O Atirador (The Shootist) [1976]


- You told me I was strong as an ox.
- Well, even an ox dies.


E mesmo os mais valentes e corajosos anti-heróis dos filmes também não podem durar para sempre, tal como os seus tempos de glória e de saloons, poker e duelos ao meio dia: «The Shootist» foi o último trabalho da longa carreira de John Wayne, e começa com uma espécie de revisitação de alguns dos seus filmes anteriores, numa sequência inicial a preto e branco que utiliza esses excertos para construir uma cronologia que sirva à personagem que Wayne interpreta neste filme). É a história de um pistoleiro à beira da morte, que pretende passar os últimos momentos da sua vida com a maior dignidade que merece, ajustando contas com o passado - e enterrando consigo o próprio passado, e as memórias de uma época do Oeste que nunca mais voltou, mas que criou um imaginário eterno para a arte e cultura americanas. Don Siegel (o realizador de «A Fúria da Razão») assina esta humanização do protótipo de herói que, em vários filmes do género western, se assemelhava a uma entidade sobre-humana, indestrutível, imbatível e superior a qualquer "mísero" ser humano. Por isso, aqui essa "divindade" desce à terra e veste a pele ou capa de inferioridade, ou por outras palavras, de mortalidade. É curioso como, em plena década de 70 (quando os westerns na América já eram coisa do passado, ultrapassada e até esquecida por boa parte da população), alguém tenha querido "enterrar" de vez o género e a decadência crescente das suas personagens (vítimas da forma como a localização temporal das suas histórias começou a aproximar-se cada vez mais com o final do Velho Oeste e o princípio da nova era do progresso). Todos nós acabamos assim, a começar a perder as capacidades numa certa altura das nossas vidas, e Wayne não poderia ter dado outro ponto final mais relevante e curioso à sua vida artística do que com «The Shootist».


Este western estilizado para os anos 70 (nota-se isso principalmente pelo sangue colorido e vivo das cenas mais intensas) tem uma realização algo reverente de Don Siegel, que acaba por surpreender pela sua simplicidade e sensibilidade, filmando com a maior poesia a queda da importância dos mitos do Oeste, por causa da mudança que os tempos trouxeram ao funcionamento das cidades e dos meios de comunicação que as fazem funcionar. Porque se em «O Homem que Matou Liberty Valance», o mito começava a desvanecer-se com a chegada do comboio, em «The Shootist» esse transporte já é uma realidade vulgar, começando a surgir o automóvel (ou a "carroça sem cavalos", como lhe designa a personagem de Ron Howard a frames tantos da narrativa). E aí, a presença de alguém como J.B. Books (Wayne) numa cidade pacata e diferente dos outros tempos (onde os vestígios da vida da outra Era começam a desaparecer a pouco e pouco) tem um valor... museológico, quase arqueológico até. Toda a gente quer conhecer aquele que foi o "terror" de uma época distante e que quase nada partilha em comum com aqueles inícios do século XX. E a maior das curiosidades é esta: Wayne e Stewart voltam aqui a contracenar, e faz-se uma referência à última vez que se viram - há quinze anos atrás, mais ou menos a altura em que estavam a filmar o filme de Ford. As duas velhas lendas voltam a juntar-se e reflectem, com um tom ainda mais fúnebre que o do outro filme, os efeitos que a mudança teve no apagar dos tempos do passado. E se em «Liberty Valance», Wayne ensina a Stewart, o filho do progresso, como se deve disparar uma arma, em «The Shootist» o mesmo actor repete os seus inesquecíveis ensinamentos a um miúdo com já alguma experiência no assunto, mas que pertence já à geração posterior à de Stewart, onde o avanço para a modernidade já é uma realidade física e psicológica, e que ninguém pode evitar. E não deixa de ser triste, e bonito ao mesmo tempo, vermos tudo isto acontecer e contemplarmos, em cada cena, como Books está a morrer... e com ele, as memórias do velho Oeste.


Filme amargo de nostalgias e recordações, «The Shootist» tornou-se numa notável despedida de John Wayne do grande ecrã. Com um elenco de luxo (onde ainda encontramos outros veteranos, como a maravilhosa Lauren Bacall) e uma história básica, mas muito bem desenvolvida, de crimes, castigo e redenção, este é mais do que um mero western de Hollywood: é uma ode ao desaparecimento do género que, tal como o tempo que retrata, não conseguiu sobreviver totalmente à passagem do tempo (porque por mais ressurreições dos filmes de cowboiada que se ponham em prática, nunca se conseguirá chegar ao nível de produção industrial dos mesmos na era dourada do Cinema americano). Um formidável exercício de recuperação de uma linguagem e de um tipo de narrativa muito própria, através de alguns dos seus maiores protagonistas - que souberam captar como ninguém o espírito de "derrota" e de "submissão" do Velho Oeste em relação à modernidade.

* * * * 1/2

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