Woody Allen: 10 filmes que são melhores que «Annie Hall»


Sendo Woody Allen um dos meus realizadores preferidos, é-me injusto que a maioria das pessoas só se refira a ele pelo filme «Annie Hall». "Chateia-me" um bocadinho que se esqueça uma carreira de quase meia centena de filmes realizados (e mais uns quantos argumentos escritos e interpretados para outros filmes e programas de TV) por se lembrar apenas aquela obra que, para mim (e esta expressão é essencial para o resto do artigo), nem é uma das melhores do seu curriculum. Não digo que não gosto de «Annie Hall» - muito pelo contrário, sou grande apreciador. Mas pura e simplesmente, não acho que seja uma das peças-chave do realizador/argumentista/ator. Tem muitos apontamentos cómicos geniais, mas nos anos seguintes, Woody Allen conseguiu fazer fitas muito melhores, que superam a nível cinematográfico e narrativo a história meio experimental (mas carregada de muito neurotismo) que ele assina e protagoniza com Diane Keaton. Proponho aqui dez filmes de Allen que, se não conhecem, deveriam conhecer. A minha intenção não é comparar obras, mas simplesmente pegar todos os fãs de «Annie Hall» pelo título "provocador" deste post e fazê-los conhecer mais do Woody do que aquilo que já viram. Parem apenas de monopolizar as coisas para um ou outro título deste artista. Ele tem muito mais do que se lhe diga... Comecemos então esta contagem, organizada cronologicamente (e se carregarem em cada um dos epítetos das películas, serão reencaminhados para críticas mais extensas sobre os mesmos que publiquei aqui no blog).



Sim, é outro dos filmes mais famosos do comediante. Mas tem uma fórmula muito mais bem conseguida, aprofundando sentimentos e ilusões que o Woody de «Annie Hall» nunca se lembraria de colocar nas suas narrativas. Além de, a nível cinematográfico, ser um esplendor (graças à maravilhosa fotografia a preto e branco do filme), «Manhattan» é uma das comédias amargas mais bonitas do cineasta e aquela que mais grandiosidade atribui à persona neurótica de Allen.



Um dos filmes-homenagem ao Cinema mais originais de sempre, «A Rosa Púrpura do Cairo» é outro filme de Allen que joga com os sentimentos ilusórios de uma personagem, desta vez uma mulher ingénua que está apaixonada pelo poder dos filmes, e que de repente... vê o seu herói das fitas sair da tela para a amar como ela sempre quis que amasse. Woody brinca também com a realidade e a ficção, ao contrapor o personagem do grande ecrã e o ator que o interpretou, num misto de confusão, romance e drama que faz desta fita uma pérola lindíssima e irrecusável do Cinema americano.



De todos os Woody Allens, este é o meu preferido. Nunca um filme dele me agarrou tanto como este. E gosto tanto dele que me recuso sempre a mencioná-lo na tradução portuguesa literal (que torna a Hannah do título numa cidadã lusitana). Já tinha visto vários trabalhos do Woody antes deste («Annie Hall» incluído!), e depois de ver mais uns outros tantos, não tenho dúvidas em dizer que, até agora, «Hannah e as suas Irmãs» é, para mim, o seu filme mais bem conseguido. Se há algumas das temáticas habituais da correnta woodyalleniana aqui, como há noutras tantas fitas? Há, sim senhora. Mas esta história tem algo de especial. Esta trama de romances trocados, neurotismo existencial e o dia de Ação de Graças vai ainda mais a fundo às preocupações da persona de Woody, não se centrando, porém, apenas nela, e investigando de uma maneira subtil e genial as intenções de cada uma das personagens que compõem esta maravilhosa obra prima. Critiquem-me à vontade, não mudarei a minha opinião.



Um dos dramas mais fortes e psicologicamente complexos do autor. «Crimes e Escapadelas» envolve amores, um crime aparentemente perfeito, e a importância da culpa e da consciência de se ser culpado de algo. É um dos poucos filmes de Woody Allen que nos deixa um gostinho esquisito no organismo, porque percebemos que, como se sucedeu em raras ocasiões, ele quis dar a volta à imagem estereotipada que fazemos dele, e de alguns dos seus filmes mais centrados apenas na sua persona. Surpreendente e envolvente, uma trama à qual ninguém consegue escapar.



Uma das comédias mais divertidas e implacáveis de Woody Allen. Filme de época que homenageia o período dourado dos filmes de gangsters e do domínio do crime organizado numa América que não parava de crescer, é a história dos dilemas de um dramaturgo em busca da sua criatividade, e da estranha paixão que nutre por uma lendária atriz daquele tempo. Mais um filme invulgar na filmografia do autor, que ridiculariza costumes americanos e todas as particularidades de uma época conturbada, que a Sétima Arte se encarregou de embelezar na tela.



