sábado, 21 de junho de 2014

Os discos dos QUEEN: QUEEN II [1974]


O maior mal de «QUEEN II» encontra-se na forma como foi relegado ao esquecimento e à subvalorização. Porque não é um mau álbum, muito pelo contrário - e o culto que a ele se tem prestado desde o seu lançamento comprova isso mesmo. A crítica foi menos simpática para com este álbum, mas o tempo veio trazer-lhe justiça. E mesmo que não possua a frescura do trabalho de estreia (e aquele espírito e entusiasmo equivalente ao dos caloiros que acabam de chegar ao mundo universitário), em «QUEEN II» conseguimos ouvir alguns dos temas mais inspiradores da banda, e que podem alterar totalmente a imagem generalizada  e massificada que se criou à volta do quarteto. 1974 foi um ano dedicado à criatividade e às experiências (depois deste disco, que com a música «Seven Seas of Rhye», ao ser exibida no programa «Top of the Pops», possibilitou um arranque maior para a fama da banda, que acabaria por dar origem ao fervilhar explosivo de ideias do outro álbum que fizeram nesse ano, «Sheer Heart Attack»), algumas mais bem conseguidas do que outras, que os QUEEN tentaram levar, incansavelmente, a bom porto. E em «QUEEN II», escutamos muitos grandes experimentalismos musicais, e também outros que não correram tão bem - mas que não deixam, por isso, de ser merecedores de atenção.

A capa de «QUEEN II» tem uma das imagens mais icónicas do grupo (que seria utilizada, depois, noutras ocasiões, como no teledisco da fantástica «Bohemian Raphsody»), e o disco revela-se também como uma obra conceptual: em vez do tradicional Lado A e B, o vinil foi dividido entre Lado Branco e Lado Negro. O primeiro tem músicas mais emocionais, e o segundo joga tudo nas extravagâncias mais ou menos exequíveis da criatividade fantasiosa de Mercury - e que, em certos momentos, revela ser muito sombria. O Negro parece ser o lado mais conseguido (ao nível do alinhamento e da continuidade entre faixas), mas todo o disco é digno de nota: começando pela entrada tenebrosa e macabra de «Procession», tema puramente instrumental e (curiosamente) acidentado, podemos ter já como ponto de partida aquilo que nos espera ao longo de todo o álbum: um trabalho com altos e baixos, onde os primeiros são mais presentes (felizmente). A música seguinte, «Father to Son», mais bonita e contida, mas também rebelde, reflecte a mistura de tendências (varia muito entre géneros, nunca consegue ser apenas uma "coisa"). «White Queen (as it began)» é uma das duas grandes pérolas do lado branco do álbum, juntamente com «The Loser in the End» (um tema contagiante, com rock puro e duro, cantado por Roger Taylor). Uma música constantemente em reinvenção, introspectiva, profunda, e uma das peças fundamentais do puzzle imaginário do disco, e da extravagância peculiar da banda. Já «Some Day, One Day», de Brian May, que se encontra entre estas duas músicas, não é mais do que uma espécie de sequela de «White Queen», mas perde-se no esquecimento do ouvinte.

O "black side" começa com «The Ogre Battle», uma música demasiado bizarra para ser apreciada - porque dentro das extravagâncias dos QUEEN também há limites para o suportável. E com «Funny How Love Is», estas são mais duas músicas menos apreciáveis da obra. Mas para compensar, há «The Fairy Feller's Master», que revela os sonhos de Freddie Mercury em todo o seu esplendor, numa composição completamente lunática; ouvimos ainda a pequena-grande pérola «Nevermore»... mas a outra canção maior desde lado, e até de todo o disco, acaba por ser «The March of the Black Queen», uma ópera sumptuosa que se sobrepõe a todas as maiores excentricidades do corpo artístico do disco, e mesmo àquele que foi o único "hit" do álbum, responsável por abrir um novo caminho para os QUEEN: a agradável e orelhuda canção «Seven Seas of Rhye», versão final da música cujo primeiro demo, mais curto e unicamente instrumental, encerrou o primeiro disco. 

«QUEEN II» não é como o seu antecessor, e tal como as boas sequelas, consegue distanciar-se em termos de qualidade e sai vencedora das conquistas criativas que tentou alcançar. Contudo, talvez seja por isso que continuam as falhas: ao quererem demarcar-se daquilo que gravaram anteriormente, os QUEEN acabam por cair nos mesmos erros que constroem mais um álbum imperfeito, mas cheio de bons momentos musicais. Disco experimental, frenético e desconcertante, com mais rock e surrealismo que o disco de estreia, as críticas maioritariamente negativas atribuídas na época pela elite especializada não influenciaram o pequeno culto que a banda estava a criar, a pouco e pouco, e com o passar dos anos, o álbum foi reavaliado e hoje é considerado uma pérola. E mesmo com todos os defeitos, tem sonoridades inesquecíveis e multifacetadas. Deixa menos para dizer, este segundo trabalho da banda, mas mereceu mesmo ser desenterrado do injusto esquecimento que lhe foi conferido. Continuava assim a busca atribulada dos QUEEN por um lugar de topo na cena musical dos anos 70. Voos e sucessos mais altos seguir-se-iam em breve, mas aqui estão também patentes as ideias primordiais de muitos dos grandes êxitos que marcariam álbuns e épocas criativas posteriores. 

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As melhores faixas: o mistério musical patente em «The March of the Black Queen», os delírios de «White Queen (as it began)», o poder inesperado de «The Loser in the End»... e inevitavelmente, «Seven Seas of Rhye».

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