segunda-feira, 28 de julho de 2014

Oito Vidas por um Título (Kind Hearts and Coronets) [1949]


Kind hearts are more than coronets,
And simple faith that norman blood.

É uma das comédias mais famosas e características do estilo que tornou a Ealing num fenómeno de culto, produtora de uma série de filmes tidos hoje como clássicos, que marcaram a História do humor e do Cinema britânico. Basta que nos relembremos do impagável «O Quinteto Era de Cordas» ou do curioso e satírico «O Homem de Fato Claro» para associarmos um tipo de comédia característico desse estúdio inglês, onde o nonsense, o disparate e a sociedade são denominadores comuns para a criação de alguns dos momentos mais hilariantes da Sétima Arte. E com «Kind Hearts and Coronets» formamos mais um elemento que todas estas três fitas partilham igualmente: Alec Guinness. Um actor que dispensa apresentações, mas cujo génio e versatilidade parece estar Hoje esquecido, em virtude da dimensão dos épicos de guerra e ficção científica onde que colaborou (referências como «Lawrence da Arábia» ou «A Ponte do Rio Kwai» são inevitáveis e indissociáveis, tal como a trilogia original de «Star Wars», obviamente), certamente mais famosos a nível comercial. Mas o talento de Guinness não se ficava apenas pelos grandes papéis mais sérios e graves que, parece, as pessoas mais gostam de lhe associar: há também a loucura. Sim, Alec Guiness era um homem louco, apesar de toda aquela aparência britânica, educada e polida. Essa veia para a maluquice ficou patente nestas e noutras comédias. Tanto na transformação incrível que «The Ladykillers», como no papel mais ingénuo, mas não menos apaixonante, da farsa de «The Man in the White Suit». E também, nas diversas figuras em que se desdobra nesta fita de Robert Hamer.


Isto não se trata de alguma novidade, porque desde a estreia original do filme que as oito personagens que Guinness interpreta foram sempre um dos pontos centrais da promoção comercial da obra. São pequenas participações completamente diferentes, e que representam os oito membros da respeitada família Ascoyne que o vingativo Louis (Dennis Price) pretende assassinar para devolver a honra à sua falecida Mãe (rejeitada  de forma total por estes seus familiares, devido a algumas complicações amorosas que não se coadunavam com a conduta permitida a indivíduos de tão elevada índole social), aproveitando ainda para conquistar um título nobiliárquico para si próprio. E apesar de Guinness ser uma das coisas mais surpreendentes de «Kind Hearts and Coronets» (a sua presença preenche sempre o ecrã de maneira notável, quer seja o capitão de um navio ou uma tia com já uma certa idade), há muito mais ainda para descobrir nesta comédia negra, muito negra, sobre oportunismo e assassínios numa receita que só o humor britânico seria capaz de cozinhar, numa obra perfeita na construção das intrigas, nas consequências dos actos do protagonista e nos diferentes meios sociais em que se envolve. É um filme de actores com uma realização simples, mas que se adequa totalmente às necessidades das interações entre as personagens, e a maior ou menor distância e cumplicidade que estabelecem umas com as outras.


Sátira à estrutura e conflito de classes, com uma visão mais negra e que transparece, nas suas muitas graças, uma desilusão frontal com a natureza humana e suas múltiplas transformações interesseiras e oportunistas, «Kind Hearts and Coronets» é uma das peças-chave da Ealing por não ser só uma comédia satírica. Porque quando a vingança se torna em sede de poder, os elementos narrativos ganham uma nova construção e uma pormenorização notável, que mostram como todo o puzzle bate certo, e como não são só as gargalhadas que estão em jogo. E se são fantásticas as oito personagens de Guinness (depois disto, o actor não precisaria de mostrar mais o seu génio criativo - mas felizmente, continuou a fazer filmes por mais umas décadas, proporcionando muitas outras belíssimas interpretações) e os planos maquiavélicos de Louis, contados num flashback que tanto pode deliciar como surpreender os espectadores, o ponto mais alto desta obra prima encontra-se na sobriedade do retrato do quotidiano inglês, e na conjugação que se faz entre a aparente perfeiçãozinha dos britânicos com os segredos fatais e os desejos obscuros que escondem, tão bem mascarados entre fachadas de conduta, educação e poder, numa crítica aos comportamentos dos estratos sociais mais elevados que não perdeu, ainda hoje, o seu potencial de ferir essas "susceptibilidades". Para quem pensa que as comédias clássicas são todas "iguais", revela não só um desconhecimento enomre da matéria, como também que não viu ainda este «Kind Hearts and Coronets» que é o completo oposto do estereótipo de "comédia clássica" perpetuado pelo senso comum e por certas mentes menos conhecedoras da Arte de fazer rir no Cinema. Porque é ácida, irónica, subtil e muito irreverente.

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