Os discos dos QUEEN: Jazz [1978]


«Jazz» fecha a primeira década de vida dos QUEEN, e tal como a maioria dos álbuns anteriores da banda, foi mal recebido na época do seu lançamento, sendo reavaliado por diversas ocasiões e entidades ao longo das décadas. Neste disco voltam as variações de estilos (como as variações criativas, mais presentes pelo cruzamento constante de temas mais fortes e alguns temas disfarçadamente inocentes e ingénuos), que caracterizaram a banda até «A Night at the Opera», mas os QUEEN reinventam-se mais uma vez, e incluem uma nova excentricidade às sonoridades desta obra, que conquistou o agrado de uns e o desprezo de tantos outros. E se os QUEEN já eram "estranhos", «Jazz» faz-nos perguntar "mas o que é isto?!" mais vezes do que o habitual, enquanto saltitamos de extravagância em extravagância, entre os pontos mais e menos altos de um álbum que marcaria, também, o desfecho de uma certa imagem visual da banda (para o álbum seguinte, «The Game», os quatro membros do grupo mostram como já estavam preparadíssimos, logo no início dos anos 80, para se identificarem com as tendências que essa década queria deixar marcadas para memória futura), e criaria polémicas ainda mais importantes do que as anteriores. O controverso vídeo de «Bicycle Race» é exemplo disso, onde vemos modelos femininas nuas numa bizarra corrida de bicicletas, tal como exemplo são as letras ainda mais provocadoras de Freddie Mercury em vários dos temas do álbum, que reflectem os últimos tempos de uma época e as alterações que esse final iria causar e condicionar na década seguinte (nessa «Bicycle Race», por exemplo - e isto ao nível cinéfilo -, fala-se de «Jaws», «Star Wars» e tantos outros símbolos que marcam os anos 70, como também fariam uma alteração significativa dos gostos de Cinema das massas, agora sedentas de grandes e espectaculares blockbusters).

Desde o início, com a música «Mustapha», de Mercury, que percebemos a maneira como os QUEEN regressam àquilo que os demarcou de outras bandas do seu tempo (se bem que com um fulgor distinto), e que tinham sido postas um pouco de parte no suave álbum anterior, «News of the World». É um delírio non-sense e poliglota, com variações alucinantes entre altos e baixos, em que Mercury experimenta vozes distintas como nunca antes tinha feito, nem como nunca alguma vez voltaria a executar. Depois há «Fat Bottomed Girls», um dos grandes singles de «Jazz» e o hino rock por excelência deste trabalho, que é constituída pelas mais clássicas e épicas sonoridades do género e os pequenos toques de frescura inseridos pelos QUEEN. «Jealousy» tem experiências com instrumentos menos usuais, numa lindíssima letra de Mercury (que faz todo o trabalho vocal, com vários coros e elasticidades musicais), e é uma canção aparentemente "certinha", mas que condiz perfeitamente com o fio condutor do disco e o espírito que o grupo lhe quis dar. De seguida há a complexa, mas não menos orelhuda e popularíssima «Bicycle Race», cheia de pequenas brincadeiras sonoras que tentam dar "vida" à corrida imaginária composta por Mercury, inspirado pelo Tour de France de 78, e repleta de referências sociais e culturais (para além dos filmes, há o Watergate e tantas outras coisas, numa salganhada deliciosa de ideias fervilhantes que, e isto é mesmo impressionante, só dura três minutos.

«If You Can't Beat Them» é uma composição completamente rock (e nada clássica) de John Deacon, onde os instrumentos ganham outra força e dimensão. «Let Me Entertain You» é uma engraçada mensagem directa ao público dos QUEEN, falando das capacidades da banda e que, com ela, os espectadores terão uma enorme experiência de entretenimento, graças aos artistas que a compõem e a todos os seus ajudantes (como as editoras, que são mesmo mencionadas na letra), que fazem o "menu" perfeito e que pode agradar a toda a gente. «Dead on Time» é mais uma grande canção rock, agressiva, de Brian May, poderosa, provocante, contagiante e inacreditável, mas que apesar disso nunca foi tocada ao vivo - e é pena, porque deveria dar uma maior espectacularidade aos concertos dos QUEEN. E com «In Only Seven Days», Deacon volta a assinar uma composição harmoniosa, semelhante à «Spread Your Wings» de «News of the World». «Dreamer's Ball» mostra ser uma canção acutilante que homenageia os clássicos e os primórdios do rock n' roll e, mais propriamente, os primeiros anos de carreira de Elvis Presley. «Fun It», de e com Roger Taylor, tem uma batida e um som disco que parece ser o primórdio das experiências mais eighties que os QUEEN levariam a cabo em «The Game» (mais propriamente com uma canção chamada «Another One Bites the Dust»), e que necessita de um pézinho de dança retro para ser devidamente apreciada (e não, eu não me sujeitei a isso). 

E logo depois voltamos às baladas, com a voz de Brian May em «Leaving Home Ain't Easy», uma composição simples e algo simplista, mas bem orientada pelos artistas. «Don't Stop Me Now» é outro desses temas fulgurantes, temporais e sensacionais: tantas vezes copiado e "homenageado" (ainda se lembram do sacrílego anúncio daquela companhia de televisão, telefone e internet, que retalhou a música original como se de carne picada se tratasse?), dispensa apresentações pela forma como conseguiu ultrapassar gerações e continuar a ser uma canção tão fora do comum e maravilhosamente composta e interpretada, onde os QUEEN põem tudo e mais alguma coisa e conseguem, mais uma vez, sair vencedores com esta impecável "salada de frutas" artística. Para terminar «Jazz» temos «More of That Jazz», uma música mais séria, mais rock e menos alegremente entusiasmante que a antecedente, porque nela, Taylor elabora uma construção melódica forte, com algum pendor de crítica social, e terminando de uma forma seca, que sucede a uma curta mistura, nos momentos finais, de algumas das outras canções do álbum, criando um. Encerra o álbum com uma mensagem que fica patente nos nossos ouvidos muito tempo depois de escutada a canção.

«Jazz» é, por tudo isto e algo mais, outro dos álbuns esquecidos e subvalorizados dos QUEEN. Cheio de referências a outras canções da banda (e também com ligações entre as faixas do disco, como a menção de «Fat Bottomed Girls» em «Bicycle Race»), a obra não poderia ter dado um fim melhor à primeira fase criativa dos QUEEN, que não se voltaria, depois, a repetir (a banda estava pronta para lidar com os anos 80, e assim o fez, como iremos descobrir nos próximos álbuns). Com mais uma série de canções para o futuro (e que continuam a ser novas e irreverentes), a banda caminharia agora para outros meios, que conquistaram novos fãs e desagradaram a outros "veteranos", mas que nunca deixaram de provar a versatilidade do grupo e, mais ainda, da voz e talento de Freddie Mercury. Mais uma pérola a descobrir, esquecendo as críticas negativas a que foi sujeita.

* * * * 1/2 

As melhores faixas: a exuberante entrada de «Mustapha», o hino de «Fat Bottomed Girls». a beleza de «Jealousy», a complexidade de «Bycicle Race» e «Dead on Time», a poesia de «In Only Seven Days» e a homenagem de «Dreamer's Ball», e a energia de «Don't Stop Me Now».

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