segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sementes de Violência (Blackboard Jungle) [1955]


Yeah, I've been beaten up, but I'm not beaten. I'm not beaten, and I'm not quittin'.


Para compreendermos a delinquência juvenil dos nossos dias, talvez não seja a melhor solução apoiarmo-nos em opiniões alheias, de indivíduos considerados especialistas académicos reconceituados da matéria, de pessoas saudosistas que constantemente dizem que "no seu tempo é que era bom", ou de qualquer outra fonte de informações que a comunicação social expreme até ao tutano, para ajudar a encher chouriços nas infindáveis coberturas que levam a cabo quando algum acontecimento menos agradável sobre a temática surge na actualidade noticiosa. Nenhuma dessas "fontes" será útil para conseguirmos (ou tentarmos) perceber onde é que se encontra a raiz desta rebeldia, que parece tão recente e nada comparável ao que fizeram outras gerações na mesma idade. Talvez o Cinema seja a resposta para todos estes problemas - ou pelo menos, com ele entendemos que, infelizmente, este tipo de delinquência não é de agora, porque acaba por se tratar da repetição constante de um ciclo de irracionalidade, maus comportamentos e ideias levadas ao ponto mais extremo dos extremos.


Os clássicos podem-nos ajudar: podem existir os rebeldes sem causa de Nicholas Ray em «Fúria de Viver» (que generalizou toda uma maneira juvenil de se olhar para o mundo), mas também há espaço para a perspectiva menos floreada, e mais realista e cruel, de «Blackboard Jungle», de Richard Brooks. A história não heroiciza os alunos, pelo contrário, mas o Professor (o "adulto" que era, na fita de Ray, tal como todos os outros, uma ameaça à liberdade dos jovens, em luta contra o sistema formalizado ao qual não queriam pertencer), num incrível e convincente volte-face da mesma situação social, que ganha outros contornos mais sombrios e, sem dúvida, perturbantes - o que está em causa aqui não é a rebeldia libertária à la James Dean, mas um outro tipo de rebeldia - em que a rapaziada apenas se intitula de "rebelde" porque tenta destruir tudo o que está à sua volta, através da força que um grupo (cobarde) de indivíduos tem contra um só. Eles também não têm causa, mas não têm qualquer intenção de se distanciar do futuro social que os espera. É a lógica das ditaduras, é a lógica dos totalitarismos orwellianos... e é, também, a lógica do grupo de miúdos difíceis e divididos, que se opõem constantemente ao Professor sem terem grandes razões para isso (já que Richard Dadlier tenta mudar o esquema das suas aulas para se aproximar o mais possível dos seus estudantes complicados) e lhe pregam mil e uma partidas (umas mais malvadas do que outras) para o tentarem derrubar, numa estratégia que, até então, sempre dera resultado com outras "cobaias". Mas Dadier não resiste tão facilmente - e o Cinema adora este tipo de protagonistas, os que se levantam contra a maioria. Mas o caso deste educador é igualmente diferente: ele está a lutar pela boa moral dos seus alunos, sem querer impor-lhes barreiras de pensamento.


Contudo, a barreira física é mais forte do que qualquer intenção filosófica, e o culminar da tensão de «Blackboard Jungle» consegue ser, para além de uma das cenas mais impressionantes do mais urbano classicismo norte-americano, um retrato ímpar que não se apagou com o tempo e que permanece assustadoramente autêntico - porque os grupos estudantis continuam a dominar a cultura juvenil (e as particularidades e talentos de cada um continuam como segredos bem guardados, porque podem destruir a força do grupo que os acolheu), porque o Medo continua a regular a sociedade, porque esta é uma lógica de ideias que passa de geração em geração. Richard Brooks não põe falinhas mansas na sua história, e Glenn Ford ainda menos, com a sua interpretação do persistente e implacável professor, homem pertencente ao sistema que sabe ser rebelde... mas pelas melhores razões. Se o objectivo do filme era, há quase sessenta anos, o de consciencializar as massas, através desta história (pouco) ficcional, para um problema real, ambientando-o na cultura dos primórdios do rock n' roll (que supostamente deveria trazer uma renovação das mentalidades) e do sucesso massificado da canção (a primeira do género a abrir um filme, ao que se sabe) que imortalizou a voz de Bill Haley. Hoje até parece mais chocante, porque se tornou mais facilmente concretizável nas vias urbanas contemporâneas, e no choque de culturas e "gangues" que encontramos em qualquer ambiente escolar menos perfeitinho e calmo. Na actualidade, ainda dá menos trabalho derrubar uma pessoa pelos seus pontos mais fracos, como tentam alguns dos miúdos adversários ao professor (enquanto outros, como o que é interpretado pelo fenomenal Sidney Poitier, começam a pouco e pouco a aproximar-se). E vendo isto numa perspectiva mais abrangente, ainda mais fácil é aplicar isto às massas e à vida política que as controla. Não deveríamos estar preocupados?


Os líderes continuam a liderar, erradamente, os seus discípulos ignorantes, numa rebeldia apenas aparentemente rebelde, que nada acrescenta à sociedade: apenas aumenta o grau de destruição em que esta se encontra. E a vitória da recriação social e cinematográfica de Brooks assenta nisso mesmo: por ser autêntica e nada poética, ou fácil, ou agradável. Assistimos à ruína de uma figura que deveria simbolizar a (boa) autoridade na sala de aula, mas ela acaba por ser comida pelos seus próprios métodos, enquanto os núcleos e submundos da juventude comunicam e preparam tantas e diversas façanhas para o combater. Mas esses miúdos só se protegem a si próprios e fecham-se do resto do mundo - mundo esse que, com o passar do tempo, acabará por devorá-los e fazer com que o ciclo formal continue, aproveitando essas "sementes" violentas que estes jovens carregam consigo. E não deixa de ser irónico que, mais de uma dezena de anos depois, Sidney Poitier faria o papel de professor numa história semelhante, em «To Sir With Love», trocando assim a posição de aluno influente e persuasivo pelo do educador submetido às ideias desconcertantes dos seus alunos. Mas «Blackboard Jungle» é um testemunho de uma época de mudança na América, mas também dos rastos do passado que continuam a ser assumidos como "novidade" no presente - e apesar disto não ser verdade, como a delinquência ganha cada vez mais força, face a uma fraca e frágil resistência por parte das várias entidades governamentais e institucionais, cada novo drama estudantil que faz correr rios de tinta dá uma nova dimensão a esta problemática. E o filme ajuda-nos a entender como é urgente corrigi-lo. Um grandioso exemplo do Cinema urbano e social feito pelos EUA, e uma lição de Técnica, Arte e Representação.

* * * * 1/2

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