Alfred Hitchcock: 5 filmes subvalorizados


Vários são os filmes do realizador, vulgarmente intitulado como "o Mestre do Suspense", que surgem numa multiplicidade de tops e listas cinéfilas oriundas dos quatro cantos do mundo. Seja a aventura trepidante de espionagem de «Intriga Internacional», o horror psicológico de «Psycho» e a obsessão pela ilusão de «Vertigo» (que agora não consegue livrar-se do rótulo de "Melhor Filme de Todos os Tempos", graças à famigerada lista da revista Sight and Sound), Hitchcock é um realizador presente na memória e crescimento de várias gerações de cinéfilos e de realizadores. Contudo, e apesar de nessas ditas selecções dos mais grandiosos títulos da história do Cinema (com critérios mais ou menos duvidosos - como os da Empire, nas suas listas dos 500 e dos 301 melhores filmes de sempre), existem uns quantos títulos do cineasta que permanecem escondidos do grande público - ou pelo menos, desvalorizados por uma boa parte do mesmo. Ou porque estavam à espera de encontrar um hitchcockianismo presente noutros filmes e que num ou outro não conseguiram descobrir, ou porque pensavam que o filme seria uma coisa e acabou por ser outra completamente diferente, ou até porque, em algumas dessas fitas mais "obscuras", Hitchcock não se ficou apenas pelo suspense e pela tensão, e decidiu ir muito mais além da exploração épica das perturbações da vida humana. Esta lista pretende ressuscitar cinco casos que, a meu ver, merecem ser vistos, ou revistos, ou repensados. São cinco obras da fase hollywoodiana de Hitchcock, que ficaram, talvez, escondidos a um canto graças ao poder e mediatismo de tantas obras primas que o realizador elaborou em solo americano. Espero que gostem, e que encontrem (mais) bons motivos para conhecer em pormenor o brilhantismo de um dos maiores mestres da Sétima Arte. Como se já não houvessem suficientes!

1. - Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat) [1944]


Tal como seria em «A Corda», «Chamada para a Morte» e «Janela Indiscreta», «Um Barco e Nove Destinos» tem a sua história confinada a um único espaço cénico, onde se desenrolam todas as interacções e conflitos entre as diferentes personagens. É um filme que reflecte as preocupações de uma época, por falar da II Guerra Mundial e do perigo da ameaça nazi poder alastrar-se para o resto do mundo. E isto é demonstrado através do barco do título, que pode mesmo ser visto como uma metáfora para a humanidade, e para a maneira como um só um indivíduo pode provocar o pânico a muitos mais. Hitchcock concentra aqui a sua habitual tensão de uma forma inesperada, desagradável para uns, mas interessante e viciante, até, para outros. Para além de ter um dos cameos mais originais do realizador, «Lifeboat» é um espantoso exercício de narrativa que, apesar de possuir características que tão bem poderiam adequar-se a uma peça de teatro, foi montada de uma maneira exemplar que só no Cinema poderia ser concretizada. Uma genial desconstrução do ambiente cinzento da guerra, e uma impecável fita de suspense que reflecte o que de mais generoso e cruel existe no ser humano.

2. - A Casa Encantada (Spellbound) [1945]


Basta falar da colaboração que Salvador Dali prestou ao filme (e à sua sequência mais memorável, que na versão original era mais longa do que a final) para entender como, apesar de ter algumas falhas (há uma ou outra cena que é completamente "pointless"), «A Casa Encantada» é outro filme de Hitchcock que merece ser visto com verdadeiros olhos de ver. História de crime, amnésia e sonhos surreais, é protagonizada pela sempre majestosa Ingrid Bergman e por Gregory Peck, num papel que muitos consideram hoje demasiado exagerado para as características que suporta. Contudo, as perturbações da sua personagem reflectem muito bem as dúvidas e os mistérios que escondem os casos mais obtusos da psicanálise, e sendo Hitchcock um perito na arte de manipular a mente dos espectadores, teria de chegar o dia em que a ciência seria abordada num dos seus filmes. Um filme muito interessante que vive da química entre os dois protagonistas, tão atribulada pelas consequências dos métodos científicos e pelo crime que atribuem ao paciente amnésico, em circunstâncias que serão desvendadas, passo a passo, ao longo de toda a trama.



