segunda-feira, 7 de julho de 2014

Três Mulheres Altas: o envelhecimento em jeito de comédia negra


Se Edward Albee ficou conhecido pelo humor cáustico e o drama angustiante de «Quem tem medo de Virginia Woolf?», em «Três Mulheres Altas», peça que está agora em cena no Teatro Nacional D. Maria II (até dia 13 de julho), a comédia e a tragédia unem-se numa mistura que tanto tem de sarcástica, como de repugnante, pessimista e filosófica. O trio de mulheres representam três gerações distintas, que combatem entre si para objectivos que, apesar de distintos, acabam por colidir, quer se queira, quer não.

A(s) história(s) destas três mulheres é a marca da Mulher na sociedade e do seu papel na criação das convulsões dessa mesma sociedade: três idades e três formas de ver o mundo que se chocam e confrontam, e cujos pontos em comum são pouquíssimos, ou mesmo inexistentes. E a partir deste objectivo humanista, introspectivo e social, Albee traça um objecto satírico, que nos faz rir das coisas que, supostamente, não estamos autorizados a ver de uma maneira mais... engraçada. 

«Três Mulheres Altas» brinca com os seus espectadores, levando-nos a prever situações que, ao longo da peça, não acabarão por acontecer: as reviravoltas são inevitáveis e, ao mesmo tempo, incrivelmente inesperadas: a transição do primeiro para o segundo acto da peça transforma o conjunto da obra para uma outra coisa totalmente diferente - algo que também se sucede com «Virginia Woolf?» e as voltas ilusórias e psicológicas a que o casal de protagonistas submete os seus dois jovens convidados. Ambas as peças falam de conflito de gerações da maneira menos banal possível, e por isso as duas continuem a ser tão intemporais, marcantes e fortes, no seu conteúdo e nas suas punchlines - e aqui, não devemos pensar só no lado cómico de cada uma dessas histórias, como também no lado fatalmente amargo que as caracteriza, pela construção dos elementos que levam as personagens ao clímax final que tão pacientemente as aguarda.

Tem um óptimo trabalho de actores e encenação, e a tradução parece não perder nada das intenções originais de Edward Albee, que dizia que esta peça reflectia a relação distante e conflituosa que manteve com a sua Mãe, desde sempre. E Albee, como lhe é característico, não aborda estes problema tantas vezes dissecado por várias formas de arte da maneira mais provável. O jogo intrincado de relações a que somos sujeitos acaba por gerar nas 3 personagens femininas uma série de mutações psicológicas e sociológicas cujo significado e pretensões entendemos à partida, mas cuja profundidade e intensidade temos dificuldade em adivinhar logo desde o início de cada acto. E «Três Mulheres Altas» reflecte a mudança de papéis que a idade oferece a cada indivíduo no "mundo" em que se insere, sem se esquecer das pequenas coisas, não menos importantes e brutais - e são essas condicionantes que nos moldam tanto como seres humanos, tanto também através da perspectiva das coisas que cada faixa etária acaba por ter das que a precedem e/ou sucedem. Porque para nos falar da Vida, e de todos os pontos fulcrais da mesma que parecem ser sempre fontes inesgotáveis de criatividade, Albee inovou a forma de se pensar e fazer Teatro, e a forma como podemos ser agarrados por aquilo que o palco nos oferece.

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