É uma sátira às tragédias clássicas gregas (temos direito a um coro que nos conta a história e tudo) e uma belíssima composição das relações humanas em situações mais ou menos atribuladas. Vemos uma das melhores personagens que Woody Allen magicou até hoje (interpretada pela maravilhosa - e Oscarizada - Mira Sorvino) numa das melhores receitas de criatividade do autor, onde ouvimos canções e se faz um apelo ao melhor que há na vida, apesar de toda a porcaria que rodeia este mundo.



O Harry Block da história é uma alusão a outro Block, o de «O Sétimo Selo» de Ingmar Bergman (Mestre pelo qual Woody Allen tem uma grande admiração), na versão definitiva e "ultimate" do retrato de um autor com problemas de criatividade... e que arranja sarilhos reais graças à ficcionalização, nos seus livros, de grande parte da sua vida pessoal. Talvez seja uma autocrítica de Allen aos seus próprios filmes, ou não... mas «Deconstructing Harry» é outra daquelas obras refinadamente hilariantes e geniais do humorista. É o filme mais "hardcore" de Woody, e um dos seus exercícios de escrita mais precisos e existencialmente adoráveis.



Quando estreou, muitos críticos apontaram «Match Point» como o fulgurante e refrescante regresso de Woody Allen aos grandes filmes. Não menosprezando algumas comédias anteriores (que, admito, eu gosto bastante), este filme é isso mesmo. Apesar de SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER poder ser visto como uma espécie de "copy-paste" de «Crimes e Escapadelas» (os temas são parecidos e o desfecho da história também), «Match Point» sobrevive como um filme único do cineasta, que recicla de forma inteligente as suas ideias para dar um retrato fiel da arrogância inglesa. FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER Tem um dos pares românticos mais emblemáticos da cinematografia neurótica do autor, e uma construção notável, que é mesmo de cortar a respiração.



Foi o primeiro Woody Allen que vi no Cinema, e é um dos filmes dele pelo qual me sinto mais apaixonado. Tem uma lindíssima fotografia, que ilumina Paris como poucos realizadores conseguiram fazer, e possui uma das mais interessantes variações da persona allenesca interpretada por outro ator que não o próprio (outro caso notável é o de Larry David no exemplar «Whatever Works»). Filme de nostalgia e dos enganos trazidos pelos pensamentos ilusórios do "antes é que era" e de "antigamente é que tudo era giro", que Allen dirige com sabedoria, criatividade e muita sensibilidade, aproveitando a magia da capital francesa para dar um brilhante colorido a este jogo de paixões, envolvendo épocas e mentalidades distintas.



O mais recente trabalho de Allen, e uma das suas obras primas modernas, vai ficar para a História não só pela recriação de uma Blanche DuBois moderna, e pela crítica acérrima e muito ácida que a narrativa elabora contra as máscaras de cada um de nós: «Blue Jasmine» sai valorizada por causa de Cate Blanchett. E isso é inegável. O Oscar foi 100% merecido e são raras as ocasiões em que podemos ver uma interpretação tão fulminante como a da genial atriz neste filme. É um murro no estômago, que provoca gargalhadas inconvenientes e que não pode sair do nosso pensamento tão depressa como gostaríamos. Que se calem as bocas que condenam a eterna reciclagem que Woody Allen impõe a si próprio: «Blue Jasmine» veio comprovar que isso é não é de todo verdade. Que ele nos continue a surpreender assim! 

Comentários

  1. Epá.... então e o Interiors, não devia estar na lista???
    Pronto, quem faz listas arrisca-se a isto, né? Mas eu até acho que a lista é uma boa lista.

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    1. Como todas as listas, esta pode estar sujeita a alterações :)

      Dos 26 filmes realizados pelo Woody que vi, nenhum deles teve ainda a sorte de ser o «Interiors».... um dia destes a falha será colmatada! ;)

      rui

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  2. Rui, concordo com a tua premissa. Vejo muita gente dizer que depois dos anos 80 Woody Allen não fez mais nada de jeito. E provavelmente nem viram os filmes, ou queriam ver o Annie Hall repetido infinitamente. Não faz qualquer sentido. A tua lista aponta 10 filmes que considero geniais. Tal como haveria mais alguns, felizmente. Eu ainda acrescentaria "Radio Days", "Husbands And Wives" e "Vicky Cristina Barcelona". Já agora, para mim "Interiors" é um tiro falhado.

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    1. Gosto muito dos dois primeiros que mencionaste, ainda não tive oportunidade de ver o VCB também. Cumprimentos!

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