sábado, 30 de agosto de 2014

Os discos dos QUEEN: Flash Gordon [1980]


No mesmo ano de «The Game», os QUEEN lançam um álbum insólito, oriundo de circunstâncias não menos desconcertantes: esta é a banda sonora homónima de «Flash Gordon», no que resultou, tanto pelas características bizarras e excêntricas do filme como pelo tom do material de origem (que pede música em tons épicos e espaciais que não se assemelhem ao que John Williams fez para a trilogia «Star Wars»), num conjunto de músicas que acompanham a história de Flash e a sua luta contra o temível imperador Ming (dono do bigode mais estiloso do universo e arredores) para salvar a Terra e todos os seus habitantes da diabólica destruição que o vilão pretende concretizar. De facto, é esta banda sonora um dos (poucos) destaques desta fita, um clássico de serões de fim-de-semana e da vida de muita petizada dos anos 80 e 90 (e ressurgiu no imaginário popular graças à homenagem de Seth MacFarlane na sua comédia «Ted»). Nela, encontramos elementos sonoros que caracterizariam toda uma década de QUEEN e elevariam o mood operático e épico da banda para outras alturas, mais ou menos divinas, mais ou menos imprevisíveis, e mais ou menos apelativas e coincidentes com os discos do passado. Mas «Flash Gordon» não deixa de ser um álbum de um filme, levando, por isso, com todas as coisas boas e más que isso possa carregar. É o álbum menos característico dos QUEEN, apesar de tudo, e nele podemos ouvir também dois excertos compostos por Howard Blake. 

Aqui encontramos algumas experiências que os QUEEN voltariam a tentar repetir noutra colaboração cinematográfica posterior: um conjunto de canções próprias, reunidas em «A Kind of Magic», que serviram para parte da partitura de «Duelo Imortal», um filme com tanta qualidade duvidosa como o do super herói deste disco de 80. E por ser o disco que reúne as melodias de uma experiência cinematográfica, «Flash Gordon» varia muito em relação a um dito álbum “normal” do grupo: o número de faixas é maior, e reduzidíssimo, pelo contrário, é o número de canções que possuem letra: um deles é o grande êxito que foi o tema de abertura, lançado numa outra versão para o mercado dos singles, que corta os diálogos do filme que ouvimos na versão incluída no álbum. E permanece a canção mais conhecida da banda sonora, e uma das mais famosas do reportório do grupo nesta segunda década de vida. «Flash's Theme» revela a heroicidade das histórias de pendor fantástico e kitsch que vive o protagonista, em desventuras intergalácticas. Exceptuando a repetição dos elementos desta primeira faixa noutras que se lhe seguem (como as constantes menções a partes da letra em «Marriage of Dale and Ming (And Flash Approaching)» e na reprise da «Theme»), nunca ouviremos nada de novo a sair das vozes dos membros dos QUEEN... a não ser na última canção, «The Hero», onde ouvimos Freddie Mercury com parte de uma letra nova, como também uma reinvenção da canção principal. Até lá, entre as outras quinze faixas do disco, encontramos composições que captam exemplarmente o espírito da ficção científica excêntrica do filme, mas que podem não funcionar tão bem fora dele. E talvez por ser uma composição mais condicionada (por ser para uma coisa em específico), em alguns momentos podemos perder algum do toque dos QUEEN em virtude daquilo que «Flash Gordon» pretende alcançar com a banda sonora deles. E é pena que as virtudes vocais da banda não tenham sido mais aproveitadas (algo que consegue ser feito em «Highlander» e fazer esse álbum funcionar como uma obra própria)

Mas «Flash Gordon», mesmo com as falhas, não resume o seu interesse a essas duas músicas, porque há pequenas curiosidades repletas de extravagância para apreciar, e que assentam como uma luva ao tom pouco sério e desequilibrado da fita de culto (que tem os seus bons momentos - os minutos iniciais, acompanhados pela tal «theme», funcionam agradavelmente bem). As composições dos QUEEN elevam a obra a um patamar mais interessante (e aumentam-lhe também a esquisitice, em certos momentos), atribuindo-lhe um tom próprio que, mesmo que não aprecie, o espectador nunca conseguirá deixar de associar à forma como a história foi contada para o ecrã. A versão da banda sonora deste álbum tem mais do que uma mera função de compilação das músicas do filme. Em muitas das faixas ouvimos mais diálogos  (muitas vezes excessivos, e desnecessários) e efeitos sonoros do que propriamente música, que nos ajudam por vezes a contextualizar cada invenção musical da banda em cada momento de «Flash Gordon» para a qual foi criada. E algumas funcionam melhor do que outras, mas talvez fosse preferível que o disco se distanciasse um pouco do filme, para conseguir ser mais abrangente a outros públicos. Contudo, esta obra nunca deixa de ser  agradável, e mais uma testemunha da criatividade de um grupo que acompanhou muito bem a mudança dos tempos, oferecendo sempre um toque próprio a cada um dos seus trabalhos, completamente distinto de todos os outros artistas da sua época. Mas seria melhor para o próprio álbum que este pudesse viver com mais individualidade, como «A Kind of Magic» e a sua série de fabulosos e variados hits. O que pode resultar em contexto cinematográfico pode tornar-se menos suportável num registo discográfico - a não ser para os fãs mais acérrimos deste universo fantasioso. Os QUEEN poderiam ter explorado outros caminhos que não fossem o da dissecação pura e dura de uma única via temática das suas capacidades musicais nesta obra, e os resultados são aprazíveis, em parte, e dispensáveis, noutra.

Estar a falar aqui de todas as faixas (muitas delas ligadas entre si) é desnecessário, porque a maior parte delas é curtíssima (reflectindo momentos específicos da narrativa, e que lhe aumentam, em certos aspectos, a epicidade deste tipo de histórias de super heróis) e porque se-lhes adequa perfeitamente o que já foi registado em parágrafos anteriores. Em vez de estarmos a ouvir o disco, em muitos momentos parece que escutamos apenas o filme, sem o auxílio de imagens. E muito honestamente, considero isso desprestigiante para o trabalho dos QUEEN e para aquilo que deve ser uma banda sonora. Mas é o que temos, porque assim, ao ouvir este álbum, o(a) leitor(a) poderá, com o auxílio dos tantos diálogos que pode ouvir, compreender a história e entender mais ou menos como está estruturada a fita - e assim, evita ter de assistir ao visual berrante e completamente datado deste "clássico". Ao contrário de outros discos dos QUEEN, que mantiveram a frescura com o passar dos anos, este «Flash Gordon» não consegue passar de uma (boa) curiosidade para melómanos e cinéfilos, que se ouve com prazer, mas que não consegue convencer como audição "a solo", que se consiga distanciar do filme em que inspirou, porque os sons especificamente elaborados para acompanhar o filme, por mais toque de QUEEN que tenham, não conseguem ser tão memoráveis como as músicas do grupo feitas apenas por eles e segundo as mensagens e irreverências que desejaram passar aos seus ouvintes.

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A melhor faixa: sem qualquer dúvida que é a «Flash's Theme», a única que consegue funcionar autonomamente e que acaba por influenciar todas as outras.

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