sábado, 24 de maio de 2014

TV: Reviver o Passado em Brideshead (Brideshead Revisited) [1981]


Talvez seja difícil compreender que houve um momento, na História da televisão, em que uma narrativa calma, lenta e isenta de 'suspense' e de reviravoltas como «Brideshead Revisited» conseguiu ser um dos maiores fenómenos da cultura popular - e para alguns estudiosos, tornou-se, nos Estados Unidos da América, no maior sucesso com raízes britânicas a chegar ao país desde os Beatles. Foi uma série que abriu caminho para outras produções do mesmo género, adaptações fidelíssimas de clássicos da literatura inglesa, facilmente reconhecidas pelo cuidado das reconstituições históricas e literárias e pela singularidade dos actores que a interpretam. Uma dessas séries, todas produzidas pela Granada (que se tornou especialista neste género único de se fazer televisão), por exemplo, foi «As Aventuras de Sherlock Holmes», e todas as variadíssimas sequelas que revelaram o actor Jeremy Brett na pele do detective, naquela que é vulgarmente considerada como a melhor recriação alguma vez feita das histórias policiais de Sir Arthur Conan Doyle. Mas é preciso fazer uma distinção entre estes ditos dramas "de época", e todos aqueles que hoje em dia preenchem o espaço criativo de várias estações: é que exemplos como as produções da Granada da década de 80 mostram que, para além de se querer mostrar um estilo decorativo histórico (onde as séries actuais preferem empenhar-se mais), havia também uma história para contar. E não se tratava de uma história qualquer.


E o caso de «Brideshead Revisited» é ainda mais peculiar: trata-se da adaptação do romance homónimo de Evelyn Waugh (que considerava a sua obra prima), escrita em 1945, que retrata o percurso de vida de Charles Ryder (na série, Jeremy Irons), o protagonista que está, ao longo de toda a história, ligado à mansão de Brideshead e às pessoas que nela habitam. É um romance marcante na literatura europeia do século XX, e um marco cultural e histórico que ainda hoje se lê com deleite e encanto. Nele, Charles acompanha as alegrias de umas e a ruína e decadência de outras, que acabam, tal como as paixões, por influenciar todo aquele pequeno núcleo familiar que parece estar afastado do resto do mundo real, tal como mostram os seus membros - desde Sebastian Flyte (Anthony Andrews), o amigo de Charles que acaba por perder-se no meio de dúvidas existenciais e de más escolhas pessoais, passando por Julia (Diana Quick), a irmã de Sebastian, pela qual Charles se apaixona, entre tantas outras figuras insólitas. Ryder recorda todos os momentos que passou com aquela família, os dramas, as tragédias, os reencontros e distanciamentos, que se reflectem na forma como as mudanças trazidas pela sociedade afecta a instabilidade, inocência e ingenuidade da família, e na maneira quase obsessiva e descontrolada que os dogmas religiosos têm para controlar as mentalidades frágeis e perturbadas destas personagens. Ryder observa e relata tudo, como um espectador que se afasta daquilo que está a contar, mas que no fundo, nunca conseguirá, ironicamente, deixar de fazer parte das vidas destes "outros" que pouco ou nada têm a ver com ele. Por mais que ele se revolte contra o universo em que está inserido e contra as ideias fanáticas e irracionais dos Marchmain, a pouco e pouco, acaba também por se tornar num "deles".


