Os discos dos QUEEN: A Day at the Races [1976]


Algum tempo depois do lançamento de «A Day at the Races», Freddie Mercury confessaria que este quinto disco dos QUEEN poderia ter sido lançado ao mesmo tempo que o anterior, «A Night at the Opera», ou poderiam até ter formado um duplo álbum. E há muitas semelhanças entre os dois: a capa é parecida (partilham, embora que desenhado de maneiras diferentes, o símbolo da banda, representando, através das figuras, os signos de cada um dos quatro elementos da mesma), os títulos são de filmes dos irmãos Marx (esta foi a comédia que fizeram dois anos depois a seguir à da Ópera), e a estrutura e organização das canções do disco segue uma linha narrativa complexa, mas ao mesmo tempo linear e que se vai repetindo ao longo de cada faixa (mesmo que sejam todas muito distintas umas das outras). E tal como «A Day at the Races» não é um filme superior a «A Night at the Opera», também este quinto álbum não consegue superiorizar-se ao quarto. Mas não deixa, por isso, de ser muito bom, original e viciante.

Felizmente, para os QUEEN, este álbum só ajudou a continuar a cimentar a fama crescente do grupo, que assinalou com «A Day at the Races» mais um enorme sucesso dentro e fora das fronteiras britânicas (incluindo no Japão - um dos países mais fervorosamente fanáticos pela banda), continuando a criar algumas músicas que se tornariam imortais e "vítimas" de múltiplas e desinspiradas versões por diversas gerações de artistas (obviamente que, aqui, falamos de «Somebody to Love», a pequena ópera mais reverente que tenta fazer o "papel" que «Bohemian Raphsody» teve em «Opera» - não imitando o estilo multifacetado dessa composição, mas adequando-a ao espírito mais conciso deste álbum). Cada música abre um novo mundo para quem a escuta, e os QUEEN, apesar de perderem aqui algum do fulgor explosivo de criatividade que explicava a magnificiência do álbum anterior, mostram que, afinal, ainda não perderam o "espírito" que os começava a caracterizar - e aqui temos mais um belo punhado de canções, que contam com letras e melodias da autoria de Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor (estes dois últimos com uma menor participação autoral, como quase sempre se sucede). O tom um pouco mais "ligeiro" deste disco não significa que o mesmo é mais inocente ou dispensável - muito pelo contrário. É que «A Day at the Races» tem um outro olhar, menos feroz, mas não menos crítico e brilhante, aos mesmos estilos e temas de «A Night at the Opera», que foram reinventados com mais instrumentos e inovações vocais e musicais. E é igualmente uma delícia para os melómanos.

«Tie Your Mother Down» é uma composição de May que já tinha sido criada há oito anos quando decidiram incluí-la neste álbum, como tema de abertura. E é óptimo: com grandes guitarradas (que se assemelham a uma das outras canções deste álbum), tem rock e blues e está exemplarmente elaborada. Tal como a mais "paradisíaca" e calma «You Take my Breath Away», uma magnífica invenção de Mercury, ao piano, onde ele fez algumas manipulações interessantes, colocando a sua voz a fazer vários trabalhos distintos, e o resultado é agradavelmente "arrepiante". O encanto continua pelo resto do álbum: desde as brincadeiras instrumentais inteligentes de May em «Long Away», com a peça composta por vários estilos e emoções que é «The Millionaire Waltz» e, para terminar o lado A do álbum, a misteriosa e fantástica composição de Deacon «You and I». E a abrir o lado B há essa pérola chamada «Somebody to Love», com as deambulações românticas de Mercury que serviram de identificação a inúmeros ouvintes apaixonados ou desiludidos nesse campo. 

Há depois a crítica social acertada e provocadora de May na densa e filosófica «White Man», e ainda a pequena grande pérola de Mercury, com de novo as suas brincadeiras excêntricas e nada banais, em «Good Old-Fashioned Lover Boy». De seguida ouvimos Roger Taylor a cantar a sua «Drowse», naquela que é a única canção mais esquecível deste disco - apesar de se notar uma certa inspiração interessante do baterista dos QUEEN. Por fim, há «Teo Torriate (Let Us Cling Together)», a homenagem de May aos fãs japoneses (que se tornariam uma parte essencial do culto que foi criado em redor da banda ao longo dos anos que esteve no activo - e na maneira como o legado artístico do quarteto continua, na posteridade, a fazer "eco". Encerra com a maior dignidade um álbum bonito e formidável, que com o tempo seria um pouco apagado, na sua totalidade, pelo mega-sucesso que teve «Somebody to Love», mesmo que essa seja uma das peças superiores deste disco. 

Mas «A Day at the Races» permanece, injustamente, como outra pérola desconhecida dos QUEEN, com ideias e invenções grandiosas que continuam desconhecidas, em detrimento dessas "partes" soltas que entraram mais depressa na cultura popular - por serem repetidas incessantemente pelas estações radiofónicas. E sim, quase todas as canções são notáveis (mesmo a inferior «Drowse» se consegue destacar em alguma coisa). Mas ainda assim, o álbum é "só" semi-perfeito, por se sentir que não há aquela linha de continuidade que fez com que «A Night at the Opera» funcionasse tão maravilhosamente bem. A mistura de elementos não é tão marcante, mas há algo na reverência que encontramos neste álbum que não deixa de ser fascinante. Cómica e ingénua, menos alucinante e "chocante", esta obra tem, mesmo assim, algo de mágico que evidencia, novamente, a diversidade de géneros e estilos artísticos que os QUEEN souberam manejar e recriar à sua maneira. E assim terminava o auge criativo da banda, pelo menos, na década de 70 - a seguir a «A Day at the Races» os QUEEN iriam partir para outros caminhos, que iremos descobrir daqui para a frente, que nunca se voltaram a igualar ao que fizeram neste díptico discográfico. Com mais ou menos sucesso conseguiram recriar a sua imagem ao longo dos anos, acompanhando as tendências de cada época. Mas enquanto alguns álbuns posteriores se tornaram algo kitsch, «Opera» e «Races» continuam fresquíssimos na sua energia bizarra e na sua originalidade musical, ainda impossível Hoje de ser ultrapassada ou inovada por novos artistas. 

* * * * 1/2

As Melhores Faixas: A contagiante «Somebody to Love», a lindíssima «The Millionaire Waltz», a poética «You Take My Breath Away» e a grande abertura de «Tie Your Mother Down».

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