sexta-feira, 2 de maio de 2014

Uma história inédita para o 5.º aniversário

E eis aquilo que eu preparei, como presente para os leitores da Companhia das Amêndoas: venho aqui revelar-vos um pequeno conto que escrevi em 2011. É um devaneio puramente non-sense, que me ocorreu de repente quando estava nos computadores da biblioteca do Rainha D. Leonor, sem nada mais para fazer. Não é nada de mais, mas é uma curiosidade que eu continuo a achar patética, mas que, acho eu, faço bem em partilhar - até porque não sabia que mais é que eu podia preparar para este aniversário. Para verem como, pelo menos desde esse ano, continuo apatetado, tal qual em 2014. As únicas coisas que alterei ao texto original, que só conservo em papel (portanto sim, tive de o passar na íntegra para aqui), só passaram por questões de pontuação. Por isso, desculpem se a escrita está mais mediocre que o nível de mediocridade a que vos consegui habituar ultimamente. É só para preservar o espírito original da coisa. E sim, isto é parvo até dizer chega, começando logo pelo título. Mas aqui fica este rebuçadinho especial, só para vós. Cá vai:

A vida de Reginaldo Teles

Ou

Um conto sobre ódio que reflecte a idiotice do seu autor

Reginaldo Teles era um homem detestável: não havia sequer uma única pessoa em todo o planeta Terra que fosse do seu agrado, odiando tudo e todos de maneira igual. Poderia fazer chuva ou fazer sol, e mesmo que aquele dia em particular fosse sinónimo de alegria para Reginaldo, ele agia de maneira igual aos outros dias da sua vida, não conseguindo evitar expôr o seu grande defeito pecaminoso de vilipendiar todo e qualquer ser que com ele se cruzasse.

Alguns apontavam a origem desta maleita psicológica à ascendência de Reginaldo. Um seu tio-avô, o conhecido Casimiro Teles, conde do Vale da Pantomineira, ficou na História dessa aldeola por acordar sempre mal disposto, tendo ocasionalmente vontade de mandar algum dos seus criados para o espeto que assava os leitões nos sábados de Agosto. Felizmente, o protagonista desta nossa historieta nunca chegava a ter essa necessidade obscura, mas detestava toda a gente. E isso é algo ruim, também.

Por causa deste defeito, Reginaldo foi sempre um indíviduo propício a causar sarilhos por todos os sítios onde deixava a sua "marca". Na escola primária, por exemplo, foi expulso dois dias depois de ter apontado o conhecido e reconceituado "dedo-do-meio" ao reitor do dito estabelecimento. Se pensarmos que isto ocorreu em plena década de 50, sim, trata-se de coisa grave. Hoje a criançada anda à pedrada nos intervalos que supostamente seriam para ingerir sumitos e pão de leite, e ninguém se importa. Mas não nos desviemos do relato, já que este humilde narrados não pretende afastar-se do essencial (ou algo que possa ser assemelhado a tal conceito). As tropelias do então gaiato Reginaldo foram-se sucedendo, e só teve a verdadeira oportunidade de ser instruído quando os seus Pais se aperceberam que, após o filho ter passado por mais de vinte e muitas escolas em menos de três meses, que mais valia o Naldinho ser ensinado em casa, com os parcos conhecimentos que os progenitores poderiam dar ao filhote. Cresceu, aprendeu a ler, a escrever e a fazer contas, nunca deixando o seu vício de odiar o próximo, algo que nunca podia evitar nem mudar, mesmo que quisesse. Aos catorze anos, e já no princípio dos anos 60, Reginaldo decidiu sair da alçada dos paizitos e embarcou numa aventura à descoberta de si próprio e do resto, seguindo as pegadas da cruzada que o seu herói (odiável, claro) de infância, Adolf Hitler, tinha feito há muitos anos (uma experiência que, digamos, não correu lá muito bem para a popularidade do dito cujo, mas por isso é que Reginaldo o conseguia odiar um bocadinho menos que todos os outros seres humanos, pois o Dolfinho também, tal como ele, queria fazer todo o possível para tornar o ódio a palavra de Ordem da sua sociedade).

Não foi bem sucedido, e viveu durante oito anos a disparatar na Avenida 5 de Outubro, a troco das moedas que as pessoas lhe deixavam, caso achassem ternurenta a sua veia de ódio. Talvez alguns dos queridos leitores lembram-se desta figura mítica, que sempre que afirmava que odiava o indivíduo que estava a passar por si - embora não o conhecesse de lado nenhum -, conseguia criar um divertimento que juntava famílias e amigos em agradáveis passeios de fim de tarde por Lisboa. Ao fim dessa longa temporada, Reginaldo apercebeu-se como, à conta do seu "show" odiavelmente improvisado, tinha conseguido angariar uma quantia considerável de dinheiro, podendo assim concretizar o seu plano maior e mais apetecível: ir abominar para o estrangeiro, nos quatro cantos do globo.

Reginaldo passou os quarenta anos seguintes à sua partida, em Janeiro de 1970, a aborrecer e importunar indivíduos de diversas línguas e dialectos. Aprendeu inglês, francês, espanhol, alemão, chinês e um sem-número de idiomas onde se destaca também - imagine-se! - o açoriano da ilha de São Miguel.

Já em 2010, com meia idade e mais detestável do que nunca, Reginaldo decidiu regressar às origens e ao seu cantinho na 5 de Outubro - porque sim, durante quatro décadas, ele prosseguiu o seu trabalho de saltimbanco do Mal por todos os países por onde passou. Chegado a Lisboa, ficou surpreendido: o seu habitual cantinho onde, há tantos anos, muitas pessoas encontravam o seu espaço de entretenimento diário, estava agora a ser ocupado por uma banda africana com toques de Nova Zelândia, que se afirmava como uma mistura inovadora de muitos sons e estilos musicais, nomeadamente jazz, tango, pop e o corridinho. Reginaldo sentiu uma explosão de ódio mais intensa e diferente de tudo o que alguma vez tinha experimentado antes e, bastante furioso e momentaneamente irracional, começou a andar em direcção a uma passadeira sem saber bem o que estava a fazer. Não olhou para a estrada, e acabou por falecer nesse dia, atropelado por uma Vespa azul escura, que ia anormalmente veloz para aquela hora do dia.

Há quem diga que a última frase proferida por Reginaldo foi "Odeio motorizadas, pá!", mas talvez isto não seja mais do que um mito. Agora, se perguntarem ao narrador se esta história é fictícia, ele responder-vos-á que sim. Mas há muitos seres que andam por aí e que possuem as mesmas características desta vil e manhosa figura imaginária. Tenhai cuidado, amigos leitores, muito cuidado. Reginaldos Teles é coisa que nunca faltou em Portugal e arredores.

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