domingo, 27 de abril de 2014

El Dorado [1966]


I'm paid to risk my neck. I'll decide where and when I'll do it. This isn't it.

El Dorado: essa cidade mítica, repleta de mistérios e ilusões, fonte de inspiração para tantos escritores, artistas e mote para vulgares aspirações quotidianas, que fogem à normalidade e à banalidade da vida. É a terra dos sonhos, que motivou a criação de histórias ficcionais com um teor mais ou menos propício a grandes aventuras. Depende do contexto... e dos gostos do autor. Mas o «El Dorado» de Howard Hawks fala-nos de outros mitos, os que estão ligados ao Velho Oeste e às figuras heróicas ou tiranas que habitaram esse espaço da História americana, onde as lendas e os factos de confundem de uma maneira que não pode ser vista em qualquer outro lugar. É um remake não assumido pelo cineasta do western «Rio Bravo», a famosa resposta de Wayne e Hawks às "provocações" políticas de «O Comboio Apitou Três Vezes», um filme que, para a dupla, constituía uma ameaça aos verdadeiros valores dos filmes de coboiada. As semelhanças são evidentes (por momentos até nos parece que os cenários são idênticos!), quer na construção da história, quer na química entre as personagens e as suas características individuais (Mitchum refaz o papel de Dean Martin, como o xerife com problemas de bebida, que tem em mãos um caso que pode por a pequena cidade que vigia em perigo), e na montagem das sequências de maior ação física (e sonora), culminando nos acontecimentos que dão origem ao clímax final, e ao duelo onde tudo estará em jogo. Mas não é por isso que vejamos neste filme uma cópia integral desse formidável título, porque «El Dorado» tem os seus próprios méritos, no espírito de aventura e entretenimento que carrega (e que nos prende, desde o início, à narrativa que está a ser contada), na cinematografia, e na recuperação do espírito dos maiores clássicos do género feitos na década anterior (este remake é dos anos 60, década em que os westerns já não abundavam como em tempos anteriores, mas ainda se conseguiam assinar, esporadicamente, algumas obras curiosas e relevantes dentro desse universo).


É na batalha entre uma família e um grupo de criminosos que se instala o poder dos mitos e a ressurreição dos heróis ancestrais que preenchem o imaginário cultural e popular americano, que é também acompanhado pelos singulares versos de uma poesia de Edgar Allan Poe. E se John Wayne é já por si o maior símbolo da perpetuação dessa mitologia (mostrando, em casos como este, ser um ator melhor do que muitos queriam pensar que ele conseguiria ser) e das vivências e costumes do Velho Oeste, é na figura de Robert Mitchum, estrela do período clássico de Hollywood e de títulos desconcertantes como «O Arrependido» e «A Sombra do Caçador», cujo modo característico de interpretar personagens assenta em características obscuras e nada lineares, que encontramos a outra faceta deste Oeste das diligências, dos "Poney Express" e dos "saloons" repletos de figuras que são a escória da sociedade da época. Enquanto Wayne consolidou, ao longo da sua carreira, a figura de herói pronto para qualquer situação e sarilho, é em Mitchum que encontramos as fraquezas deste universo, e do lado falível e inconsequente que revelam a grande imperfeição destas figuras, e a maneira como facilmente se podem deixar abater e cair perante o resto da comunidade, que nestas autoridades confiam as suas vidas e segurança. Foi um dos primeiros papéis de relevo para o ator James Caan (que mais tarde tornar-se-ia eterno, ao dar corpo ao Sonny Corleone de «O Padrinho»), e John Wayne, felizmente, não surpreende, no papel que só ele sabe fazer. Mas o destaque maior vai para Mitchum, que recupera a personagem de Martin no «Rio Bravo» e faz uma versão só sua, a partir dos mesmos moldes psicológicos, e dessa "ruína" que representa, sabendo levantar-se no momento mais oportuno para conseguir salvar o dia e voltar a restabelecer-se dentro da cidade, que tinha começado a pô-lo de parte por causa dos seus dilemas pessoais, que começaram a afetar o seu trabalho.


É uma grande aventura em estado puro, que mesmo apesar das (inúmeras) falhas técnicas, não consegue parar de encantar e de emocionar quem a vê. Tem o espírito de uma Hollywood que estava já à beira do colapso, mas que ainda queria esforçar-se por fazer bons e marcantes filmes para continuar a fazer uma indústria, sempre em tão constantes e imprevisiveis mutações, funcionar dentro do espírito que os velhos magnatas tinham conseguido concretizar. Ilustração do sonho americano e do patriotismo dos westerns clássicos, Hawks assegurou uma realização firme, e com os seus momentos de brilhantismo, que mostra como a beleza do Cinema pode inovar até mesmo as histórias mais repetidas, que conseguem, assim, ser sempre novas. E pode não ser um dos westerns que mais se sobressai entre os demais, mas não é por isso que «El Dorado» deixa de ser uma peça de Cinema divertida e bem elaborada, que reflete o amor e o carinho de um cineasta, de um ator e de uma indústria pelo género cinematográfico mais americano de todos.

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