sábado, 2 de agosto de 2014

Os discos dos QUEEN - The Game [1980]


A começar a década de 80, que trouxe tantas promessas, fracassos e bizarrias que se tornaram um legado insubstituível do mundo da música, os QUEEN lançam «The Game», um dos seus álbuns mais curtos, e que é também mais uma das suas curiosidades discográficas que permanecem escondidas do grande público (mesmo que tenha dois dos temas mais conhecidos da banda, «Another One Bites the Dust» e «Crazy Little Thing Called Love»). Foi o único disco do grupo a alcançar o número 1 do top de vendas nos EUA (e isso explica-se pelo seu lado comercial muito mais apelativo), e o primeiro em que os quatro quebraram a promessa de não utilizarem sintetizadores nas suas canções (em todos os álbuns anteriores encontramos uma inscrição, "No Synthesisers!", que parece mostrar o orgulho dos QUEEN em não terem esse tipo de sonoridades nas suas canções, criando o seu próprio estilo criativo com outras experimentações vocais e instrumentais), e isso cria uma grande diferença para «The Game»: é um álbum mais assumidamente pop que rock (apesar de algumas homenagens ao género e certas recuperações de ideias de canções antigas), marcando o início de uma série de mutações que levariam a banda a ter um estilo diferente do que a tinha caracterizado até então. E outra coisa curiosa: o baixo ganha um papel mais relevante, sinal da mudança dos padrões musicais, algo que se verificaria em muitos dos grandes sucessos da década (como por exemplo, «You Can Call Me Al» de Paul Simon).

A partir daqui, nunca ouviríamos os QUEEN dos anos 70, e mesmo as roupas e o visual sofreriam uma transformação completa (foi com os "eighties" que Freddie Mercury deixou crescer o lendário bigode). Mas não foi por causa dessa mudança que eles começaram a fazer músicas menos interessantes - pelo contrário, porque os QUEEN souberam acompanhar as tendências das épocas que presenciaram e das diferentes gerações que conseguiram alcançar. E «The Game» revela-se mais um capítulo agradável da fascinante viagem de descoberta da evolução de uma banda que esteve sempre em contínua explosão criativa. No disco aposta-se mais em canções isoladas (com maior potencial lucrativo, por serem menos complexas e mais acessíveis que a dos outros álbuns), e não notamos um fio condutor. Talvez seja esse o grande problema do disco, tal como o grande desequilíbrio que encontramos em algumas canções. 

"Open up your mind and let me step inside", é o primeiro verso que ouvimos, na voz de Freddie Mercury, na primeira faixa de 10 do álbum, intitulada «Play the Game», escrita pelo vocalista, e que nos fala das vicissitudes e dificuldades que implica esse grande jogo, eterno e intemporal, que é o do amor. Recorda-nos desde logo o passado da banda pela sua impecável e épica sonoridade, possuindo também já as características que fariam os QUEEN avançar para a "modernidade" da nova década. E apesar de ter a potência para ser um grande single de sucesso da banda, tal não aconteceu - mas não deixa por isso de ser uma das grandes canções do álbum, que apenas peca pelo desnecessário fade-out (havia motivos para desenvolver esta música e dar-lhe um final mais adequado). De seguida surge uma canção desconhecida do grande público, «Dragon Attack», de Brian May, uma curiosa composição onde se nota uma diferença de maturidade na voz de Mercury (que seria a que ouviríamos ao longo dos anos seguintes), e cujos sons, experiências e melodias fazem-nos recordar completamente alguns dos símbolos artísticos maiores dos oitentas - sem deixar de possuir o toque inimitável dos QUEEN. Mas parece ser só um aperitivo para o grande tema "disco" que lhe sucede, a mítica «Another One Bites the Dust», uma das músicas "mexidas" mais interessantes deste novo período artístico da banda, e que não parecendo nada ao estilo do grupo, não deixa de ter qualquer coisa QUEENesca no seu conteúdo e na estrutura métrica e vocal da pequena "narrativa" pessimista que conta em pouco mais de três minutos e meio. «Need Your Loving Tonight», de Deacon, é uma pequena canção extremamente contagiante e que acaba por se destacar, apesar da letra simplista, pela harmonia incrível que é criada entre os elementos pop e a presença de sons rock. Depois há o tema rockabilly «Crazy Little Thing Called Love», outra faixa alegre, escrita em poucos minutos por Mercury, que aposta em outras facetas menos exploradas dos QUEEN, e que homenageia, mais uma vez, o estilo de Elis Presley. É mais uma prova de que esta não é banda que os ouvintes se habituaram a conhecer nos anos 70, mas que nem por isso perderam a energia e a garra artística.

«Rock It (Prime Jive)» é uma extravagância insólita, de Roger Taylor, com muito rock e algumas experiências que não têm nada a ver com o que ouvimos até agora neste álbum. Alguns instrumentos parecem fazer sons semelhantes aos dos videojogos modernaços da época (e que hoje são adoráveis peças de culto retro) e não deixa de ser curiosa a invenção levada a cabo por Taylor com este devaneio "barulhento", mas complexo - e daí, esta não ter sido uma das músicas mais vendidas do disco (e os QUEEN quase nunca a tocaram nos seus concertos). Já «Don't Try Suicide», de Mercury, nunca interpretada ao vivo, é mais uma música "tola", mas divertida e não menos irreverente, com vários tipos de sonoridade, e um dos grandes pontos de originalidade/homenagem a várias referências do disco. E «Sail Away Sweet Sister (To the Sister I Never Had)» quebra, tal como a «Rock It» de Taylor, com o ritmo mais simples da maioria das canções anteriores, e é uma composição fortíssima e marcante de Brian May (que os Guns n' Roses interpretaram em concertos), que tenta recuperar a magia de outros tempos com a sua construção pouco linear, mas fascinante. Em «Coming Soon», Taylor volta à maior e mais eficaz pop, sendo também outra canção extremamente desconhecida dos QUEEN. Através da bateria de Taylor e a voz de Mercury, ouvimos algo que - arrisco dizer - seria o modelo para vários êxitos do género de outras bandas dos anos 80. E «Save Me» é uma bonita balada que encerra, com chave de ouro, este «The Game», onde a pop alia-se ao melhor da imaginação vocal e instrumental da banda.

Não é o melhor álbum dos QUEEN, e a pop faz com que algumas canções sejam menos inspiradas que outras, mas «The Game» tem mais umas quantas pérolas do grupo e, mesmo que também não seja um dos títulos mais sonantes desta segunda década de QUEEN, é uma obra indispensável para compreender a mitologia da banda - e os alicerces de mais algumas marcas de culto que, a partir daqui, seriam lançadas. Além de que deve ser um dos álbuns que se escuta com mais prazer, logo à partida, não provocando grandes reacções de estranheza, pela simplicidade das músicas e pela forma agradável como elas entram nos nossos ouvidos. E se os QUEEN nunca mais seriam o mesmo grupo excêntrico dos setentas, e das grandes óperas rock que os popularizaram, agora começariam a ser uma banda de massas. Mas não perderiam, graças a esse novo estatuto, o estilo e a originalidade: essas apenas se transformaram, para o agrado de muitos novos fãs e para o desagrado de alguns "veteranos". Mas esta é a verdade absoluta: foi a partir daqui que a energia e o misticismo da banda alcançou os maiores patamares de grandeza.

* * * * 

As melhores faixas: A entrada com «Play the Game», o ritmo viciante de «Another One Bites the Dust», o classicismo rock de «Crazy Little Thing Called Love», o inesperado de «Sail Away Sweet Sister» e o bonito final com «Save Me».

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