Astérix entre os Pictos - a ressurreição dos gauleses


Desde que o genial René Goscinny deixou este mundo e, por conseguinte, de escrever as aventuras de Astérix, Obélix e companhia, Albert Uderzo tentou continuar sozinho o difícil trabalho de criar novas e refrescantes peripécias para os gauleses mais famosos do mundo. Infelizmente, e como todos sabem, essas experiências foram sempre infrutíferas, em qualidade, mas benéficas, em lucro e em exploração de merchandising das personagens. Nem preciso de falar do último álbum assinado por Uderzo, «O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça», que destrói por completo qualquer memória daquilo que a arte de Astérix trouxe à banda desenhada. Astérix, por muito bem que Uderzo o desenhasse, devia a sua alma e a sátira do seu universo à impagável escrita de Goscinny, que brilhou a criar personagens e a dar um bocadinho de si a artistas tão variados (leiam-se as hilariantes aventuras do Menino Nicolau, espalhadas por vários livros da Editorial Teorema, bem como as diversas histórias de Lucky Luke que assinou e que revelam uma boa parte do melhor que o cowboy mais famoso da BD viveu nos quadradinhos) que nunca conseguiram "livrar-se" do legado deixado pelo autor.

Com a idade avançada (e provavelmente, por já lhe faltarem ideias para continuar a fazer álbuns sem grande inspiração de escrita e de desenho), Uderzo decidiu passar o testemunho a dois jovens artistas da BD, que já tinham dado cartas em vários projetos com grandes heróis da nona arte. E uma coisa é certa: este «Astérix e os Pictos» é bem melhor que qualquer um dos álbuns que Uderzo assinou a solo... mas também isso pode não ser algo positivo, porque sinceramente, não é difícil ultrapassar aquelas fracas histórias. Continua a faltar às ideias de Jean-Yves Ferri e ao desenho bem imitado de Didier Conrad o espírito que tornou tão característica a crítica cómica detalhada e muito inteligente que Goscinny deu à sua personagem. Mas há a tentativa de voltar aos velhos tempos e, apesar de quase sempre falharem redondamente, os dois autores conseguem criar alguns momentos bastante interessantes de humor e de BD, com as ilusões que fazem entre os Pictos e a cultura anglo-saxónica. 

Nunca deixamos de sentir que falta ali qualquer coisa, é certo, mas valeu a tentativa, porque Ferri e Conrad não se saíram nada mal. É apenas mais um cativante álbum de Astérix, mas também não podemos ser demasiado críticos: esta foi a primeira incursão dos autores, e quem sabe se nas próximas eles não amadurecerão e conseguirão incluir mais complexidade nas novas histórias que estão a magicar? Lembremo-nos de como os novos autores de Lucky Luke melhoraram a olhos vistos desde a sua primeira história, «Lucky Luke no Quebeque», produzindo um dos mais notáveis álbuns de toda a série logo de seguida, «O Nó ou a Forca». E não nos esqueçamos também das experiências dos vários novos artistas que agora dão vida a Blake e Mortimer, e que estão constantemente a surpreender com as reviravoltas que dão ao trabalho original de Edgar P. Jacobs, sem nunca faltarem ao respeito do seu Mestre. 

Que continue então esta dupla a renovar Astérix, porque já conseguiram trazer um bocadinho do cheirinho dos velhos tempos. Mesmo que seja um bocadinho minúsculo, não deixa de ser alguma coisa, que Uderzo nunca conseguiu alcançar enquanto estava sozinho com a tarefa. E dou uma ideia para um dos próximos álbuns: será que poderemos ver um dia destes os gauleses a passearem-se pela Lusitânia? Até já estou a imaginar pequenos apontamentos satíricos envolvendo romanos, portugueses, fado e pastéis de nata. Olhem que até pode ficar giro!

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