sábado, 19 de julho de 2014

Os discos dos QUEEN: News of the World [1977]


O sexto álbum dos QUEEN evidencia uma reviravolta nas temáticas artísticas utilizadas pelo grupo: obra de pendor mais leve e menos sofisticada e elaborada, mas não menos incrível e brilhante, em «News of the World» não encontramos a dispersão de géneros e melodias que fizeram a trademark do grupo no díptico de discos anterior, mas uma selecção de temas em que quase cada um representa um único género musical, ou tendência. De destacar também o esplendoroso trabalho da edição do disco, com aquela que é talvez a melhor capa da discografia do grupo (baseada numa ilustração original do autor de ficção científica Frank Kelly Freas). Mas se os QUEEN estão aqui mais "certinhos", não foi isso que os impediu de elaborar mais um grande título da sua discografia - porque é esse lado mais correcto e polido que volta a mostrar as várias faces, ou máscaras, que o grupo soube vestir em cada obra. «News of the World» tem ainda duas das composições mais celebradas (e comercialmente utilizadas e copiadas) de toda a sua colheita musical. São dois hinos que mostram a potência da banda e que se tornaram ainda mais relevantes nos vários concertos ao vivo, desde o ano de lançamento do disco até à derradeira tour de espectáculos, onde os QUEEN fizeram duas incríveis e inesquecíveis apresentações no estádio de Wembley. E este disco não pára de nos surpreender depois dessa dupla de músicas... pela sua (quase total) calma (menos acentuada em algumas canções com um pendor mais rockeiro), e pela maneira como flutua tão suavemente (e agressivamente, nos momentos mais inesperados) de faixa para faixa, obtendo razões para agradar a todos os gostos, já que o grupo se concentrou mais em desenvolver, e bem!, cada música pelo seu caminho único e específico.

Em «News of the World» temos uma distribuição singular de autoria das canções: Roger Taylor e John Deacon são responsáveis, cada um, por duas músicas do álbum, criando alguns dos momentos mais notáveis do mesmo e não deixando só para a dupla principal de autores o trabalho criativo mais significativo. Mas são de Brian May e Freddie Mercury os dois grandes sucessos do álbum, mencionados no parágrafo anterior: são eles «We Will Rock You» e «We Are the Campions», respectivamente. E que dizer dessas duas canções? Que são fantásticas, o que já toda a gente sabe... mas há ainda mais para ouvir. Há «Sheer Heart Attack», de Taylor, o tema rock provocador e ensurdecedor que foi o título do terceiro disco dos QUEEN, e cujo tema supostamente principal finalmente surge neste sexto. Depois, temos a melodia macabramente suave de «All Dead, All Dead», de May, uma balada melancólica que representa o lado emocional do grupo, tal como a que se segue, «Spread Your Wings», com a filosofia algo batida e "barata" de Taylor - mas que não deixa de ser encantadora.

E a música seguinte, «Fight From the Inside», é outro tema interessante de «News of the World», que volta a dar importância ao lado bipolar deste álbum não presente em cada canção (nas misturas de géneros recorrentes em «A Night at the Opera», por exemplo), mas na forma como rapidamente caminhamos da mais triste das baladas com a mais forte das batidas rock. Vejamos que, logo a seguir a esta música, ouvimos a irreverente «Get Down Make Love» de Mercury (talvez a faixa menos inspirada) e depois a brincadeira simples, mas não simplista, de May, «Sleeping on the Sidewalk». E somos confrontados com novas sonoridades que não esperávamos descobrir nos QUEEN, como nos mostra «Who Needs You», tema que se assemelha a certas músicas de dança latino-americanas. «It's Late», de May é a canção mais complexa do álbum e aquela que tenta imitar os passos da magnum opus «Bohemian Raphsody». Não consegue ser superior, mas ao menos proporciona mais um extraordinário momento de poder criativo da banda, sendo estruturada como se de uma peça de teatro narrativa se tratasse. E para terminar, ouvimos mais uma lindíssima peça de Mercury, «My Melancholy Blues», outra das grandes canções deste álbum, com algo de jazz e do tal blues melancólico do título. É uma perfeita homenagem aos grandes artistas dos géneros e mais uma prova da reinvenção permanente dos QUEEN.

«News of the World» é mais uma obra essencial para se conhecer a evolução dos QUEEN e as descobertas que fizeram em variados estilos musicais. Mal recebido à época (como tantos outros álbuns do passado e posteriores a este sexto), começou a receber um culto enorme e vive, sobretudo, graças à fama massificada dos dois primeiros temas. Contudo, tem muito mais para se ouvir. E apesar da flutuação e mudança entre temas não funcionar a 100%, a banda criou aqui mais uma panóplia de composições que marcam o seu historial criativo. Uma obra estranha dentro do conjunto do trabalho dos QUEEN, mas que possui algumas marcas notáveis do percurso da banda que nunca mais voltaram a ser repetidas.

* * * * 1/2

As melhores faixas: A força brutal de «We Are the Champions», a beleza de «All Dead, All Dead» e «Who Needs You» e o relevante jogo dramático de «It's Late».

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