É o único filme a cores desta lista, e o mais desvalorizado e espezinhado de todos (mesmo com os enormes louvores do gang dos «Cahiers du Cinéma»), por ser o mais "anti-Hitchcock": «Under Capricorn» não é, tal como outros filmes do realizador, um thriller propriamente dito, e entre os vários não-thrillers que fez, este deve ser o que mais se afasta das marcas mais conhecidas do estilo do cineasta. Gira à volta de um triângulo amoroso, na Austrália do século XIX, e da hierarquia social que proporciona várias contradições entre as personagens e os sentimentos que nutrem umas pelas outras, dividindo-se por razões de poder, mas também por segredos obscuros do passado e por mistérios que ficaram à espera de uma resposta. Fabuloso na fotografia e nos magníficos cenários, e emocionante na construção da intriga romântica e na oposição entre diferentes facções da sociedade nobiliárquica da época, «Under Capricorn» tem pouquíssimos momentos de suspense, mas o centro do melodrama e todas as outras componentes da narrativa estão muito bem pensadas, de uma forma que só Hitchcock poderia ter feito - mesmo que este filme em nada se pareça com tantos outros do seu curriculum.

4. - Confesso! (I Confess!) [1953] 


Entre todos os filmes subvalorizados de Hitchcock (ou entre, pelo menos, os que constituem este quinteto em análise), «Confesso!» é o meu preferido. Foi mal compreendido na altura da estreia nos EUA pelas ligações da história a um tipo de ritual católico, cujo significado era inconcebível para a cultura norte-americana - a do sigilo da confissão, que torna a relação de intimidade entre o sacerdote e o pecador em algo semelhante à de um psiquiatra e seu paciente, mas com contornos espirituais. E é por isso que o padre Michael Logan (uma composição magistral de Montgomery Clift) não deita cá para fora a identidade do culpado do assassínio, que um crente assumiu numa confissão improvisada, pouco tempo depois da ocorrência, e que lhe trará imensos problemas - inclusive o facto de se tornar o suspeito número 1 desse crime que não cometeu. O cumprimento da norma assume-se perante a individualidade nesta história, e isso faz com que o tema do "inocente que se transforma em criminoso aos olhos da opinião pública" ganhe uma nova e mais espectacular dimensão no universo hitchcockiano: é que neste caso, o padre sabe todos os pormenores que o poderiam ilibar das falsas acusações que a polícia lhe responsabiliza... mas não os pode utilizar, por dever ao sacerdócio. «Confesso!» tem um suspense refinadíssimo que apenas encontramos em outros grandes filmes do Mestre. Porque é que foi atirado para a valeta do esquecimento? A passagem do tempo pode ajudar a que se possa olhar de outra maneira para os contornos da religião restrita e complexa que é retratada - e isso é apenas uma pequena parte nesta diabólica obra de ética, valores, desespero e cobardia.



O motor da acção é o mesmo de «I Confess» e de tantos outros filmes de Hitchcock (que tinha este tema como um dos seus predilectos): o homem acusado de um crime que não cometeu. Mas aqui vemos a adaptação de uma história verídica - e que, apesar disso, sobrepõe-se à realidade, e a uma mera e televisiva recriação dos factos, para ser uma invenção muito bem imaginada pelo cineasta. Contudo, convém não esquecer que Hitchcock não pôs de parte o lado real da história, salientando, desde o princípio, que os contornos da situação que vemos descritos ao longo do filme são mais surpreendentes e insólitos do que muitos elementos ficcionais que encontramos em alguns dos seus mais sólidos e provocantes thrillers. Protagonizado pelo genial Henry Fonda (numa das suas interpretações mais empolgantes) e por Vera Miles, no papel da fragilizada esposa do acusado que acaba por sentir física e psicologicamente as consequências do engano judicial, «The Wrong Man» parte de pouco, e daquilo que, infelizmente, se tornou na categoria mais banal de tragédias do nosso quotidiano, para criar uma sensação de desconforto e de preocupação no espectador, que se sente não só perto dos personagens que acompanha no ecrã, como também que aquilo que se passa com eles tem também a ver consigo, e com a sua condição no meio de uma sociedade desorganizada e fragilizada. Mais um grande filme de Hitchcock que, mesmo que seja o menos dos subvalorizados desta selecção, não deixou de ficar, injustamente, de parte, ao pé de outros filmes mais populares do realizador.

Comentários

  1. Só não concordo muito com o "Sob o Signo do Capricórnio". O uso dos takes de 10 minutos (como em "A Corda") aqui não resulta. O decor nem sempre serve a atmosfera como deve. A história parece um pouco derivada de outros filmes. Veja-se "Rebecca" por exemplo, onde tudo funciona na perfeição. Mas isto é a minha opinião, claro. :)

    ResponderEliminar
  2. I confess, ainda não vi nenhum destes filmes. HItchcock tem tanto para descobrir...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).