O método televisivo de «Brideshead Revisited» é notável: tudo foi milimetricamente pensado e planeado, com o objectivo de tornar o mais fiel possível a linguagem televisiva aos propósitos da obra literária e das suas características muito próprias - e aparentemente, intransponíveis para outro meio. E sendo, para os nossos dias, uma série que tem uma grande lentidão narrativa (não vale a pena esperar por clímaxes, anticlímaxes, 'cliffhangers' ou de outros mecanismos que façam com que o espectador se vicie nesta história e mantenha o interesse nela), não deixou de ser, contudo, passados mais de trinta anos, um objecto exemplar de inovação comunicativa. E, apesar dos grandes luxos da trama, não vemos grandiosidades na mesma, porque a série mantém-se fresca e genial graças à simplicidade com que foi filmada e interpretada. Até aos mais pequenos detalhes (alterando apenas num ou noutro aspecto a linha cronológica do livro), a adaptação presta um culto total à obra de Waugh e a toda a crítica sociológica e filosófica que a ela está associada. A série foi feita de uma maneira específica, sem olhar a esticanços desnecessários que, na maior parte dos produtos televisivos, parece ser a maior moda, permanecendo eles no ar por tempo indeterminado só porque os argumentistas magicaram algo que, pensam eles, conseguirá manter o interesse da história que querem contar. Parece que, tanto nos anos 80 como no nosso tempo, muita narrativa se resume a prender as audiências sem que estas se apercebam verdadeiramente daquilo que estão a ver. «Brideshead Revisited» pede paciência a quem quiser entrar neste mundo... porque depois, os espectadores acabarão por sair muito recompensados. Feita de uma forma exemplar, adaptando, com mestria e respeito, um dos livros maiores do século XX, continua a impor-se como uma das séries mais importantes de sempre, e permanece como um objecto de vasto culto internacional - mesmo que tenha a esmagadora concorrência americana sempre a aparecer, uma cultura televisiva que cria popularidade graças a várias e desinteressantes séries que tendem a ser repetitivas e exageradas em muitos casos (felizmente que há excepções - e de vez em quando ainda apanhamos com algo de completamente diferente vindo dos 'states').


Conhecer a mansão e todas as histórias que esta esconde é uma boa maneira para aprofundar o nosso conhecimento sobre um povo e toda a sua cultura, assente em valores genealogicamente nobres, mas humanamente dramáticos, cinzentos e sarcásticos. E a série está tão detalhada e precisa, no seu retrato de  nostalgias, costumes e de toda uma disposição existencial única e exclusiva dos britânicos, que mais parece ter sido realizada pelo próprio Evelyn Waugh! É uma reflexão poética sobre uma sociedade anonimamente aborrecida e constantemente deprimida consigo própria e com as mudanças que sente, devido à alteração das "vontades" de governos, gostos, modas, Instituições, etc. Porque o snobismo tipicamente inglês persiste - mas ele não é mais do que uma fachada, enquanto o país sofre uma série de mutações que põem em causa os seus valores ancestrais e a própria nobreza que fez a Inglaterra crescer... e a evocação da guerra acaba por fazer uma bonita comparação aos desastres psicológicos e decadentes da família, envolvida nesse manto de hipocrisia perpetuado pela vida social que os seus membros cultivam. Lindíssimos são ainda os valores de produção da série, a inesquecível banda sonora, e o impecável elenco que soube transformar as figuras imaginadas por Waugh naquilo que o autor tinha exactamente imaginado, sem deixarem, contudo, de darem o seu contributo para as personagens a quem emprestam corpo e voz. Excepcional é, por fim, o confronto entre classes, religiões (ou falta delas) e filosofias de vida, que causam ainda mais rupturas e contradições entre o protagonista e as várias pessoas com quem se encontra. E este é daqueles casos em que vale a pena ler o livro e, quase ao mesmo tempo, acompanhar a série - os 11 episódios estão quase divididos pelas partes da obra, salientando muito bem os pormenores e brilhantismos de cada uma. 


«Brideshead Revisited» é um programa de televisão que revolucionou a própria televisão por ter características que não se adaptavam, realmente, ao que era mais procurado pelas produtoras e pela maioria do público da caixinha. Mas criou um impacto inigualável - e pode ter sido por isso mesmo, por não ser uma série apressada (muitos devem ficar pasmados ao verem quanto tempo se dão a acontecimentos aparentemente inúteis em cada um dos capítulos da história), que dá tempo para os personagens pensarem nas coisas que estão a dizer, filmando magnificamente, e com os melhores recursos disponíveis, uma história que tinha tudo para ser desprezada pelas massas. Mas felizmente, o que aconteceu foi exactamente o oposto do que aquilo que naquele tempo e Hoje, talvez, seria esperado. Um caso raro de popularidade na televisão britânica, que abriu portas para muitas outras séries, e cuja magnificência permaneceu, totalmente, com o passar dos anos. 

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