Os discos dos QUEEN: Sheer Heart Attack [1974]


Ao contrário do que se sucede com os "terceiros volumes" no Cinema, em que os esperançosos no falhanço são sempre em maior número do que os mais positivistas (e/ou ingénuos), no mundo da música a continuidade de uma banda, ou descontinuidade, não se pode avaliar de uma forma tão redutora - porque não há nenhuma "história" que influencia todas as obras, mas um espírito artístico que pode ou não ser desconstruído, independentemente do número da "sequela" em causa. E por isso, há muito terceiros discos que parecem ser tão bons como os seus antecessores, ou até mesmo melhores, mas não é o facto de se tratar de um "terceiro" trabalho que consegue proporcionar uma expectativa prévia mais precisa quanto à sua qualidade. São disso exemplo os Beatles, com «A Hard Day's Night», os Pink Floyd e o controverso «Ummagumma», e também o fenomenal «Led Zeppelin III», da banda homónima... e claro, a esta lista de incontornáveis temos de acrescentar «Sheer Heart Attack», dos QUEEN.

É um dos discos mais bem construídos da banda, fluindo entre extremos musicais e imaginativos que o tornam um achado imperdível entre a longa discografia do grupo. Foi o álbum que definiu os QUEEN como um nome a seguir no mundo das constantes novidades musicais da cultura britânica, e eles conseguiram definir a sua individualidade no feroz mundo mainstream da música - e a canção responsável foi «Killer Queen», o single maior deste disco que, felizmente, tem muito mais para se descobrir. Todas as músicas diferem completamente umas das outras, mas nunca se perde um único fio condutor, o da irreverência e acutilância absolutamente surreais de uma banda em estado de graça - na fama e na criatividade. Das "Trevas" à "Luz", somos conduzidos, através de 13 temas sonantes e inesquecíveis, para um misto de loucura, preversão, "fofice" e inconformismo, para uma visão ainda mais profunda da psicologia QUEENesca. É um dos maiores feitos do grupo, que chegou aqui a um patamar que conseguiria manter por outras ocasiões. Mas «Sheer Heart Attack» deu um novo impulso a uma banda que há muito tempo queria ganhar o seu próprio espaço, e a rebeldia reflectiu-se na criação desta que é uma das obras capitais do quarteto. Entre «QUEEN II» e este álbum, sentimos que eles mudaram: cresceram e trouxeram um punhado de ideias novas e enérgicas, muito por "culpa" do espírito que começam a captar nos primeiros (e muito concorridos) concertos ao vivo.

Abre com «Brighton Rock» e os seus estranhos sons iniciais (captados numa espécie de feira popular, onde reina a animação, o pandemónio e a cacofonia). Pode compartilhar o título com o do livro de Graham Greene (e a adaptação cinematográfica de John Boutling), mas aqui a história (numa letra muito bem escrita) é de amor, contada numa anarquia sensorial pelas guitarradas intensas e provocantes e pela voz multifacetada de Freddie Mercury. Uma grande música (uma das melhores aberturas de um álbum dos QUEEN), e nenhuma outra poderia ser melhor para dar início a esta jornada que nos espera. Uma explosão de sentimentos, garra, instintos e vivacidade que caracteriza todo o disco e cada uma das suas componentes - como a música que se segue, «Killer Queen», a faixa mais orelhuda do disco e a imposição total do mix característico de estilos e referências que a banda mais gostava de reinventar neste período criativo. Mas não é só na voz em Mercury que encontramos a magia dos QUEEN: Roger Taylor volta a surpreender nessa área com «Tenement Fuster», uma inesperada composição demolidora, mas não menos bonita, poética e "roqueira" e que permanece como mais um dos (vários) tesouros escondidos do grupo.

As ideias agradavelmente loucas e descabidas da escrita de Mercury continuam a marcar a continuidade do disco, e a forma como ele nos agarra. Nas duas canções seguintes, a épica e diabólica «Flick of the Wrist» (que possui uma impecável construção narrativa) e a harmoniosa, paradisíaca e sobrenaturalmente operática «Lilly of the Valley», é o que testemunhamos em todo o seu esplendor - mas neste álbum há espaço para tudo e todos, e nada falta a este trabalho dos QUEEN. E se «Now I'm Here», de Brian May, é um tema mais ligeiro, mas não menos merecedor de descoberta, «In the Lap of the Gods» e sua não-continuação, na última faixa do álbum, «In the Lap of the Gods... Revisited» (porque entre ambas a semelhança não vai muito mais para além do título) mostram ser percursoras de outros temas memoráveis e inigualáveis do grupo, como «Bohemian Raphsody» e «We Are the Champions». A primeira é (mais) um devaneio majestoso, dramático, crescente e muito complexo, elaborado e labiríntico, e a segunda é nada mais nada menos que a entrada dos QUEEN para o reino dos Deuses e do poder que eles emanam. Incrível? Sim, mas entre elas há ainda algumas pérolas, maioritariamente curtas, que aumentam também esse lado muito pouco vulgar, como a melodia louca de «Stone Cold Crazy», a magnificência de «Dear Friends», o lado mais tosco e mais pop - mas não menos QUEEN - de «Misfire», a euforia fenomenal e a ainda maior bizarria de «Bring Back Leroy Brown», e por fim, a música de redenção «She Makes me (Stormtrooper in Stilettos), onde May nos conta a "experiência" de elevação aos Céus a que os quatro músicos foram "sujeitos", e que se reflecte, depois, em «...Revisited», com um poderoso e divino tema de encerramento.

«Sheer Heart Attack» é o disco que confirma os QUEEN como uma banda sem limites, um grupo que não tem nenhum ponto fraco ou alguma coisa que não saiba fazer ou reconstruir. Porque se dúvidas havia da genialidade da banda, o terceiro disco fez com que a maioria delas desaparecesse, neste compêndio dos anjos e demónios que povoam o imaginário surreal de Mercury, May, Taylor e Deacon. Os QUEEN dão assim os primeiros passos para a imortalidade, investigando tendências e radicalidades que os levariam a novos mundos em outros álbuns. Um dos discos mais insólitos e duradouros da banda, e que tem tudo lá dentro: o amor, a vida, a morte, a loucura e outras coisas mais, que combinadas como estão nestas 13 faixas, criam um disco inacreditável - e ainda, insuperável.

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As melhores faixas: entre tanta coisa boa, a escolha revela-se difícil. Mas destacam-se não só o grande single «Killer Queen», como também «Tenement Funster», «Flick of the Wrist» e «Lily of the Valley»... e todas as outras, claro.

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