sábado, 14 de junho de 2014

Os discos dos QUEEN: QUEEN [1973]


O álbum de estreia dos QUEEN pode ser descrito de mil e uma maneiras, mas a palavra "típico" é a única que não deve ser mesmo utilizada. É uma nova banda a marcar o seu território, definindo-se com uma multiplicidade de talentos e marcas estilísticas que a acompanhariam nos trabalhos vindouros. De facto, apesar de reflectir as tendências musicais da época do seu lançamento (encontramos algumas marcas de heavy metal e de rock progressivo - este segundo estilo seria uma constante em toda a discografia do grupo, mesmo em alguns dos seus álbuns mais "pop", que se recorde o caso de «The Works», 1984), é totalmente um álbum QUEEN, repleto das suas peculiaridades e pérolas inconfundíveis. O álbum segue em crescendo, surpreendenda a cada música (pelas mais diversas razões), não dando ao ouvinte o que ele está à espera - e se isto, na atualidade, se trata da maior das verdades, imagine-se o efeito que teve naqueles que, em 1973, descobriram esta sonoridade. Gerou falatório, foi um grande êxito de vendas, tanto no Reino Unido como nos EUA, e não poderia ter sido um melhor pontapé de saída para o grupo. E que ninguém se engane - aqui não há mesmo sintetizadores!

Começa da forma mais entusiasmante possível, graças a «Keep Yourself Alive», que se tornou o grande single a sair deste primeiro álbum. É a melhor maneira de os desentendidos e os curiosos perceberem quem são, afinal, os QUEEN. Foi a forma da banda afirmar-se e dar um cheirinho daquilo que poderia ser capaz. Com este tema de abertura o grupo mostra aquilo que está disposto a proporcionar aos seus ouvintes, dando a entender que poderão esperar tudo e mais alguma coisa das faixas que se seguirão. Mas lá no fundo, e apesar da diversidade de estilos e ideias que o disco carrega,  as grandes guitarradas tão presentes na maioria das faixas acabam por nos fazer perceber que, nesta fase embrionária da banda, os seus elementos queriam, nesta sua salada de frutas extremamente rica e variada, que o rock não deixasse nunca (mesmo com todas as salganhadas possíveis e imagináveis) de ser o elemento principal.

E é isso que presenciamos, à medida que acompanhamos a evolução mais ou menos equilibrada do álbum, entre canções que foram compostas antes ou depois da formação dos QUEEN (o tema que se segue ao primeiro é «Doing All Right», que Brian May escreveu, juntamente com Tim Staffell, quando ainda estavam formados os Smile e Freddie Mercury ainda não tinha dominado a conjuntura). Mostrando um espírito revolucionário e irreverentemente "barulhento" em certas ocasiões, que causam os melhores momentos do álbum (como é o caso da excepcional, mas esquecida, «Great King Rat»), «QUEEN» é o início da evolução estilística do grupo e da criatividade muito própria que os caracteriza, muito assente na reinvenção de géneros musicais e no poder assumidamente épico que assumem as canções mais singulares, criando "mixes" de sons e de ideias que acabariam, também, por estar na génese de pérolas posteriores, como «Bohemian Rapshody» e o caos interplanetário de «Innuendo». Essa criatividade QUEEN é também marcada pelos sonhos dos seus membros, que influenciam os "disparates" (no melhor sentido do termo) de muitas das suas composições (ouça-se com atenção a letra algo anárquica e fantasiosa que Freddie Mercury escreveu para «My Fairy King»), ou a consciência social e filosófica de tantas outras (exemplo disso é «The Night Comes Down», uma canção com algum interesse, que possui uma letra melancólica e até, em parte, existencialista, de Brian May, cuja sonoridade me faz recordar os ambientes dos melhores "films-noir") e ainda, o lado desconcertante e, por vezes, chocante (para a época) da maior parte delas («Jesus» é mesmo sobre Cristo e o impacto da personalidade numa sociedade que não o quis compreender)..

«QUEEN» é o lado irrequieto e quase "hiperactivo" de um grupo que, para a época, se revelou bastante promissor - mesmo que nem todas as críticas ao álbum tenham sido das mais favoráveis, acabaram por conseguir criar um público fiel e seguidor que não pararia de crescer a cada novo álbum lançado. Mas ainda havia algumas pontas soltas por acertar, e sentimos isso quando escutamos, na contemporaneidade, o álbum na íntegra: acompanhando uma mão cheia de grandes músicas estão outras que, parece, não servem para mais nada do que encher espaço (a versão de «Seven Seas of Rhye» que encerra o álbum não é mais do que uma versão instrumental e não concluída daquele que viria a ser um dos singles do álbum seguinte). Mas é inevitável, os QUEEN conseguiram o que pretendiam: ao terminar o álbum ficamos com vontade de ouvir mais, e temos pena que tudo tenha acabado. E para todos aqueles que se entusiasmaram com este bom disco de estreia (mas que tem, inevitavelmente, as suas falhas), os QUEEN acabariam por compensar as falhas do seu primogénito nos avanços que concretizaram nas obras posteriores. Porque poucas são as bandas que acabam por arrancar com um poder tão marcante e demolidor como este quarteto. Eles conseguiram marcar o seu território... e a partir daqui, a fama e a aclamação nunca mais cessariam.

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As melhores faixas: A energia de «Keep Yourself Alive» e a potência aparentemente desprezível de «Great King Rat».

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