Difamação (Notorious) [1946]


A man doesn't tell a woman what to do. She tells herself.

O que é que atribui a «Notorious» um valor superior que não conseguimos igualar em nenhum outro filme de Alfred Hitchcock? Ou por outras palavras: o que é que tem este Hitchcock que os outros Hitchcocks não têm? E esta dúvida poderá ser ainda mais vaga se soubermos que, nesta sólida história de amor triádica, é impossível encontrarmos o suspense sufocante de «Vertigo» ou de «Shadow of a Doubt», ou as grandes reviravoltas envolvidas em mistério e aventura de «North bu Northwest» e «Strangers on a Train». Ao contrário destes e doutros títulos hitchcockianos, «Notorious» será, talvez, um dos filmes mais "calmos" e contidos do realizador... aparentemente, claro. Não foi por acaso que esta se tornou numa das obras mais famosas do Mestre do Suspense (que aqui trabalha esse mesmo suspense através de um caminho mais peculiar). Além da excepcional fotografia (e a utilização que a mesma faz do espaço e dos actores - que se vejam atentamente as formidáveis sombras e a maneira como a luz é aproveitada), Hitchcock conseguiu, com esta fita, um outro bónus: o de conseguir reunir três enormes actores e desmascarar as suas "personas" cinematográficas através de uma história invulgar, que utiliza com grande audacidade os elementos básicos do romance hollywoodesco para lhes proporcionar uma nova vida e contornar as vulgaridades da época em que foi feito. O romance de espionagem e de convulsões emocionais assenta como uma luva a Cary Grant (menos cómico e mais introspectivo, e por isso, mais impressionante), Ingrid Bergman (que toma uma postura menos ingénua e mais feroz e trágica) e Claude Rains (o eterno secundário de «Casablanca» e «Mr. Smith Goes to Washington» que revela mais uma de várias facetas interpretativas), e em tudo, apesar de não parecer, podemos ver como Hitchcock quis inovar - aqui, sem precisar do efeito de choque que mais o caracterizou nos outros filmes citados, por exemplo. Não só as "performances" como os efeitos e os geniais planos de câmara deitam o espectador para uma incerteza constante, numa construção narrativa e cinematográfica que foi fruto da sua época. Marca uma nova fase na evolução criativa de Hitchcock, e foi filmado e realizado no tempo e lugar certos.


O filme centra-se na tensão amorosa que rodeia os dois protagonistas, nunca perdendo a ironia típica das melhores obras de Hitchcock. Mas o realizador nunca foi tão negro e, ao mesmo tempo, tão suave como em «Notorious»: a sua realização é fatalista, como fatal acaba por ser o destino das 3 personagens, em que Grant e Rains entram num jogo de ilusões amorosas e numa disputa pelo amor da mulher interpretada por Ingrid Bergman. E a escada, claro está, é também uma das figuras centrais da história, pelas melhores e piores razões. Pode parecer mais quieto e introvertido, mas no final, acaba por ser tão ou mais brutal com os pequenos movimentos que executa (através da elegante manipulação da câmara) do que na maioria dos seus outros grandes filmes. Talvez ele aqui estivesse mais atento a todo e qualquer pormenor, e conseguiu aproveitar todas as coisas que fazem desta uma obra singular na produção clássica norte americana - e mesmo, também, um filme atípico entre as produções da RKO. É uma lição de Cinema, de narrativa e de técnica, e uma daquelas provas maiores de que esta é uma Arte completamente distinta das outras canonicamente consideradas como tal. Porque se trata de uma obra prima que eleva as vidas da ficção a um novo patamar de maravilhamento: Hitchcock criou aqui verdadeira poesia.


Com sarcasmo, mistério e formidáveis marcas de film-noir, «Notorious» pode ser um filme menos frenético e movimentado de Alfred Hitchcock, mas não é por isso que deixa de ser uma das suas obras mais fascinantes, perturbadoras e nada convencionais, que consegue chegar ao nível que poucos filmes, os melhores, conseguem. É uma obra que inspira e expira autêntico Cinema, contrariando as ideias feitas facilmente associadas ao Mestre do macabro, da mentira, da desconstrução visual e sensorial e do inesperado que está presente em cada esquina. «Notorious» é a queda de uma mulher, a paixão de um homem e a decadência social e emocional de outro. Um filme que nos prende desde o primeiro instante e que só nos deixa escapar no último frame de todos. No desfecho, ficamos entusiasmados: só os grandes realizadores sabem dar a volta a uma pequena história de amor e política que poderia ser apenas "mais uma" entre o manancial industrial de Hollywood. Mas não, Hitchcock soube dar a volta, tal como os seus fantásticos e inesquecíveis actores. Um grande filme, maior do que a vida e maior do que as emoções.

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Comentários

  1. Um dos filmes onde Hitchcock mais brinca com o "eu sei que tu sabes que eu sei..." que é afinal o motor de todo o enredo, nos vários níveis de que falas. E também um exemplo do gosto de Hitchcock em brincar com triângulos amorosos completamente invulgares. Um filme para ver e rever. :)

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