Grau de Destruição (Fahrenheit 451) [1966]


A quinta realização de François Truffaut resultou no seu primeiro filme a cores e no único falado totalmente em inglês: «Fahrenheit 451» teve uma produção atribulada, marcada pelos conflitos entre o cineasta e o seu ator principal, Oscar Werner (que tinha sido o Jules de «Jules e Jim», uns anos antes) e por uma direção artística complicada, marcada pelas exigências dos estúdios poderosos que estiveram envolvidos na execução do filme. As opiniões sobre esta adaptação da magistral história de ficção científica (que de fantasia tem muito pouco, e é mais realista do que se possa pensar) divergem, e a minha não é das mais favoráveis. É difícil falar de um filme como este sem nunca se ter em conta um livro com a envergadura de «Fahrenheit 451», uma ode à cultura e à capacidade do ser humano de ler e de dar novos mundos ao mundo. Mas tentemos distanciar-nos: François Truffaut tentou ser um Hitchcock sci-fi, que se aproveita dos ambientes distópicos e totalitários da criação de Ray Bradbury e usa até o compositor mais habitual do mestre do suspense, Bernard Herrmann (sugerido por Bradbury ao realizador), para aumentar o ambiente obscuro e sombrio, a tensão e o drama desta adaptação. E é mesmo a música de Herrmann que acaba por ser o melhor do filme, uma tentativa falhada de se fazer bom Cinema porque se sente que não há liberdade, mas demasiado constrangimento para Truffaut poder realizar o filme que tinha em mente (o que não deixa de ser irónico, tendo em conta a liberdade de que nos falam as desventuras de Guy Montag). As boas ideias de Truffaut são evidentes (a começar pelos créditos iniciais, que em vez de aparecerem em texto para ser lido, são ditos por uma voz-off, o que vai de encontro ao ideal anti-leitura da ditadura da história), mas não são suficientes para suportar uma construção desequilibrada e desnorteada, que se perde em truques de câmara, uma gigante falta de timing de certos momentos e uma série de atores que nada têm a ver com as personagens que interpretam: enquanto algumas personagens representam certas figuras-tipo presentes na obra literária (a cabeça "oca" da mulher de Montag e das suas amigas, viciadas na televisão e o exemplo típico dos efeitos da política ditatorial, o chefe autoritário dos bombeiros, etc), outras destoam por causa da performance de quem as encarna: Oskar Werner, por exemplo, não sabe o que fazer com Montag, e sempre que abre a boca, ou sai uma entoação errada (e não, não é por causa do sotaque!) ou a sua expressão facial, completamente nula, não coincide com os valores da sua personagem. Felizmente que o ator melhora nas cenas de maior clímax, mas no final, e com muita pena, fica por perguntar: Mas o que é que se passou aqui, Truffaut?!


A culpa não é só da produção em si, e da falta de engenho que se consegue ver na elaboração da trama (sim, há coisas que, tanto agora como em 1966, se podem considerar mal feitas). É preciso dizer também que «Fahrenheit 451» não sobreviveu muito bem ao tempo, e o seu retro-futurismo deixou de ser tão atual em termos visuais. E o que faz pena é que se poderiam ter feito as coisas de outras formas mais simples... mas não, é preciso executar tudo sempre da maneira mais espetacular, mesmo quando não se sabe se vai dar certo ou se vai dar para o torto. É difícil, para o século XXI, acreditar na simplicidade tão forte da obra de Ray Bradbury, se inserido no lado demasiado cronológico que Truffaut emprega na sua fita. Os excessivos fade-outs e a rapidez galopante e excessiva da câmara não fizeram as minhas delícias, mas o filme retrata bem a crítica à vulgaridade e ao conformismo das maiorias que o livro enuncia tão perspicazmente. «Fahrenheit 451» perde-se em mil e uma coisas, tal como esta crítica se está a perder, por não saber restringir-se ao essencial. Fica o sabor de um filme mediano com potencial desperdiçado, em que apenas chamam a atenção os detalhes visuais e narrativos que Truffaut cria para acompanhar as fantásticas personagens de Bradbury. Mas sentimos a falta da chama a esta adaptação, que não consegue ser mais do que isso: uma adaptação, não se destacando por si só como um filme admirável. Mas é para isso que estes simples filmes servem: para despertar a "ira" dos fiéis do livro, e para atrair a atenção das pessoas que não conheçam a história original para irem descobrir um mundo mais imaginativo e livre do que estas imagens proporcionam. Se houve criatividade em «Fahrenheit 451», a mesma foi denegrida por razões que não podemos adivinhar. Sim, é um filme agradável, interessante, com mecanismos relevantes e ideias fundamentais para cineastas das gerações seguintes, e fica a simbologia e a filosofia da obra literária bem expressa, com o hino à esperança no poder da cultura. Mas não se pode negar que «Fahrenheit 451» é um filme desprovido de sentimento, e com marcas industriais que retiram toda a sua individualidade e que estragam toda uma boa base criativa...

* * * 1/2

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