domingo, 9 de março de 2014

Deus Sabe Quanto Amei (Some Came Running) [1958]


- I'll have the best room in the house. 
- Seven-fifty a day? 
- I once promised myself that if I had to come back here I'd have the best room in the house.

O que é preciso para criar uma obra prima? Os ingredientes são incertos e difíceis de qualificar e/ou quantificar, mas a subjetividade é mesmo essencial. E porque se continuam a negar os clássicos ou, pelo menos, todas as películas "arcaicas" que não surgem nas coleções duvidosas do IMDb e afins? Pouco se ouve falar de «Some Came Running», o melodrama de Vincente Minnelli que junta poesia e romance com um formidável leque de atores inesquecíveis, e que em português, foi denominado com um dos títulos mais pirosos que uma fita estrangeira já recebeu na nossa língua. Pode ter algum significado? Sim, mas não deixa de ser desnecessário e inútil, dando uma imagem telenovelesca e desprezível a um filme que pouco tem de banal, ligeiro ou convencional. É uma história de amor, uma história da oposição entre dois irmãos, uma história de adultério e paixões não correspondidas e, acima de tudo, uma belíssima composição da vida em sociedade e dos perigos das fragilidades humanas. Injustamente desconhecido do grande público (apesar de ter sido alvo de uma reposição neste nosso país em 2002) como também da crítica especializada, que continua a "martelar" sempre nos mesmos filmes nas repetitivas listas que elegem a nata do Cinema, «Some Came Running» é um tesouro muito bem escondido, mas imperdível. Uma obra cheia de pequenas surpresas, quer na impressionante interpretação de Frank Sinatra (que tanto possui de tenebrosa como de surpreendente), quer na carisma e jovialidade do incrível Dean Martin, e também pela forma inesperada como Shirley MacLaine arrasa tudo e todos com a sua personagem ingénua e loucamente apaixonada pelo protagonista (uma mulher que nos faz lembrar um trabalho posterior, «O Apartamento», e que lhe valeu a primeira nomeação da Academia - que se deve a uma exigência generosa de Sinatra). É o testemunho e a prova da soberba mestria de Minnelli em criar momentos de singular genialidade construtiva e visual, que levanta uma aparentemente simples trama romântica dramática para um nível mais elevado de qualidade e de originalidade, em que a música se alia à magia do CinemaScope para criar algumas proezas técnicas e emocionais únicas no Cinema americano (e não, não estamos a falar apenas do famoso clímax final).


Sim, é mais um character study do que uma narrativa propriamente dita, como afirma o crítico Leonard Maltin, mas «Some Came Running» consegue articular magistralmente as características das suas personagens com as situações em que se envolvem, manipulando a teia de consequências de alguns momentos fulcrais da história, que irão influenciar o último encontro de todas aquelas figuras... e a tragédia fatal que proporcionará o genial e inesquecível desfecho do filme. É um fresco de vidas humanas, dos novos que entram no cenário americano, mais as suas ilusões e amarguras, e dos velhos que continuam a deambular nesta grande peça da existência, à espera que os caloiros lhes tomem lugar e que acabem, no fim, a tomarem o seu lugar e a tornarem-se exatamente iguais a eles. Esta analogia é evidente na junção de Dean Martin, o homem que usa o seu chapéu a qualquer momento e em qualquer lugar, nunca abrindo exceções para tal não se suceder (ou talvez sim...?) e que está a viver um completo vazio quotidiano, alimentado apenas pelo vício do jogo e pelo álcool (ingerido do pequeno almoço até à ceia), e o protagonista de Frank Sinatra, um escritor desiludido, que começa a dar os mesmos passos que o seu comparsa. Mas que se notem as pequenas - e bastante subtis - diferenças entre o "tough guy" antigo e o moderno, e que estão presentes em pormenores curiosos (um deles: enquanto Martin faz a barba de maneira tradicional, Sinatra utiliza uma das tecnológicas máquinas de barbear, novidade para a época). Mas deixemo-nos de simbologias, porque «Deus Sabe Quanto Amei» (aaargh!, a agonia que dá mencionar esta miserável tradução!) é um daqueles filmes-chave de toda a Hollywood, e da essência do "velho" Cinema - que felizmente, nunca deixa de rejuvenescer aos nossos olhos.


O drama das paixões e dos sentimentos em puro CinemaScope é um dos mais belos filmes do Cinema Americano e uma das mais poderosas tramas produzidas pelo condão do classicismo da indústria de Hollywood. Que os mais incautos a designem de telenovela de duas horas e picos, porque não sabem o que estão a dizer; que a maioria das pessoas deite o filme e a sua essência abaixo, porque se deixam levar pela poesia da obra e a confundem com lamechice e floreados desnecessários (é preciso ser-se mesmo ingénuo para não se perceber que Vincente Minnelli assinou uma das fitas mais negras e complexas do technicolor); que os "haters" deitem abaixo todo o grandioso trabalho de realização, interpretação e narrativa (com personagens maiores do que qualquer um de nós) que aqui podemos deslumbrar, apenas porque «Some Came Running» não preenche os parâmetros dos espectadores da atualidade, não tendo medo de se localizar num tempo e espaço preciso. O mais profundo das almas humanas, isso, é intemporal, e transcende qualquer lado datado que possamos dar a uma história tão formidável como esta. A arte de bem contar histórias e de as superiorizar graças aos seus personagens foi poucas vezes tão bem conseguida desta forma na História do Cinema. «Some Came Running» não é para todos os gostos, e hoje em dia não é o filme tão popular como foi antes. Mas é daqueles raros achados americanos que, à semelhança dessa outra obra magistral que dá pelo nome de «Johnny Guitar», são mais apreciados e justamente homenageados deste lado do Atlântico do que no seu país de origem. E bem merece. Este é um daqueles filmes que deveríamos ver mais vezes na televisão (e sem ser no sacrilégio cortado para 4:3!), nesses execráveis tops e noutras coisas mais, e acima de tudo, «Some Came Running» é um daqueles exemplos de encanto universal, que infelizmente, alguns não estão dispostos a receber. Fica para aqueles que sabem ver nas imagens em movimento mais do que simples técnicas de entretenimento fácil e desprovidas de almas. Ninguém deveria abrir barreiras para belíssimas obras primas como esta. Ninguém deveria resistir a esta magistral história de almas perdidas e reencontradas... que lá no fundo, fazem a odisseia que todos nós, no decurso das nossas vidas, teremos de percorrer.

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