrupção, e aqui encontramos algumas semelhanças com interpretações anteriores dessa parceria (sobretudo na fragilidade emocional e na constante luta social e pessoal em que se envolve a sua personagem). Mas talvez seja aqui que encontramos o pináculo da evolução do actor, que contracena com os igualmente magníficos Jeremy Renner e a (esplendorosa) Marion Cotillard. Tal como «The Immigrant» pode ser mesmo o melhor filme de Gray, e aquele que mais consegue aproveitar as influências artísticas (desde os filmes à pintura, ao teatro, à música...) para nos conseguir transportar de volta ao Cinema dito "clássico", sem perder algum sabor de modernidade. Porque se a história é "velha", arcaicas são ainda mais as convulsões que assistimos no filme, sinais de tempos cíclicos que nunca deixarão de afectar a humanidade (e para os quais, apesar dessas repetições sucessivas, parecemos não encontrar nenhuma resolução possível). Mas neste campo, muitos vêem brilhantismo, e outros a mais pura preguiça criativa. Quem terá razão? Optamos por continuar a acompanhar a divertida jornada de reacções que tem recebido o filme, que tanto tem de clássico como de ultra moderno (moderno, isto é, sem ter qualquer marca de CGI), e motivar os espectadores a verem-no, a discutirem-no, a detestá-lo ou/e a idolatrá-lo (aqui, tudo é possível).

 

Por essas razões dadas pelos detractores, defender a nova obra de Gray (que prossegue um universo dominado pelas sombras do passado e pelos fantasmas de uma cultura sempre em crescimento) parece ser trabalho hercúleo (porque as respostas que temos para lhes dar confirmam, de certa maneira, parte dos negativismos que atribuem à película). Sim, não parece ser tarefa fácil, essa de explicar porque é que «The Immigrant» vale a pena, quando tantas pessoas dizem o contrário. É difícil demonstrar, por esta via que é a da palavra escrita, a genialidade de James Gray, que se encontra tanto no mais pequeno dos pormenores (em que os tais elementos "que nos lembramos de qualquer lado" são utilizados para criar pequenas peças essenciais para a visão única e muito própria do autor - e algumas das cenas-chave do filme, creio, irão perdurar na memória visual de muita gente, em parte por causa desses detalhes) como na subtileza dos diálogos, na simplicidade cruel da câmara e na tristeza poética que invade, como um vírus fatal, o corpo destes homens e mulheres, divididos por credos, etnias, ou pura e simplesmente, diferentes formas (mais ou menos ingénuas) de ver e de aproveitar os recursos oriundos da existência humana. Mas tudo isto é algo que o espectador pode sentir, quer queira ou não, quando se sentar na sala (ou no sofá lá de casa, fica ao seu critério) e quiser contemplar uma obra que carrega um sentido de humanidade que é praticamente universal - e isto não pode ser negado, nem mesmo pelos maiores pessimistas cinéfilos (que tanto se manifestaram sobre a fita). Essas sensações, como é óbvio, não se conseguem passar para um qualquer suporte comunicacional, mas vale a pena dizer que elas existem, e que estão à espera de ser interpretadas, de mil e uma maneiras, por todos os que as quiserem descobrir. Gostos servem para ser discutidos, e não deixa mesmo de ser curiosa a multiplicidade de comentários que «The Immigrant» tem gerado, desde o maior dos desprezos à mais louca das aclamações. E se as opiniões devem ser respeitadas, independentemente do assunto ou da opinação em questão, assumo aqui (contribuindo para o debate que dura ad eternum, e que se tem distanciado cada vez mais da palavra "unanimidade"), para terminar esta dissertação mal construída, uma das minhas maiores certezas contemporâneas (que muitos irão ver com mau olhado): é que este é um dos melhores filmes de 2014.

★ ★ ★ ★ ★

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).